26/07/2008 08h10 – Atualizado em 26/07/2008 08h10

Artigo da Revista Realidade, julho de 1975 (publicação da Editora Abril existente na época):

“Um sábado à noite em São Paulo. No Teatro Maria Della Costa, a empresa de espetáculos Difusão está apresentando “Equus”, peça do americano Peter Shaffer. Numa montagem que custou 300.000 cruzeiros, o ator Ewerton de Castro, no papel de um adolescente neurótico, cavalga noite adentro animais endeusados, sob as vistas atônitas de Paulo Autran, um psiquiatra descrente do seu próprio ofício. Em trinta dias, mais de 10.000 pessoas viram a peça, recorde na vida teatral paulista, a mais intensa do país. Nessa mesma noite, num modesto salão da Associação Beneficiente Espírita Jesus, Misericórdia e Luz, no bairro operário da Penha, três moças, num imaginário ritual de bruxaria, colocam ratos e morcegos dentro de um caldeirão.

Gargalhadas histéricas e um som cavo de tambor acompanham as evoluções das feiticeiras pelo gasto chão de madeira, com espaços marcados a giz. Elas estão ensaiando “Macbeth”, de Shakespeare. Pertencem ao Grupo Teatral Jambaí. Os próprios atores montaram a peça e eles mesmos construirão seu próprio palco. E ficarão felizes se forem vistos por mil pessoas durante toda a temporada, a 5 cruzeiros o ingresso.”

É lamentável, porém, os anos se passaram e o palco cênico procegue na mesma forma; gigantescos espetáculos movimentam as grandes capitais gerando milhões e milhões nesse novo bem investido comércio: Cênico. Efeitos especiais importados, atores globais, iluminação de primeira linha, dentre inúmeros matérias cenográficos caríssimos, onde uma peça chega a custar R$ 3.000.000,00, como no caso do musical infantil Peter Pan, onde ingressos são vendidos até por R$ 60,00.

Esses espetáculos são apoiados por leis de incentivo a cultura, e grandes multinacionais que anualmente abrem editais para apoios a projetos através da responsabilidade social.

Uma grande frustração se faz aos grupos amadores, pois devido a essas leis de incentivo e editais, acabam ficando de escanteio pela falta de documentação e capacitação, que por sua vez só pode ser conquistada as custas de um bom fundo monetário, pois no mínimo qualquer cursinho de teatro nos tempos atuais não custam menos que R$ 100,00, ressaltando que isso em grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro.

Quando se trata de nosso Estado Mato Grosso do Sul, a situação piora, faltam recursos para a formação de profissionais, sindicatos, e mesmo não havendo tais recursos, toda essa democracia é solicitada nos festivais do Estado. Exigem DRT , m as o único veiculo responsável pela emissão de tal documento é o SATED (Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão). O SATED é o único órgão que pode emitir DRT oficialmente, no entanto não possuímos tal órgão no Estado.

Atores como:Ewerton de Castro, Antonio Fagundes, Ney Latorraca, Neide Veneziano, Jonas Melo, Jandira Martini, Carlos Alberto Soffredini, Tanah Correa, Alexandre Borges, veio Marcelo Picchi e, Edson Celulare, Paulo Betti, Eliane Giardini e Afonso Gentil, Regina Duarte, Mauro Rasi, Ulisses Cruz, Antonio Bivar, Plínio Marcos e tantos outros que tornariam cansativa esta narrativa? Todos eles tiveram seus primeiros passos na profissão, orientados em grupos amadores, por muitos diretores que permanecem anônimos diante do público e da história.

Fato esse que hoje se torna incomum, pois devido à redemocratização do país os órgãos governamentais da cultura deixaram de patrocinar esse celeiro da arte cênica, desprezando o amadorismo brasileiro.

Atualmente o governo se omite de qualquer atividade junto a este núcleo formador. Está mais voltada para a realização de obras faraônicas e para o atendimento clientelista de eleitores e cabos eleitorais que hoje ocupam cargos nesse organismo. Perdeu suas finalidades como elemento gerador de novos profissionais, novas concepções cênicas e novas idéias teatrais.

Derrete-se no atendimento a produções que atendem apenas os interesses de meia dúzia de apaniguados, ao tempo em que relega a um estado de abandono, todo o interior desse país, real e verdadeiro celeiro de profissionais do setor.O teatro amador já teve maior peso em termos reivindicatórios. Sempre foi marca do movimento teatral amador a geração de posturas críticas. Os atuais governantes precisam aprender a trabalhar com as divergências oriundas dessas posturas críticas, princípio primário da dialética. É preciso que se perceba e se entenda, também, que os grupos amadores não são apenas forjadores de novos talentos, mas, são os formadores de novas platéias, e contribuem para a formação da cidadania, elementos vitais para a formação do cidadão e a continuidade do teatro como arte e como profissão.

Já passou da hora de grandes empresas (ou pequenas) abrirem o espaço para o novo, ou, ao menos dedicarem um curto espaço de seu precioso tempo afim de conhecer um grupo de teatro amador, seus projetos e princípios. E assim valorizar aqueles que podem trazer novamente o verdadeiro ideal do teatro ( Teatro é uma forma de comunicação entre os homens: as formas teatrais não se desenvolvem de maneira autônoma, antes respondem sempre a necessidades sociais bem determinadas e a momentos precisos. O espectáculo faz-se para os espectadores e não o espectador para o espetáculo, o espectador muda, logo o espectáculo também terá de mudar – Augusto Boal ) e não a criação de rostinhos bonitos típicos de melodrama mexicano em historias televisivas repetitivas como Malhação e outros.

Por : Andréia Fernandes – atriz e diretora do COTAT (Companhia de Teatro Amador Três-lagoense)

Citações: Trechos de Carlos Pinto 16/04/2001 Augusto Boal Extinta revista Realidade Editora Abril

Comentários