15/11/2006 11h42 – Atualizado em 15/11/2006 11h42

BBC Brasil

A analogia é feita pelo físico Gylvan Meira Filho, um especialista em clima respeitado em todo mundo, ex-diretor-geral da Agência Espacial Brasileira, um dos autores dos primeiros rascunhos do Protocolo de Kyoto e, além tudo, um aficionado dos clássicos fliperamas com bolinha prateada.

“A posição e o comportamento de uma bolinha de fliperama podem ser descritos por três variáveis simples: posição, direção e velocidade. E um bom jogador de fliperama percebe, a partir destas variáveis, como a bolinha vai se comportar num momento seguinte”, explica.

“Mas de vez em quando a bolinha se comporta de maneira completamente diferente de qualquer coisa que o jogador tenha visto antes, em posição, direção e velocidade completamente novas, e fica impossível prever qual vai ser o próximo movimento. É assim que está o clima da terra hoje em dia”, diz.

Ao contrario das três variáveis simples de uma bolinha de fliperama, aquelas que afetam o clima são bem mais numerosas e complexas – pressão e temperatura, por exemplo – e, segundo Meira Filho, estão se comportando de maneira nunca vista antes.

Observação

Meira Filho diz que as diferenças no atual comportamento do clima planetário podem ser percebidas não só em comparação com os últimos séculos mas, segundo pesquisas, praticamente desde a formação do planeta Terra.

Climatologistas têm indicações do clima no planeta em uma escala de milhões de anos através de estudos, por exemplo, de camadas de gelo nas regiões glaciais ou de rochas sedimentares em outras áreas, uma ciência chamada paleoclimatologia.

Meira Filha discorda veementemente das sugestões de que as atuais mudanças climáticas pelas quais passa a Terra sejam apenas mais um dos ciclos já observados diversas vezes na história do planeta.

“Se isso fosse um ciclo deveríamos estar observando algum padrão semelhante no passado, e na verdade não há nada que possamos comparar com o que está acontecendo agora. Há pouca gente hoje em dia que ainda insista nesta história de ciclos”, afirma.

Adaptação

O físico observa que a vida na Terra já se adaptou a diversas condições e que o problema não é o clima mudar, mas sim a velocidade com que isto está acontecendo.

“Se for uma mudança muito rápida a vida não tem tempo de se adaptar, de evoluir para uma forma que possa continuar no planeta”, diz.

Meira Filho foi um dos criadores dos primeiros rascunhos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que hoje é um dos principais instrumentos dentro do Protocolo de Kyoto.

Através do MDL, países ricos – que pelos termos do Protocolo de Kyoto têm obrigação de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa – podem investir dinheiro em projetos ambientais em países em desenvolvimento, que não têm obrigação de diminuírem as emissões.

Assim, os ganhos conseguidos com estes investimentos em países em desenvolvimento podem ser abatidos das metas de redução de emissões dos países desenvolvidos.

Mas Meira Filho aponta um problema no sistema: o modo como as emissões de carbono são contabilizadas não traz no longo prazo a necessária redução nos níves absolutos de despejo destes gases na atmosfera.

“Pelo modo como o acordo pode ser fechado o ritmo de emissões diminui mas não necessariamente as emissões caem em números absolutos. Em algum momento no futuro isso vai ter que ser revisto”, diz ele.

“Geoengenharia”

O físico considera que podem ser muito arriscadas tentativas radicais de mexer de propósito com o clima da Terra em grande escala. Trata-se da controvertida ciência da “geoengenharia”.

Um exemplo de geoengenharia é a idéia de alguns cientistas de lançar grandes quantidades de enxofre na estratosfera para que a presença desse produto químico compense o aquecimento provocado pelo efeito estufa.

“Enxofre é o que os vulcões lançam quando entram em erupção e é verdade que ele pode diminuir a temperatura da Terra. A erupção do vulcão de Krakatoa (em 1883, na Indonésia) esfriou a Terra por dois anos”, conta.

Mas o professor diz que, por outro lado, haveria o risco de todo esse enxofre na estratosfera chegar aos poucos na atmosfera, provocar chuva ácida, aumentar a acidez do mar e prejudicar seriamente a vida marinha.

“Essa é uma conseqüência mais previsível desta idéia, mas poderia haver outras completamente imprevisíveis”, diz.

“Geoengenharia é algo muito arriscado. Já podemos prever muitas coisas no comportamento do planeta mas há um número ainda muito maior de variáveis completamente imprevisíveis”, diz.

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