21/05/2007 13h08 – Atualizado em 21/05/2007 13h08
Renée Venâncio
Estamos todos enganados. Frei Galvão não é o primeiro santo brasileiro. Na verdade, o primeiro santo brasileiro nunca foi santo, mas sim, uma santa: a Santa Impunidade. Brasileiro que “não” se preza tem que ser devoto dessa santa protetora dos impunes! As vidas dos devotos dessa santa genuinamente brasileira, prosperam com uma velocidade vertiginosa. Os devotos impunes enriquecem ilicitamente com facilidade alucinante. Eles se sentem constantemente protegidos pelo escudo impenetrável do dinheiro fácil. Os devotos da Santa Impunidade rezam todos os dias pra que sejam protegidos das maldades da lei, assim como do demônio maligno chamado JUSTIÇA, que quer carregar a todos pro inferno dos tribunais. “Santa Impunidade! Livrai-nos das garras implacáveis da Polícia Federal”. Essa é a oração rezada pelos devotos da impunidade todas as noites pra que não sejam surpreendidos pelos fantasmagóricos e sombrios Homens de Preto invadindo suas casas logo pela manhã ou assim que o sol nascer. É assim mesmo: os Devotos da Santa Impunidade nunca dormem tranqüilos. A insônia deles é uma penitência, um castigo. Eles acreditam que se dormirem o sono dos justos, estarão pecando contra os Sagrados Mandamentos dos Espertalhões, que diz: “Não dormirás tranqüilamente, pois o sono tranqüilo é a condenação dos amaldiçoados homens honestos”. Eles não oferecem o dízimo: tomam o dízimo para si, em forma de propina. Seus bolsos são lugares sagrados, pois é neles que depositam a fé que professam: a fé no dinheiro sujo. Cruz credo! Cruz? Só se for aquela de ouro maciço e cravejada com diamantes, porém, devidamente guardada num cofre bem seguro ou atrás de uma parede falsa. “Santa Impunidade! Não nos deixai faltar o dólar que alimenta nossa ganância!” Extorquem dolares em nome da santa profana e tiram o pão de cada dia de quem tem fome. Os devotos da Santa Impunidade defendem piamente o Gran Dogma da Justiça Caolha, que exerga de longe os ladrões de galinha e nunca alcança os saqueadores engravatados. Eles temem veementemente o fogo implacável dos anjos negros da lei. Fogo esse, que costumam chamar de pirotecnia desnecessária. Mas é esse fogo de justiça que ilumina as caras de pau desses bandidos de colarinho branco e os revelam diante de um altar repleto de angelicais provas dos crimes cometidos por eles, como se fosse uma humilde oferenda dos Pagãos da Viatura Preta e Dourada ao Cramulhão da Justiça . Os devotos da impunidade se envergonham das algemas em seus punhos, mas não se envergonham da sua desonestidade escancarada como se fosse uma bandeira. Eles acreditam fervorosamente numa espécie de inocência ao avesso e se põem como vilipendiados santos do pau oco diante das câmeras e microfones: “Somos inocentes até que se esgote o último e infindável recurso.” Aos devotos da Santa Impunidade eu rogo uma praga indefensável: “Quero que uma horda de demônios federais infernize suas vidas insistentemente até que o sol nasça quadrado!” Se para os Devotos da Impunidade a honestidade é um pecado mortal, quero blasfemar contra o inimputável sacramento dos crimes de colarinho branco e desejar o limbo de uma cela superlotada para todos eles. Querem ascender uma vela pra Santa Impunidade? Sim? Então se preparem pra arder no mármore frio de uma cadeia. Preparem-se para a visita inesperada das Sombras Negras, que chutarão suas portas bem cedinho, gritando: POLÍCIA FEDERAL!!! E eu, escriba, infiel e pecador que sou, cá estou a cuspir catarros verbais no altar erigido para a glória da Santa Impunidade, que de santa, na verdade, não têm nada. E que o verdadeiro Deus nos preteja de tanta injustiça e ladroagem. Volto em breve com DEVOTOS DA SANTA IMPUNIDADE (PARTE II). Mistérios inacreditáveis serão revelados. “A Polícia Federal quer mudar o Brasil, mas o Brasil precisa querer ser mudado.” Renée Venâncio


