10/10/2019 16h35

O três-lagoense participou da composição de quatro EP’s e um single gravados pela banda Karmas & DNA. Ele também está com um trabalho em carreira solo, recém lançado

Guta Rufino

“A arte me salvou”, começou Carlos Freitas, 30, em entrevista ao Perfil News para falar sobre suas composições.

A relação de Carlos com a música começou cedo. “Aos 10 anos eu amarrava um pedaço de tecido de chita no pescoço e com uma escova velha de cabelo como um microfone, eu imitava o Freddie Mercury. Nessa época minha mãe já era a maior fã do pequeno filho estranho – eu”.

A adolescência de Carlos não foi nada fácil. Aterrorizado pelo bullying ele lutava para encontrar uma saída. “Logo no início da minha adolescência tive aulas de piano, o que me fez cada vez mais ter interesse pela música. Aos 14 tive sérios problemas com a pele do meu rosto que me deixaram cicatrizes físicas e psicológicas até hoje. Eu fui um adolescente que sofri bullying por todos os lados pois, além de magro, eu era baixinho – ainda sou na verdade – e com o rosto todo detonado, eu tinha os mais diversos apelidos”.

E sua válvula de escape foi entrar de cabeça nos livros. A literatura e a música, suas maiores aliadas apresentavam a ele nesse momento um refúgio: a poesia. Ler e escrever passa nesse momento a fazer parte do processo de amadurecimento e superação na vida de Carlos.

“Me sobravam os livros. Era uma forma de eu esconder meu rosto. Quando eu mergulhava nos contos eu ia para um mundo onde eu era aceito do jeito que eu era. Enfiar a cabeça nos livros me funcionava como um bálsamo. Passei então a me nutrir pelo conteúdo e naturalmente a escrever poesias”.

Ainda na puberdade Carlos começou a enfrentar vários questionamentos internos, entre eles uma confusão sobre sua sexualidade. “Cada vez mais eu escrevia, era a minha forma de vomitar, de gritar e de lembrar quem eu era de verdade, pois, eu não podia perder a mim mesmo”.

Apaixonado pela cultura gótica, aos 18 anos Carlos investiu em um projeto musical, a Banda The Circle – uma banda cover -, o ponto de partida para a idealização e realização do extinto Expo Rock Três Lagoas. “Mesmo não sabendo cantar eu apostei. Eu queria chocar, quebrar os padrões impostos pela sociedade”.

KARMAS & DNA

O compositor também contou sobre o surgimento da banda Karmas & DNA em 2012. Nela eles lançaram 4 EP’s e 1 single. “Eu continuava escrever e aos poucos meus problemas com o meu rosto foi melhorando, mas os burburinhos sobre a minha sexualidade continuavam. Mas apesar de todos os problemas que eu enfrentava, conheci um amigo – Caíque Tosta. Outro amigo que também entrou no projeto da banda com os meninos foi Vinícius Paschoalin. “Sou grato por eles estarem sempre comigo nessa caminhada, em sete anos de banda”.

Começamos a escrever juntos, e nascia nesse momento a banda Poegrama, que depois de uma conversa de 40 minutos mudou o nome para KARMAS & DNA”.

Ele também desabafou sobre a falta de apoio e reconhecimento do grupo. “O KARMAS & DNA dentro do Rock em Três Lagoas sempre foi tido como ‘persona non grata’, ou seja, éramos a banda com sonoridade estranha, experimentalismos, um vocalista sem tanta técnica com voz de criança, mas com letras ímpares – modéstia parte”.

COMPOSIÇÕES

A maioria das composições de Carlos são autobiográficas, isso é inegável. As letras abordam questões relacionadas ao preconceito (Cervantes e Vibratto), feminilidade (Luna e Antipoesia), luta por direitos (Abismos e Canções), hipocrisia social (Do pó ao pó) e perdas (Segredos do Céu e Plataforma). “Minhas composições não são aquele rock bate cabeça, elas tocam o coração”.

“Estávamos prestes a lançar o primeiro CD da banda e tive um problema com a mãe de um dos integrantes. Ela demonstrou incômodo com minha sexualidade e chegou a interferir na estrutura da banda proibindo o filho dela de tocar com a gente. Nesse momento eu troquei o choro pela escrita e compus Cervantes”.

ALCANCE NACIONAL

Cervantes foi a música que mais fez sucesso na Karmas & DNA. Com ela a banda foi selecionada entre os 50 principais artistas do estado em 2014, pela Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul, e fez parte do Kit de Difusão Musical do Mato Grosso do Sul. Tocamos nas rádios e todo o país. “Teve gente de tudo que é canto do país entrando em contato com a gente para dizer que gostaram do nosso trabalho”.

No momento Karmas & DNA está de “férias”, mas deve voltar no final do ano com um show programado para acontecer em Três Lagoas.

ELETRÔNICA EXPERIMENTAL

Atualmente Carlos está com um projeto solo, voltado à música eletrônica experimental e também escrevendo um livro sobre um romance entre uma garota com leucemia e um portador de acromatopsia – uma condição de visão que torna o indivíduo quase ou completamente daltônico. Uma redução na capacidade de distinguir as cores. O nome da obra será Turntable. “Depois de assumir a minha homossexualidade em julho desse ano eu tive apoio massivo da minha família e amigos, e nesse momento de aceitação e libertação eu compus em homenagem a todos do movimento LGBTQIA+ a minha nova música: “Pround Glitter Rain”, concluiu.

DISCOGRAFIA

KARMAS & DNA:

  • Poesia na terra do caos (2012)
  • Vibratto (Single 2013)
  • Mutiverso (2014)
  • Luna (2016)
  • Poesias, drinks e canções (2017)
  • Todos os versos (Coletânea 2018)

Projeto solo:– ID_orama (2018)
– Pround Glitter Rain (2019)

REDES SOCIAIS

KARMAS & DNA

https://www.facebook.com/oficialkarmasedna/https://soundcloud.com/user-715021447/

Projeto Solo

CD IDEORAMA: https://www.youtube.com/watch?v=LZyUSU2UeO8

MÚSICA NOVA HOMENAGEM LGBTQIA+:

LETRAS & MÚSICAS

Antipoesia(do ep “poesia na terra do caos – 2012)
*sobre feminilidade

Se você pudesse ver aquela moça
Do outro lado da sua versão
Se você pudesse ver o que se passa
Dentro de um coração
Teria a ajudado esquecer os seus fantasmas
Teria tomado um café, logo de madrugada.
Do jeito que ela quer.
Ela só queria um pouco de atenção
Ela não precisa da sua razão
Nem de cobranças
Ela é só uma criança
Que teve o seu brinquedo roubado
Precisando de alguém
Que sempre esteja do seu lado
Agora então percebe o quanto ela corre
Bem pra longe de você
Com passos vacilantes e olhar desconfiado
Acaba de perceber
Que perdera todo o seu encanto
Pelo garoto que a conquistou
Ela tá cansada do seu jeito fácil
De manipular o amor
Ela só queria um pouco de atenção
Ela não precisa da sua razão
Nem de cobranças
Ela é só uma criança
Que teve o seu brinquedo roubado
Precisando de alguém
Que sempre esteja do seu lado

Cervantes(do ep “poesia na terra do caos – 2012)
*sobre preconceito

Histórias sem sentido faladas ao vento
Quanto é importante o seu modo de pensar
Você não sabe o quê tenho vivido nos últimos tempos
Não venha dizendo então que eu não devo mais tentar
Quem de nós Vai voltar mais cedo pra casa?
Com os pés sangrando
E os dedos e mãos calejadas
Nessas lutas sem fim
Teus argumentos só convence quem é fraco
Tuas verdades só funcionam pra você
Não venha dizendo então que conheces melhor a vida Não ensine aos outros como se deve viver
Quem de nós Vai voltar mais cedo pra casa?
Com os pés sangrando E os dedos e mãos calejadas
Quem irá nos salvar das más línguas do mundo?
Quem nunca nos abandonará?
(Repete refrão)

Segredos do Céu(do ep “poesia na terra do caos – 2012)
*sobre superações

No mesmo lugar Na paz da razão
Certeza de não tar lutando em vão
A força se volta a aquele que não quer perder
O sol em neon
Me toca a mão
Pegadas me mostram o caminho no chão
Descendo a colina eu vejo um mundo nascer
Em favor da honra e do meu brasão
Meu nome bordado com minhas próprias mãos
A esperança de tar contigo até o amanhecer
Mas a vida nos cobra de mais
É o navio partindo no cais
É o silencio rompendo a canção
Pousa a tua mente no travesseiro
Vê de nós quem desistiu primeiro
Em saber os segredos do céu
Não fui eu
Os tiros além anunciam a tensão
O sábio entende, não luta em vão
O tolo procura a justiça provocando a dor
Cada homem defende a sua própria verdade
Pensando em estar com seus filhos mais tarde em casa
Entenda é esse o valor
Mas a vida nos cobra de mais
É o navio partindo no cais
É o silencio rompendo a canção
Pousa a tua mente no travesseiro
Vê de nós quem desistiu primeiro
Em saber os segredos do céu
Não fui eu

Abismos e canções(do ep “poesia na terra do caos – 2012)
*sobre desigualdades sociais

Na vitrine outro anuncio de algo novo
Onde o novo não inova na verdade
Pelas praças, nas esquinas e nos becos
É a sépia poesia das cidades
Onde o perigo perambula nos botecos
Enquanto as mães se humilham com bravura
Pra ter sempre o melhor para os seus filhos
E sonhando com roupas de formatura
(Percebem que o nada hoje é diferente
De tudo o que lhe prometeram pra amanhã
A violência continua a toda sorte
Outro John Lennon assassinado )
Se em algum lugar ter abismos e canções
Então deve haver outras opiniões
Tantas marchas em guerras
E tantas procissões
Povos migrando de outras terras
Quais são as suas intenções?
E os olhos corroídos de cansaço
E abraço só tem o do travesseiro
A família então espera um outro cheque
De quem vive pra juntar algum dinheiro
É gente matando o outro por bobagem
E a vantagem é que nem sempre somos tolos
A saúde anda doente, pelas pernas
Estão trocando o nosso sangue por ouro
(E mesmo assim o nada hoje é diferente
De tudo o que lhe prometeram pra amanhã
A violência continua a toda sorte
Outro John Lennon assassinado )
Quem conta os patos da lagoa?
Capivaras e ladrões?
Há tanta gente boa
Outras não
Com você o meu tempo não voa
Então não solta minha mão pois
Afinal o que eles querem
É distorcer a minha razão
Hoy me voy…

“A Ana gosta de alecrim, disse sorrindo para mim
E hoje o dia tá tão frio, mas mesmo assim não tá sombrio!”

Vibratto(do ep “Multiverso” – 2014)
* sobre preconceito contra homossexuais pela própria família

O poeta volta de um lugar distante
Já não reconhece os seus
Nada mais é como antes
E se o antes era amar
Hoje já tão pouco importa
Pra quem não conhece a dor do medo
O frio de uma derrota
Teus olhos tem medo e teu corpo cansaço
Teus braços receio até de um novo abraço
Quantos lhe feriram prometendo afago
Quantos lhe tiraram o sono dizendo:
Não pode ser assim!
Deixa pra lá
Deixa falar
É só o vento
Deixa passar
O poeta mostra como a luz do dia
Brilha nas encostas das montanhas frias
Outras formas de ver o mundo
Sem tanta hipocrisia
Se não for a força de acreditar no que se pode sentir?
Deixa pra lá
Deixa falar
É só o vento
Deixa passar

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