28/11/2018 08h17

Contrato assinado em janeiro previa repasse de verbas por 12 meses – mas só chegaram cinco; Hospital reclama, também, que não tem estrutura física para atender a turma, que vai dobrar no ano que vem

Gisele Berto

Quando assinou, em janeiro, o convênio para permitir que o programa de estágios dos alunos de medicina da UFMS fosse feito no Hospital Auxiliadora, o diretor administrativo do Hospital, Marco Antônio Calderon de Moura, sabia que estava saindo da sala com uma bomba-relógio no colo.

O Perfil News conversou com Calderon sobre a situação e percebeu que, mais do que armada, a bomba está mesmo prestes a explodir.

“Tivemos uma pressão muito forte, especialmente do Legislativo, para atender aos alunos da faculdade. Não queríamos atender, porque sabíamos que precisávamos, primeiro, criar uma estrutura sólida, para poder dar um subsídio maior a esses alunos. Precisávamos ampliar o refeitório, fazer sala de treinamento, laboratório”, lembra Calderon. “Mas mesmo assim, aceitamos receber os alunos, porque sabemos da importância de uma faculdade. Aceitamos contando com o envio da verba que nos seria destinada”.

De janeiro para cá, do dinheiro prometido para o custeio – que seria enviado pelo Governo do Estado para a prefeitura, e essa repassaria ao Hospital – apenas cinco meses foram honrados.

“A Prefeitura faz o repasse do que o Estado manda, e o Estado não mandou. Parece que o Auxiliadora é o patinho feio da situação, que se a gente não recebesse os alunos não estaria cumprindo o nosso papel social. Aí nos deparamos com essa situação. É como se a gente recebesse um filho de alguém para cuidar por um ano e essa pessoa só desse comida para ele por cinco meses”.

Para Calderon, a situação precisa de uma solução urgente. Amanhã, quinta, 29, a diretoria do Hospital e o prefeito Ângelo Guerreiro vão em comitiva a Campo Grande para tentar resolver o problema.

“O Auxiliadora sempre foi parceiro, mas eu não vou falir o hospital para poder atender essa situação”, enfatizou Calderon.

E VAI PIORAR…

Em 2018, o Auxiliadora tem recebido em torno de 40 alunos de estágio em suas dependências. Para o ano que vem, o número vai dobrar.

“Nós temos 769 funcionários. Nossa estrutura é para comportar esse número de pessoas. Mas, a partir do ano que vem, teremos mais 82 pessoas aqui dentro. Eu venho avisando, alguém tem que ajudar a gente a ter um refeitório maior, uma sala de estudos, de discussão, que nós não temos. Só temos o auditório. No dia a dia o aluno e o professor não querem saber de quem é a culpa”, disse a gerente de qualidade do Auxiliadora, Daniele Mekaro.

Quando os executivos do Auxiliadora falam que o Hospital não tem estrutura para receberem os alunos, estão falando realmente da parte física do prédio. Para que pudesse oferecer de fato o programa de estágio o Hospital fez uma projeção de quanto precisaria gastar apenas com essa estrutura física para receber os estudantes.

O primeiro lugar a receber ampliação deveria ser o refeitório, que hoje acomoda apenas 36 pessoas e precisaria poder receber, pelo menos, os 82 alunos do programa de estágio.

A cozinha também precisaria aumentar sua capacidade de produção em 12%. Além disso, seriam necessários espaços para, estudos, reuniões e pesquisas, além de locais de descanso para estágios noturnos.

O custo total da obra beiraria os R$ 800 mil, que teriam que sair de emendas parlamentares.

COBRINDO O HOSPITAL REGIONAL

Quando foi instituído o curso de Medicina na Universidade Federal em Três Lagoas, em 2014, não havia estrutura para receber os alunos para o programa de estágio. O convênio apenas foi assinado em janeiro deste ano. O estágio iniciou, efetivamente, em abril.

“A ideia é que o estágio fosse feito no Hospital Regional, mas ele não ficou pronto a tempo”, lembra Daniele Mekaru. Dessa forma, o Auxiliadora estaria “cobrindo” o espaço, enquanto o Regional não ficasse pronto.

O anúncio do início das obras do Hospital Regional foi feito em 2013. A primeira ordem de serviço para a construção foi assinada ainda na gestão de André Puccinelli, em dezembro de 2014. No entanto, essa ordem foi cancelada pela gestão de Azambuja por desentendimentos com a empresa vencedora da licitação. A construção começou, de fato, em março de 2017.

A Secretaria de Saúde do Estado garante que o Hospital será inaugurado em março de 2019.

Na disputa pela liberação de verbas para bancar o estágio, o diretor administrativo do Auxiliadora diz que vê pouca movimentação da principal interessada no problema: a própria UFMS. “Quem tem que se virar para resolver um assunto federal são o município e o estado. A obrigação é federal, e onde está o Governo Federal? Quem está achando uma solução, embora paliativa, tem sido o município e o estado. O Governo Federal é quem deveria se preocupar em ter um contrato saudável com o Hospital”, afirmou.

SUPERLOTAÇÃO

Além da falta do repasse de verbas para o Auxiliadora outro problema sério é a superlotação das salas do curso de Medicina da Federal. Isso, inclusive, foi motivo para uma manifestação na Câmara dos Vereadores neste mês.

A acadêmica e Conselheira do Centro Acadêmico Dercir Pedro de Oliveira, Stella Bianchini Borges, pediu apoio político durante sua fala na Tribuna da Câmara, uma semana atrás.

De acordo com Bianchini, as salas de aula chegam a ter 80 alunos atualmente nos anos iniciais.

“Outros cursos também têm este problema, contudo no nosso curso, quando formos para a parte prática, nas unidades de saúde, Hospital Auxiliadora, enfrentaremos muitas dificuldades de aprendizado”, disse Stella, que ainda citou a realidade do curso de Medicina da Capital, cuja oferta é de 80 vagas, para uma cidade com uma população de 800 mil habitantes.

“Uma boa formação médica depende da experiência na parte prática”, enfatizou a conselheira. Stellla citou o exemplo do Centro Cirúrgico, do Hospital Auxiliadora, que só comporta quatro alunos, algo muito complicado com a situação de excesso de alunos, atualmente. Ainda segundo ela, foram feitas várias propostas, mas a Reitoria da UFMS estaria resistente.

As transferências internas agravam o caso, já que alunos de outros cursos podem pedir para mudarem para medicina e acabam sendo alocados nos primeiros períodos, já que não possuem carga horária para anos posteriores. E isso também arma a bomba, já que as salas superlotadas desembocam nos estágios – que não conseguem receber todos os alunos.

“A solução paliativa”, diz Bianchini, “seria manter as vagas do edital de transferência já publicado, mas buscar uma redução no número de vagas para a turma de 2019”.

De qualquer maneira, ainda que se resolvam os problemas para os próximos anos, para 2019 a bomba já está armada.

Na última semana alunos de Medicina da UFMS fizeram um protesto na Câmara de Vereadores contra a superlotação da sala. Excesso de alunos também prejudica o aprendizado na prática. Foto: Divulgação.

Acordo assinado em 19 de janeiro previa 12 parcelas de repasse de verbas do Estado.

Foto: Ricardo Ojeda

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