Após anos de anúncios frustrados e descrença da população, reativação da fábrica de fertilizantes de Três Lagoas ganha corpo com mobilização no canteiro e declaração pública do presidente da República
Depois de mais de uma década de paralisação, sucessivos anúncios de retomada que nunca se concretizaram e uma crescente desconfiança da população local, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas, começa a dar sinais concretos de que a tão aguardada retomada das obras finalmente saiu do papel.
O empreendimento, considerado um dos maiores projetos industriais já instalados em Mato Grosso do Sul, teve suas obras interrompidas em dezembro de 2014 quando já apresentava cerca de 80% de execução. Desde então, diferentes governos e gestões da Petrobras anunciaram possibilidades de retomada, mas nenhuma delas avançou efetivamente, alimentando o ceticismo da comunidade local e dos empresários que sofreram os impactos da paralisação.
Agora, porém, a situação parece diferente. Além da movimentação efetiva para reativação do empreendimento, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou publicamente o compromisso do governo federal com a conclusão da fábrica. A declaração foi divulgada em vídeo publicado na página oficial da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, no LinkedIn.
Durante visita à Fafen de Sergipe, unidade de fertilizantes da estatal que voltou a operar, Lula destacou a importância estratégica da produção nacional de ureia para a agricultura brasileira e citou diretamente a fábrica de Três Lagoas.
“Lamentavelmente, o Brasil fechou essa fábrica, fechou na Bahia, fechou no Paraná, não completou a fábrica que a gente estava fazendo em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. E agora a gente está retomando tudo isso, vai concluir a outra de Três Lagoas”, afirmou o presidente.
Em tom descontraído, Lula exibiu um punhado de ureia e fez um comentário que rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais.
“Presta atenção nisso aqui, ó: ureia. Não é açúcar, não é sal, não é sorvete de coco, nem sorvete de tapioca. Isso aqui é ureia”, brincou.
Ao longo do vídeo, o presidente defendeu a autossuficiência brasileira na produção de fertilizantes, argumentando que a retomada das unidades da Petrobras fortalece a soberania nacional e reduz a dependência de importações em um setor considerado estratégico para o agronegócio.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, também ressaltou o papel da estatal na retomada da produção nacional de fertilizantes.
“Estamos recuperando a alma estatal dessa empresa Petrobras”, declarou, acrescentando que a companhia busca atuar de forma alinhada aos interesses da sociedade brasileira.
Histórico de promessas e frustração
Em Três Lagoas, a notícia é recebida com uma mistura de esperança e cautela. Ao longo dos últimos anos, a população acompanhou uma sequência de anúncios envolvendo venda, parceria, retomada e conclusão da UFN3, sem que qualquer deles resultasse na reativação efetiva do projeto.
A obra, que chegou a mobilizar milhares de trabalhadores durante sua construção, foi interrompida deixando um rastro de prejuízos econômicos, desemprego e insegurança jurídica. O impacto atingiu diretamente dezenas de empresas locais que prestaram serviços ou forneceram materiais para o empreendimento.



Por isso, a confirmação pública feita pelo presidente da República é vista como um marco importante, especialmente por vir acompanhada de ações concretas para a retomada do projeto.
Quando concluída, a UFN3 terá capacidade para produzir aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de ureia e cerca de 70 mil toneladas de amônia por ano, reduzindo a dependência brasileira da importação de fertilizantes nitrogenados e fortalecendo a cadeia produtiva do agronegócio nacional.
Além do aspecto estratégico para o país, a conclusão da unidade deverá gerar milhares de empregos diretos e indiretos, movimentando a economia de Três Lagoas e de toda a região leste de Mato Grosso do Sul.
Empresários cobram solução para dívida milionária

Entretanto, a retomada da obra também reacendeu uma antiga reivindicação dos empresários locais que ficaram sem receber pelos serviços prestados durante a fase anterior do empreendimento.
Aproveitando a publicação feita por Magda Chambriard no LinkedIn, o advogado Humberto Garcia Junior, representante de mais de 80 empresas credoras, deixou um comentário direcionado à presidente da Petrobras cobrando uma solução para o passivo existente.
Segundo ele, os prejuízos acumulados ultrapassam R$ 150 milhões e atingiram diretamente dezenas de fornecedores da região.
“Celebramos a retomada das obras da UFN3, mas não podemos esquecer os que ficaram pelo caminho. A Petrobras carrega um passivo de cerca de R$ 150 milhões com os empresários de Três Lagoas, além de um dano moral inestimável”, escreveu.
No texto, o advogado destaca que muitos empresários investiram recursos próprios, entregaram serviços e confiaram no empreendimento, mas acabaram enfrentando falências e dificuldades financeiras após a interrupção das obras.
“Ao anunciar a retomada, o silêncio sobre esses credores é ensurdecedor”, afirmou.
Humberto Garcia de Oliveira também reiterou que o grupo de empresários permanece aberto ao diálogo e questionou qual será a postura da atual gestão da Petrobras diante das famílias e empresas que ainda aguardam uma solução para o caso.
A cobrança resgata uma das páginas mais sensíveis da história da UFN3. Enquanto a retomada da obra representa uma nova perspectiva de desenvolvimento para Três Lagoas e para o país, a expectativa dos credores é que o recomeço do projeto também seja acompanhado da reparação dos prejuízos deixados pela paralisação.
Após anos de promessas não cumpridas, a população três-lagoense acompanha os acontecimentos com atenção. A diferença, desta vez, é que os sinais de retomada já não se limitam ao discurso político: eles começam a aparecer no próprio canteiro de obras, reacendendo a esperança de que a UFN3 finalmente deixe de ser um símbolo de frustração para se transformar em realidade.




