18/04/2019 07h15

O Perfil News fez o trajeto entre Três Lagoas e Água Clara para mostrar as condições da rodovia, cuja recuperação foi anunciada com pompa e circunstância em evento que contou com a presença do então ministro Marun, da Senadora Simone Tebet e de políticos de toda a região

Gisele Berto

No dia 24 de agosto de 2018 o então Ministro e braço direito do ex-presidente Michel Temer, Carlos Marun, veio a Três Lagoas, junto com a Senadora, líder da bancada do MDB e atual presidente da Comissão mais importante do Senado, Simone Tebet, para fazer o tão esperado anúncio de recuperação da BR-262.

“Não é um tapa-buraco, é a recuperação completa”, insistiram ambos, em seus discursos.

No mesmo dia, o Superintendente Regional do DNIT no Mato Grosso do Sul, Thiago Bucker, abriu os discursos dizendo que a obra era “uma realidade”. “As máquinas estão logo ali, no km 40”, ele disse.

Não demorou muito para a “realidade” mudar. As máquinas foram indo embora. As obras, parando.

Questionado pelo jornalista do Perfil News, Ricardo Ojeda, o ministro Marun afirmou que as obras estavam paradas em razão das chuvas.

As chuvas foram embora e as máquinas não voltaram. Apesar de Marun falar, na ocasião, que a verba já estaria na conta do DNIT, a alegação é que o dinheiro, de fato, nunca chegou.

A Senadora Simone Tebet afirmou, na ocasião, que “a imprensa falava que a obra não sairia” e que era verdade, porque “antes” não havia a verba. “Este é um presente que estamos ganhando do Governo”, disse Tebet naquele dia. “Agora, Três Lagoas e região têm uma Senadora da República e o apoio do Ministro Marun”, disse, ao afirmar, categoricamente, que a obra sairia.

“Revi minha posição de ser candidata ao Governo do Estado para estar ‘lá em cima’, onde fica o dinheiro”, disse a Senadora, à época.

Agora, quando ninguém sabe onde está o recurso de R$ 150 milhões que teria sido liberado, o Perfil News tentou entrar em contato com a Senadora, que não retornou aos pedidos da reportagem.

PASSEANDO COM A MORTE

Na última semana, a reportagem do Perfil News percorreu os mais de 100 km entre Três Lagoas e Água Clara para ver, in loco, as condições da rodovia.

Principal via de ligação entre o oeste paulista e o estado do Mato Grosso do Sul, a BR-262 recebe, segundo dados do DNIT, cerca de 3.100 veículos diariamente. Nos últimos dois anos, mais de 40 pessoas perderam a vida na rodovia, apenas no trecho entre Três Lagoas e Campo Grande. Os motivos são claros: a falta de conservação e sinalização da via.

Não há acostamento por quilômetros e, onde há, o mato impera. Além disso, os degraus entre a pista e o acostamento formam declives que podem fazer tombar, facilmente, até carros maiores.

APENAS UM TAPA-BURACO

Apesar do ministro e da senadora garantirem que a obra da BR-262 seria “bem mais do que um tapa-buraco” foi apenas isso o que a reportagem encontrou, durante o dia que fez o trajeto até Água Clara. Isso porque deu sorte.

O tapa-buraco é esporádico e apenas para aliviar um pouco as crateras da pista. Além disso, como o material asfáltico é colocado nos buracos e não há compactação – que é feita pelos próprios carros que passam – a reclamação dos motoristas é que as partículas de betume “voam” e acertam em cheio a pintura e o para-brisa dos carros e a viseira das motos, podendo até quebrar, dependendo da forma como atinge.

A reportagem do Perfil News falou com alguns comerciantes estabelecidos às margens da BR. Apesar de todos os ouvidos reclamarem das condições da via e da redução no número de clientes – já que muitos motoristas preferem o caminho por Bataguassu a encarar os buracos da 262 – nenhum deles quis gravar entrevistas. “Não vou falar, não, porque tenho medo de sofrer uma retaliação e que o DNIT mande fechar o meu acesso”, disse um deles.

Além disso, muitos empresários tentam fazer a manutenção e o fechamento de buracos, pelo menos, nas imediações de seus estabelecimentos. Mas isso não é permitido pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

TRECHO CRÍTICO E COMBOIOS

As proximidades do Córrego do Pombo é o trecho regional da rodovia com o maior número de acidentes. As curvas acentuadas e os buracos na pista são responsáveis por capotamentos e perda de controle da direção.

Além disso, o grande tráfego de carretas – especialmente as de madeiras – torna as ultrapassagens perigosas e arriscadas.

Há um acordo entre o DNIT e as transportadoras para que as carretas não trafeguem em comboio. Elas deveriam ficar a, pelo menos, 500 metros de distância uma da outra. Mas não é o que acontece, na prática.

No “passeio” que a reportagem fez constatou diversos comboios, entre carretas de eucaliptos ou carregando outras mercadorias. Cada carreta tem cerca de 25 metros de comprimento. Ao se “unirem”, torna a ultrapassagem por carros pequenos extremamente arriscada.


BuRaco-262: as obras da principal artéria que liga Três Lagoas à Capital do estado nunca saíram do papel. Na foto, a região do Córrego do Pombo. Foto: Ricardo Ojeda


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Um acordo entre as transportadoras e o DNIT regulamenta que os caminhões não formem comboios, para não tornar arriscadas as ultrapassagens de veículos menores. Mas, na prática, a história é outra. Foto: Ricardo Ojeda


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