Senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
Nesta semana, a cidade de Três Lagoas voltou a respirar esperança.
Após mais de doze anos de promessas, anúncios, paralisações, incertezas e sofrimento, a retomada das obras da UFN3 – Unidade de Fertilizantes Nitrogenados – reacende um sonho que jamais deveria ter sido interrompido. Um sonho que nasceu para fortalecer a agricultura brasileira, garantir soberania ao país na produção de fertilizantes e impulsionar o desenvolvimento econômico de toda uma região.
Mas junto com a esperança, renasce também uma ferida que nunca cicatrizou.
Uma ferida aberta no coração de centenas de famílias, empresários, trabalhadores e cidadãos que acreditaram na grandeza daquele empreendimento e que, ao invés de prosperidade, receberam abandono.
Quando as obras da UFN3 foram interrompidas, não foram apenas máquinas que pararam.
Pararam projetos de vida.
Pararam investimentos.
Pararam sonhos.
Pararam empresas.
Segundo levantamentos realizados à época, mais de 133 empresas de Três Lagoas ficaram com prejuízos acumulados que ultrapassam R$ 36 milhões. Restaurantes, hotéis, alojamentos, oficinas mecânicas, clínicas médicas, empresas de refrigeração, transportadoras, fornecedores de materiais e prestadores de serviços confiaram na força de um projeto que tinha a Petrobras como protagonista.
Acreditaram que estavam trabalhando para um empreendimento sólido, seguro e transformador.
Em vez disso, receberam o silêncio.
Receberam dívidas.
Receberam portas fechadas.
Receberam a angústia de não saber como honrar seus compromissos.
Muitos empresários perderam tudo o que construíram durante décadas.
Muitos encerraram suas atividades.
Outros deixaram a cidade.
Alguns enfrentaram graves problemas emocionais e psicológicos.
Há relatos de pessoas que chegaram ao limite do desespero diante das cobranças, da falência iminente e da ausência de respostas.
O que era para ser símbolo de progresso tornou-se símbolo de dor.
E essa dor permanece viva.
Mais de uma década depois, homens e mulheres continuam percorrendo corredores da Justiça em busca de algo que nunca deveria ter sido negado: o direito de receber pelo trabalho realizado.
Informações obtidas por este jornalista apontam que, em determinado momento, uma ação movida pela Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas conseguiu na Justiça o bloqueio de aproximadamente R$ 36 milhões em contas da Petrobras. No entanto, o destino desses recursos permanece envolto em dúvidas e questionamentos que até hoje não foram plenamente esclarecidos à sociedade.
Enquanto isso, aqueles que sofreram os prejuízos seguem esperando.
Esperando por justiça.
Esperando por reconhecimento.
Esperando por dignidade.
Senhor Presidente,
Sua presença em Três Lagoas para o anúncio da retomada da UFN3 possui um significado histórico.
O Brasil precisa dessa fábrica.
O agronegócio brasileiro precisa dessa fábrica.
A segurança alimentar do país precisa dessa fábrica.
A produção nacional de fertilizantes precisa dessa fábrica.
Se a UFN3 tivesse sido concluída dentro do cronograma originalmente previsto, certamente teria contribuído de forma decisiva para reduzir a dependência brasileira das importações de fertilizantes, amônia e insumos estratégicos para o campo.
O Brasil teria sido mais forte.
Mais competitivo.
Mais soberano.
Mas não é possível inaugurar um novo capítulo sem antes reconhecer as páginas de sofrimento que ficaram para trás.
Por isso, esta carta não é apenas um pedido.
É um apelo.
É um clamor.
É a voz de empresários que resistiram.
É a voz de famílias que sofreram.
É a voz daqueles que foram esquecidos pelo tempo.
Que a retomada da UFN3 não represente apenas o reinício de uma obra física.
Que represente também a reconstrução da confiança.
Que represente a reparação de uma injustiça histórica.
Que represente o reconhecimento daqueles que ajudaram a erguer esse projeto e acabaram soterrados por sua paralisação.
Seria um gesto de grandeza.
Seria um gesto de humanidade.
Seria um gesto de justiça.
Que a Petrobras, juntamente com o Governo Federal, encontre os caminhos legais e institucionais para encerrar definitivamente esse capítulo doloroso, honrando compromissos e dando respostas a quem há mais de doze anos espera por elas.
Nenhuma obra é verdadeiramente grandiosa quando deixa para trás pessoas abandonadas.
Nenhum empreendimento pode ser considerado um símbolo de desenvolvimento se sobre ele ainda repousam lágrimas, falências, frustrações e histórias interrompidas.
A retomada da UFN3 precisa ser celebrada.
Mas a justiça também precisa acontecer.
Três Lagoas merece o futuro.
Mas também merece respeito pelo seu passado.
E aqueles que ajudaram a construir esse sonho merecem, acima de tudo, dignidade.
Que esta carta chegue aos olhos das autoridades.
Que esta mensagem alcance os corações daqueles que têm o poder de decidir.
E que a retomada da UFN3 seja lembrada não apenas como o retorno de uma obra, mas como o momento em que o Brasil escolheu fazer justiça.
Atenciosamente,
Ricardo Ojeda
Jornalista – Perfil News




