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Três Lagoas
quarta-feira, 1 de abril de 2026

Indústria de celulose avança em eficiência hídrica e reduz consumo de água por tonelada produzida

Modernização tecnológica e sistemas de reuso colocam o Brasil entre os modelos mais avançados do setor, com desafios crescentes na gestão regional dos recursos hídricos

A indústria de papel e celulose ocupa posição estratégica na economia brasileira, especialmente em polos produtivos como Três Lagoas (MS), considerado um dos maiores do mundo no setor. Responsável pela produção de insumos essenciais — como papel, embalagens e derivados —, a atividade historicamente esteve associada ao uso intensivo de água. No entanto, avanços tecnológicos e exigências ambientais têm transformado esse cenário nas últimas décadas.

Hoje, o setor caminha para uma operação cada vez mais eficiente, com redução significativa no consumo hídrico e maior controle sobre os impactos ambientais.

Ciclo da água: da captação ao reuso

Indústria de celulose avança em eficiência hídrica e reduz consumo de água por tonelada produzida
Imagem ilustrativa produzida por inteligência artificial (Divulgação)

O funcionamento de uma fábrica de celulose depende diretamente da água, elemento essencial em praticamente todas as etapas produtivas. O ciclo começa na captação, geralmente realizada em rios próximos às unidades industriais, garantindo abastecimento contínuo.

Na região de Três Lagoas, por exemplo, grandes plantas industriais operam próximas ao Rio Paraná, enquanto outras unidades no estado utilizam a água do Rio Verde (Suzano de Ribas do Rio Pardo) e o Rio Sucuriú (Arauco – ainda em construção). Após a captação, a água passa por rigorosos processos de tratamento para atender aos padrões exigidos antes de entrar no sistema produtivo.

No chamado “coração” da indústria — o processo de transformação da madeira em polpa de celulose —, a água é utilizada para separar fibras, remover impurezas e transportar materiais. Após essa etapa, o líquido residual, conhecido como efluente, contém compostos químicos e precisa passar por tratamento avançado antes de ser devolvido ao meio ambiente.

Tecnologias como processos biológicos, sistemas de oxidação avançada e múltiplas etapas de filtragem garantem que a água devolvida atenda aos padrões ambientais, desmontando a percepção de que a atividade causa degradação hídrica irreversível.

Eficiência hídrica e sistemas fechados

Um dos principais avanços do setor está na adoção de sistemas de circuito fechado, que permitem a reutilização contínua da água dentro da própria fábrica. Essa prática reduz drasticamente a necessidade de captação de água nova e diminui a geração de efluentes.

Além disso, a indústria investe em:

  • reutilização de condensados industriais;
  • melhorias nos sistemas de lavagem da polpa;
  • integração térmica e energética dos processos;
  • controle rigoroso de perdas e purgas;
  • monitoramento em tempo real do consumo hídrico.

Essas medidas não apenas preservam recursos naturais, como também aumentam a eficiência operacional e reduzem custos.

Quanto de água uma fábrica consome?

O principal indicador utilizado para medir o impacto hídrico do setor é o consumo específico de água por tonelada de celulose produzida. Esse índice evoluiu de forma expressiva ao longo das últimas décadas.

  • Fábricas da década de 1990: entre 60 e 80 m³ por tonelada
  • Fábricas modernizadas: entre 35 e 50 m³ por tonelada
  • Plantas de última geração: entre 20 e 30 m³ por tonelada
  • Suzano Três Lagoas: 24,11 m³ de água por tonelada*

(*)a unidade economizou 421.596,6 m³ de água, o suficiente para encher até 169 piscinas olímpicas

A redução é resultado direto da incorporação de novas tecnologias e da pressão por padrões ambientais mais rigorosos. Atualmente, grandes projetos industriais são concebidos desde o início com foco em produzir mais utilizando menos água.

Curiosamente, isso permite que fábricas modernas, com capacidade superior a 2 milhões de toneladas por ano, apresentem consumo específico menor do que unidades menores e mais antigas.

Mitos, sustentabilidade e devolução da água

Apesar de críticas recorrentes, especialistas apontam que a associação entre a indústria de celulose e processos como desertificação não encontra respaldo técnico quando analisada à luz das práticas atuais.

As fábricas modernas operam com sistemas avançados de tratamento e devolvem a água aos corpos hídricos em condições adequadas, seguindo parâmetros ambientais rigorosos. No caso de Mato Grosso do Sul, o setor tem sido citado como exemplo de desenvolvimento aliado à sustentabilidade.

O desafio do futuro: consumo agregado e pressão regional

Indústria de celulose avança em eficiência hídrica e reduz consumo de água por tonelada produzida
Após todo o processo industrial as folhas de celulose são enfardadas e recebem códigos de barras, uma prática essencial para a rastreabilidade, controle de qualidade (Foto: Assessoria)

Se, por um lado, o consumo individual das fábricas tem diminuído, por outro surge um novo desafio: o impacto coletivo das plantas industriais concentradas em uma mesma região hidrográfica.

No chamado “Vale da Celulose”, em Mato Grosso do Sul, projetos de grande porte operam ou estão em implantação, formando um cluster industrial relevante. Individualmente, cada empreendimento comprova viabilidade hídrica nos processos de licenciamento ambiental. No entanto, cresce a preocupação com o consumo agregado ao longo das próximas décadas.

Esse tema já começa a ganhar espaço em análises ESG e avaliações de risco ambiental, especialmente entre investidores e órgãos reguladores.

Sustentabilidade como estratégia de longo prazo

A gestão eficiente da água deixou de ser apenas uma exigência ambiental e passou a ser um fator estratégico para a competitividade da indústria de celulose.

Combinando inovação tecnológica, reuso intensivo e monitoramento contínuo, o setor avança rumo a um modelo mais sustentável. Ainda assim, o equilíbrio entre crescimento industrial e preservação dos recursos hídricos seguirá como um dos principais desafios — especialmente em regiões com alta concentração produtiva.

No fim, mais do que produzir em larga escala, o indicador que ganha protagonismo é outro: quanta água é necessária para produzir cada tonelada de celulose.

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