15/03/2012 22h14 – Atualizado em 15/03/2012 22h14

Produtores e moradores comemoram fim do isolamento de 38 anos

Promessas de correr nu, viajar a pé e de joelhos constituíram um ‘anedotário’ regional diante da descrença de que a obra pudesse ser realizada

Edmir Conceição

A conclusão da pavimentação asfáltica dos 108 quilômetros da MS-112, prevista para a próxima semana, abriu um novo horizonte na vida de produtores, trabalhadores rurais e comerciantes que no período de quatro décadas aguardavam a obra.

O fim do isolamento da população ao longo da rodovia, que liga três Lagoas a Inocência, irradia alegria e resgata ‘estórias’ que nesse tempo constituíram um verdadeiro ‘anedotário’, diante de ‘lançamentos’ e até inauguração anunciados pelos governos que se passaram desde a implantação da rodovia, em 1974.

Doze anos antes da implantação da rodovia, o “seo Cazuza” (José Rozendo Filho), já testemunhava e vivenciava as dificuldades dos viajantes que usavam a estrada. Para ele, que pôde pela primeira vez viajar para Três Lagoas, a convite de um engenheiro, “o asfalto só chegou por causa do eucalipto”, a matéria-prima das indústrias de celulose.

O produtor Pompílio Leonardo, dono da Fazenda Floresta, de 3.500 alqueires, no entanto, considera que ‘a pressão ajudou’, muito embora ela tenha começado em 1974 com reunião de 130 produtores e políticos em Campo Grande. “Nós já tínhamos eucalipto, o asfalto saiu mesmo porque houve vontade política do governador André Puccinelli”, diz. “Ele sempre passa por aqui”, diz.

Seo Cazuza está instalado no meio do trajeto entre Três Lagoas e Inocência. Chegou à região com 15 anos de idade, vindo de Lavra, no Ceará. Mora há 50 anos no mesmo local, onde montou sua Venda, depois de 10 anos furando poço sem água. “Quem mais sofreu foi minha mulher. Ficamos 10 anos sem nada”.

OBRA EMBLEMÁTICA

Em duas frentes de serviço, a obra de pavimentação da rodovia tem significado emblemático para a população que vive nos dois lados do rio Sucuriú. Para o governo, é estratégica, pois interliga duas cidades que estão passando por uma transformação econômica muito rápida, em razão de conglomerado de celulose.

Sob influência das indústrias de celulose – Fibria, em plena operação, e Eldorado, na fase de montagem – a região que tinha sua base econômica baseada na pecuária expande o plantio de eucalipto.

A distância entre Três Lagoas e Selvíria cai dos atuais 280 quilômetros (via BR-158, Paranaiba, ou BR-262/MS-377) para 140 quilômetros, via Selvíria. Os investimentos são tão impactantes que a pacata Selvíria começa a perceber transformações que há um ano, conforme constatou a reportagem do Perfil News, eram consideradas impossíveis. O setor imobiliário, hoteleiro, de alimentação e combustíveis já comemoram os impactos do desenvolvimento.

O Governo do Estado investiu R$ 141,8 milhões. No trecho executado pela construtora Encalso, de 52,8 quilômetros, foram investidos R$ 62milhões. A empreiteira realiza as adequações dos trevos em rotatórias, incluindo o entroncamento com a BR-158. O outro trecho, de 55,7 quilômetros, executado pela construtora Delta, consumiu R$ 79,8 milhões.

O dinheiro é do programa MS Forte, que destinou R$ 1,5 bi para obras de infra-estrutura viária. Do programa saíram também R$ 47 milhões para a recuperação da MS-377, entre Água Clara e Inocência, a partir do entroncamento com a BR-262.

Faltam apenas 500 metros para “fechar” a rodovia, que teve uma frente de obras a partir de Inocência e outra a partir do entroncamento com a BR-158. De acordo com o engenheiro, Dirceu Deguti Vieira Filho, gerente regional da Agesul de Três Lagoas, a obra não sofreu nenhum dia de atraso em seu cronograma e será concluída exatamente no prazo previsto, de 540 dias. Nessa etapa final, os canteiros de obras comportam 345 operários e 200 equipamentos pesados

DE FURADOR DE POÇO A CORRETOR DE GADO

Na Venda do Seu Cazuza, que já passou por todas transformações ao longo do período de isolamento e hoje não é mais um bolicho, mas o point de convergência dos negócios, encontros casuais e principalmente da reconstrução das ‘estórias’ e ‘causos’ que marcaram a vida daqueles que “cansaram de ver promessas” e até o anúncio da inauguração do asfalto, quando a travessia do Sucuriú ainda era feita de balsa. “Fiquei 10 anos isolado, sem nada, furei muito poço perdido, mas nunca perdi a esperança. Plantei muito quiabo no espigão. Eu só ganhava a bóia (comida) se rastelasse”, diz Cazuza.

O mais antigo morador e comerciante da estrada casou-se com dona Nadir, criou sete filhos e perdeu a conta dos netos. Um deles cuida da Venda, onde tem de tudo um pouco.

Quando a reportagem do Perfil News chegou dona Nadir estava nos fundos, debulhando milho verde, para guardar no freezer. Ela ainda serve refeições e com a movimentação de operários o trabalho aumentou. Aos 75 anos, ainda mostra disposição. À pergunta se está casada com o seo Cazuza, responde em tom de brincadeira: ‘por enquanto’.

Dos tempos de dificuldade, lembra da luz de lamparina, sem meios nenhum de transporte e sem água, passou a conhecer todos os córregos da região, lavando roupa. Seu Cazuza diz que em época não muito recente as condições eram precárias, mas ninguém ficava doente. A viagem para Três Lagoas levava até o dia todo dependendo do clima. Era preciso vencer os facões de areia ou os atoleiros.

Hoje, a na casa de um dos filhos, funciona um pequeno posto de saúde do PSF (Programa Saúde na Família). Do outro lado da rodovia está o Assentamento São Joaquim, onde moram 181 famílias.

Ao chegar à Fazenda Ressaca, com 15 anos, José Rozendo Filho sobreviveu carregando água em carriola. “Eu andava quilômetros para buscar água, na volta, às vezes o carrinho tombava e eu tinha que refazer todo o trajeto para encher as cumbucas… Não lamento não, sofri, mas não tenho raiva de ninguém, não tem uma pessoa que eu deixo de dar bom dia”. Hoje Cazuza é comerciante bem sucedido. O mini-mercado garante a renda ao neto e a placa do estabelecimento indica uma atividade que é a mais comum na região – compra e venda de gado.

Na placa, telefone fixo e celular. O orelhão em frente à Venda funciona, mas é pouco usado. Nem os trabalhadores do assentamento do outro lado da rodovia recorrem ao orelhão, por causa do celular. Ferramenta moderna que chegou antes do asfalto.

O produtor Pompílio Leonardo lembra que após a memorável reunião em Campo Grande, em 1974, o governo do uno Mato Grosso mandou fazer a terraplenagem da estrada. Hoje, com a chegada da indústria de celulose, comemora a tranqüilidade de dividir a fazenda entre pastos e florestas. Ele guarda segredo sobre o valor do arrendamento de suas terras e sorri diante da expectativa da renda. “Não tenho trabalho nenhum e ainda acertei participação de 25%”.

Pompílio também comemora a valorização das terras. A cotação saltou de R$ 12 o alqueire para R$ 25 o alqueire. Dos 3.500 alqueires, 400 são destinados ao plantio de eucalipto e o restante a pastagens e benfeitorias. Ele insiste que a força política do governo empurrou a obra. “Eu disse ao Domingos [Martins, ex-presidente do Sindicato Rural de Três Lagoas], deixa de ser bobo, na minha opinião, foi pressão e vontade política do governador André”.

PLANO COLLOR

Seo Cazuza ganhou um alqueire e meio de terras, onde montou sua Venda e o restante da área, cerca de 10 mil alqueires, acabou diluído na partilha e dessa reviravolta ele se lembra que muitos se deram mal por guardarem dinheiro na poupança. O episódio do governo Collor gerou em Cazuza o ceticismo em relação aos governos. “O Plano Collor serviu para o nó cego [caloteiro]. Quem estava devendo dizia: não vou te pagar porque o governo segurou o meu dinheiro”.

Acampamento da construtora Encalso às margens da MS-112, faltando 500m e a 5 dias para concluir obra. (Fotos: Ricardo Ojeda)

Seo Cazuza: testemunha do tempo e da história.

Asfalto chega em pleno corte do eucalipto, a nova base econômica do Bolsão.

Asfalto deve atrair outros investimentos, segundo expectativa dos produtores.

Dona Nadir, em atividade aos 75: 'por enquanto' segue casada com Seo Cazuza.

Compra e venda de gados em geral - De furador de poço a negociador de gado.

Engenheiro da Encalso confere qualidade da capa asfáltica, que tem espessura de até 7cm

Pompílio Leonardo diz que pressão e vontade política aceleraram asfalto.

Trecho de 500m que resta será pavimentado até quinta-feira.

Rodovia recebe as últimas capas de asfalto a temperatura de 90 graus

Novo cenário no Bolsão - pastagens dão espaço às florestas plantadas.

Plantio de eucalipto é explorado por grandes, médios e pequenos produtores.

Corte do eucalipto movimenta economias de três municípios sob influência da MS-112

Reduzir distâncias acelera economia e ajuda distribuir riquezas

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