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quinta-feira, 19 de março de 2026

Trinta anos de sonhos e pesadelos

08/10/2007 10h40 – Atualizado em 08/10/2007 10h40

Valfrido Silva *

Tito Lívio, o historiador que narrou a história de Roma ab urbe condita (desde a fundação da cidade), de 753 a.C até o início do século da era comum dizia que “as decisões atrevidas e ousadas parecem, à primeira vista, felizes, mas tornam-se de difícil execução quando postas em prática, e geralmente acabam mal.” Trinta anos se passaram e uma pergunta continua sem resposta: será que foi uma boa decisão dividir o Mato Grosso? Pedro Pedrossian, o governador que tirou o Mato Grosso do estado de letargia e que tentou encaminhar um Mato Grosso do Sul ainda embrionário pelo caminho do bem, talvez tenha respondido a esta pergunta, mas um pouco tarde, em seu livro “O pescador de sonhos”: “naquela época, sempre de olhos no futuro, recusei o imediatismo do inconseqüente discurso divisionista, que, na minha clara visão, nos alijaria das últimas grandes conquistas do século XX (…) Eu lamentava a idéia daqueles dois territórios irmãos serem desmembrados, pela certeza de que, separados, significariam menos do que cada metade e somados valeriam mais que dois”. Lamentava, mas não fez nada para impedir o fato, já que, nascido em Miranda, por aqui pretendia dar cabo à sua missão como grande tocador de obras. A verdade é que a divisão do Mato Grosso configurou-se como um dos grandes equívocos do regime militar, se olhada pela ótica dos divisionistas históricos de que o Sul trabalhava para sustentar o Norte. Passados trinta anos, fica cada vez mais claro que se a questão era de trabalho então se inverteu o arraigado conceito da indolência cuiabana e de adjacências, já que o Mato Grosso vem quebrando seguidos recordes de produtividade, com uma maior diversificação de culturas e melhor aproveitamento de seu potencial turístico. Equívocos que se amontoam se tomado por base o processo histórico de tantas guerras se alastrando pelo mundo pela a anexação de cada vez mais e mais territórios enquanto aqui a briga foi para abrir mão de um pedaço significativo do Pantanal, da paradisíaca Chapada dos Guimarães, de rios, como o Araguaia, e de tantas outras maravilhas que ficaram lá pra cima. Talvez o sonho do Estado moderno tenha começado a se transformar em pesadelo com as disputas políticas que antecederam sua criação. O entrevero entre o próprio Pedrossian, que se achava no direito de ser o primeiro governador, e seu ex-aliado, senador Antonio Mendes Canale, desembocou na nomeação de um estranho no ninho, Harry Amorim Costa, e a partir daí a coisa ficou difícil de se encaixar. Quando Pedrossian conseguiu, enfim, assumir o governo, depois de derrubar Harry Amorim e seu sucessor, Marcelo Miranda, a ansiedade de querer fazer “tudo” no pouco tempo que lhe restava naquele primeiro período de governo resultou numa enorme herança de obras inacabadas. Nem ele próprio, voltando para um segundo governo, e seus sucessores, Wilson Martins (e Ramez Tebet) e o mesmo Marcelo Miranda, de novo; depois Zeca do PT, conseguiriam acabá-las. Até hoje, por exemplo, a maior obra iniciada no primeiro governo de Pedrossian – o Parque dos Poderes – não está concluída, pois que falta construir, ainda, o Palácio do Governo. No aspecto político, também, parece que o velho Mato Grosso passou um corretivo histórico no filho rebelde. Enquanto aqui, nestes trinta anos, o poder se revezou entre Pedro Pedrossian e Wilson Martins, exceção à era PT, o Mato Grosso mandou para casa as velhas raposas políticas, brilhando no cenário nacional com Dante de Oliveira e depois com um de seus reis da soja, o atual governador Blairo Maggi, este, já se assanhando até com a presidência da República. Naquele 11 de outubro de 1977, quando chegamos a Brasília para assistir ao ato de assinatura da Lei Complementar que criaria o novo Estado havia um clima tenso no Planalto. O Presidente Ernesto Geisel enfrentava uma rebelião comandada por seu ministro do Exército, general Silvio Frota, e por pouco não perdemos a viagem. Geisel deposto, babau Mato Grosso do Sul! Será que não teria sido melhor? * jornalista: [email protected]

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