16/11/2018 16h01

“Bataguassu não tem nenhum respeito pela sua história”, diz neto do 1º prefeito da cidade, após demolição de casarão histórico

Advogado Ênio Murad conta como foi ver no chão a casa em que viveram sua avó Diva e seu avô Ênio, primeiro prefeito da cidade

Gisele Berto

“Nessa casa se construiu boa parte da história de Bataguassu. Ali viveram a primeira professora da cidade – minha avó, Diva -, funcionou o primeiro cartório e morou meu avô, sr. Ênio, primeiro prefeito eleito, que exerceu o cargo por três mandatos. Aquela casa foi palco de reuniões com prefeitos, governadores e senadores em que foram traçados planos do estado junto a Brasília”.

Esse foi o lamento do advogado Ênio Murad, em entrevista ao Perfil News. Hoje a casa de seus avós veio ao chão. Voto vencido na família, Ênio ainda não pode acreditar que os tios permitiram a demolição.

“Pouco antes de morrer minha avó pediu expressamente ao ex-prefeito Ailton Pinheiro e ao atual prefeito, Pedro Caravina, que não demolissem a casa dela. Ela queria que ali fosse feito um museu ou casa da memória. Nada disso importou, porque nem o prefeito, nem a Câmara e nem a própria família de Diva julgaram o espaço histórico. E, dessa forma, vem abaixo uma parte da história de Bataguassu”, conta Ênio.

O advogado lembra, ainda, que outros prédios históricos da cidade foram demolidos para “abrir espaço” para a especulação. O primeiro Paço Municipal e o 1º Fórum vieram abaixo na gestão do então prefeito João Carlos Lemes, e a casa do fundador da cidade, Jan Antonín Bata, também não existe mais.

“Só sobraram as grandes chaminés da antiga cerâmica do Bata. Mas até quando? As chaminés estão no brasão da cidade e correm o risco de só existirem lá”.

A HISTÓRIA POR TRÁS DA CASA

O casal Ênio e Diva veio a Bataguassu em março de 1953, quando a cidade tinha apenas 25 casas. Construíram sua pequena residência em madeira, no mesmo lugar onde, mais tarde, foi construída a casa que hoje veio abaixo.

Como não havia padre na cidade, Dona Diva era a responsável pela reza do terço na Igreja. Também foi ela a primeira cartorária concursada da cidade. O cartório, aliás, funcionava no mesmo espaço da casa e também foi demolido.

Dona Diva também foi a autora do Hino de Bataguassu, que fala sobre as riquezas e a gentileza da cidade.
Dos quatro filhos do casal Ênio e Diva, três foram favoráveis à demolição. Apenas Vilma, mãe de Ênio, se colocava contra a derrubada do imóvel.

“A família é abastada, tem posses e imóveis. Não precisava demolir um patrimônio histórico da cidade. Infelizmente, nenhum dos meus tios respeitou o pedido da minha avó para não demolir a casa, nenhum teve respeito ou carinho pelo patrimônio”.

Ênio afirma que pediu o tombamento do imóvel, mas tanto os vereadores quanto o prefeito disseram que a família havia pedido para não tombar a casa, pois já tinham o objetivo de derrubá-la. “A casa estava abandonada há anos, propositadamente, com o intuito de demolir”, conta Ênio que, como último recurso, tentou comprar o imóvel. Mas o preço pedido era fora da realidade.

“Os filhos do casal não tiveram nenhum apego à sua própria história. A prefeitura e a Câmara não entenderam o imóvel como parte do patrimônio histórico da cidade e, dessa forma, hoje vai ao chão parte da memória de Bataguassu”, completa Ênio.

Casarão que foi o primeiro cartório da cidade e residência do primeiro prefeito de Bataguassu foi demolida hoje. Fotos: Arquivo Pessoal

Brasão de Bataguassu, com as duas chaminés da cerâmica de Jan Antonín Bata, que ainda estão de pé.

Dona Diva e sr. Ênio dançam na casa histórica. Foto: acervo familiar.

Comentários