29.9 C
Três Lagoas
quinta-feira, 19 de março de 2026

Sexualidade na Escola: Começando uma conversa.

12/11/2007 16h43 – Atualizado em 12/11/2007 16h43

Autora: Selma Alves de Freitas Martin

A sexualidade não tem sido até o momento entendida por maioria dos profissionais da escola, enquanto uma dimensão do ser humano, que tem suas manifestações diferenciadas em cada etapa ou fase do desenvolvimento e que essas manifestações são peculiares em cada pessoa. Muitas vezes, é ainda vista com entendimento genitalizado, mitificado e carregado de tabus, carecendo assim, de conhecimento teórico/científico sobre o assunto. Segundo Nunes e Silva (2000), a sexualidade é uma das dimensões fundamentais da condição humana e que, pela própria importância, influi em todos os demais aspectos psicossociais da formação da criança, sendo assim faz-se necessário repensar esta questão no âmbito escolar. É este, portanto, o objetivo desse artigo: uma reflexão sobre a escola e a sexualidade. Para que a escola seja uma instituição que respeita e faz respeitar o ser humano e às diversidades, precisa que os educadores e a comunidade escolar reflitam conjuntamente sobre o seu papel, sobre as diferenças humanas que nela interagem, que pense cada aluno como cidadão em formação que trás consigo valores e conhecimentos oriundos das famílias em que estão inseridos, que buscam o saber em todos os sentidos de sua vida. “A escola deve ser entendida como instituição social inserida na práxis social como um todo e seu papel deve ser de formação de homens e mulheres omnilalaterais, capazes de apropriação plena da condição humana e inserção emancipatória no mundo do trabalho, da cultura e das vivências sexuais realizadoras”(NUNES E SILVA, 2000, p ). Todo aluno, independente da forma como se expressa em sala de aula, traz dúvidas e curiosidades relativas à sexualidade que carregam durante um longo período da vida, muitas vezes, causando-lhes angústias. A importância da percepção do professor é pois muito grande. De acordo com Louro, perceber estes aspectos é extremamente importante pois, “Os sentidos precisam estar afiados para que sejamos capazes de ver, ouvir e sentir as múltiplas formas de constituição dos sujeitos implicados na concepção na organização e no fazer cotidiano escolar”.( p , 2003) As informações transmitidas atualmente pela mídia, muitas vezes banalizam a sexualidade, destituindo-lhe dessa dimensão humana. Se os educadores não conseguem entender a sexualidade enquanto um aspecto natural e saudável da condição humana, pode reforçar a banalidade, o desrespeito e certos valores que impedem os indivíduos de exercerem sua sexualidade com autonomia. Segundo (FIGUEIRÓ, 1999), todos nós educamos sexualmente, formalmente quando organizamos um trabalho sobre o assunto e trabalhamos com nossos alunos sistematizadamente ou informalmente, quando orientamos sobre alguma dúvida que surge no momento ou até quando nos negamos a falar do assunto e levamos o aluno a calar-se. Todos exercemos a educação informal, e é a que corre maior risco de transmitir idéias e valores errôneos. Acreditamos que o aluno tem muitas inquietações sobre esse assunto, caso sentir-se convidado a se calar, muito provavelmente, levará consigo, pela vida, o entendimento de que este assunto é proibido, perdendo assim a oportunidade de falar sobre suas angústias e tirar suas dúvidas, para que possa viver uma sexualidade mais saudável e feliz. Será que é tão difícil auxiliar o aluno nesses momentos de dúvida? Tornaria-se mais fácil se conseguíssemos entender a sexualidade como parte de nossa condição humana e que, querendo ou não, as sensações de prazer, as angústias, os medos etc, podem aparecer a qualquer momento. “A criança possui, desde o princípio, o instinto e as atividades sexuais. Ela trás consigo para o mundo, e deles provém, através de uma evolução rica de etapas, a chamada sexualidade normal do adulto. Não são difíceis de observar as manifestações da atividade sexual infantil; ao contrário, deixá-las passar desapercebidas ou incompreendidas é que é preciso considerar-se grave (Freud, 1970, pp. 39-40). Convido os educadores a pensar um pouco sobre a sexualidade através do exemplo que se segue: Se durante a aula, um aluno começa a comer um lanche, provavelmente a professora vai dizer a ele que não é hora nem lugar adequados, que todos devem estar com fome. Assim, pedirá ao aluno que aguarde o momento do intervalo. O aluno diz: “Tudo bem professora”, e aguarda o horário. Pois bem, quando um professor se depara com um aluno se masturbando (muitas vezes ainda está na fase exploratória do corpo) na sala de aula como será que o docente reage? Vamos analisar a situação acima. O professor apontou para o aluno que ali não era hora e nem lugar de lanchar, da mesma forma na situação da criança se masturbando. A professora dirá a este aluno que este ato é natural e gostoso, no entanto, na sala de aula não é lugar, pois é um ato íntimo e individual, que deve ser feito quando estiver no seu local de privacidade, como o quarto ou banheiro. Esta seria uma das formas de educação informal positiva, que levaria o aluno a compreender o desejo de se tocar e as sensações de prazer, sem se sentir culpado ou com medo e já saberia que é um ato particular e íntimo. De acordo com Ribeiro (1997), é muito difícil para a mulher lidar com a própria sexualidade, com tabus e certos valores construídos, pois vivemos em uma sociedade que, durante muitos anos, viveu a interdição do corpo feminino. E ainda de acordo com Melo (2004), “E ter o corpo negado como Ser no mundo, é ver negado o próprio mundo”, portanto trabalhar esta dimensão de corpo no mundo com educadores é extremamente importante, levando-os a refletir sobre sua própria corporeidade para que possam entender a corporeidade dos alunos. Os educadores, em sua grande maioria mulheres, ainda hoje não conseguem compreender a sexualidade enquanto dimensão humana, que será vivida de uma forma ou de outra, (muito embora não significa que os professores do gênero masculino estejam mais preparados). Dessa forma, está sendo dificultado o trabalho, prolongada a angústia dos alunos e os docentes estão perdendo a oportunidade de participar do crescimento integral dos mesmos, durante o período de tempo em que passam com os professores, período este, muito significativo para a sua vida posterior. Seria interessante se os professores se despertassem para estudar essa dimensão tão importante do ser humana, a sexualidade, de maneira emancipatória. “A emancipação pode ser entendida como a formação para a compreensão plena, integral, histórica, ética, estética e psicossocialmente significativa e consciente das potencialidades sexuais humanas e sua vivência subjetiva e socialmente responsável e realizadora” (Nunes e Silva 2000). Que todos os professores pensassem o aluno como um todo indivisível, pois segundo Figueiró: “Há no entanto, necessidade de salientar que Educação Sexual não deve ser vista como uma ação que ocorre à parte da educação global do indivíduo, mas, pelo contrário, deve ser entendida como parte da mesma”. (2001 p. xvii) O professor que se preocupa com a integralidade do aluno se disponibiliza a pensar junto com eles sobre assuntos relativos à sexualidade, que surgirem dentro da sala. Mesmo que não saibam, mas propondo-se a pesquisar juntos. Certamente, tanto o professor quanto o aluno, terão um bom crescimento pessoal. Este professor será mais respeitado pela turma e será sempre lembrado por eles como alguém que os ajudou a crescer como seres humanos e cidadãos.

Autora: Selma Alves de Freitas Martin Professora de Ciências – Especialista em Educação em Saúde Pública. Mestranda em Educação – FCT – Unesp Pres. Prudente – 2007. Membro do NUDISE – Núcleo de Diversidade Sexual na Educação/UNESP. Co-autora: Profa. Dra. Livre Docente Arilda Inês Miranda Ribeiro Pós Graduação em Educação – FCT – Unesp – Presidente Prudente-SP Coordenadora do
NUDISE – Núcleo de Diversidade Sexual na Educação – UNESP.

Leia também

Últimas

error: Este Conteúdo é protegido! O Perfil News reserva-se ao direito de proteger o seu conteúdo contra cópia e plágio.