26/09/2019 15h13

Em uma vida de lutas, Emanuel ficou surdo quando tinha apenas oito meses de vida, venceu todos os obstáculos e hoje sonha em ser professor de letras e libras

Thais Dias

Ele já foi pintor, capoeirista, estudante e atleta. A história do três-lagoense Emanuel Tiago, hoje com 21 anos, foi uma sequência de obstáculos e pódios. Ele perdeu algumas vezes, ganhou tantas outras, mas nunca deixou de lutar.

Emanuel não nasceu surdo. A surdez veio quando ele ainda era um bebê de apenas oito meses, decorrente de uma meningite viral, que lhe causou a paralisia do lado esquerdo do corpo. Sua primeira batalha durou 45 dias, tempo durante o qual ficou hospitalizado em coma induzido. Nesse período, ainda bebê, sofreu três paradas cardíacas.

Seu quadro era considerado gravíssimo mas, antes de ter o diagnóstico positivo para meningite, os médicos suspeitavam de tuberculose. Alertaram sua mãe sobre os riscos da medicação deixar Emanuel surdo, mas a criança corria risco de morte e os remédios foram administrados.

Após a alta sua família ainda não sabia quais sequelas haviam ficado. Sua mãe começou a realizar testes em sua própria casa, quando descobriu que na cidade de Bauru –SP era possível ser realizar o teste auditivo denominado BERA (Brainstem Evoked Response Audiometry, em inglês), também conhecido como PEATE (Potencial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico). Além do corpo paralisado do lado esquerdo, Emanoel foi diagnosticado com surdez profunda bilateral.

Já com os diagnósticos o jovem começou seu tratamento. Durante quatro anos dedicou-se a sessões de fisioterapia, terapia ocupacional e acupuntura.

Com dois anos Emanuel começou a dar seus primeiros passos com a ajuda de aparelhos. A dificuldade era enorme, pois ele pisava apenas com a ponta dos dedos e o calcanhar. Ainda não conseguia pegar coisas com a mãozinha esquerda.

PROJETOS

A mãe de Emanuel, Adriana Tiago, o inscreveu no primeiro projeto de que participou, o Pincel Mágico. Com nove anos ele já criava pinturas a óleo em telas. Como pintor ele já produziu cerca de 20 telas.
Depois de sete anos no projeto Pincel Mágico o jovem decidiu se aventurar na capoeira, ministrada pelo Mestre André Mangueira. O esporte, misto de luta e dança, o ajudaria a desenvolver a parte motora.
Como já estava com a idade de se alfabetizar sua mãe procurou a APAE de Três Lagoas para iniciar o processo. Na instituição foram realizados alguns testes e comprovado que não havia deficiência cognitiva.
Também na APAE sua mãe foi orientada sobre a lei da inclusão, também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que dizia que Emanuel poderia se matricular em uma escola tradicional. Ali começava a sua saga pela acessibilidade.

A BATALHA PELA ALFABETIZAÇÃO

Professora na rede de ensino fundamental, a mãe de Emanuel começou uma luta pessoal para ajudar o filho. Foi atrás de informações sobre o curso de libras para orientar seu pequeno.
A primeira escola em que Emanoel foi matriculado não conseguiu alfabetizá-lo, já que a professora que ministrava as aulas tinha pouco conhecimento em libras.
Passou por outra escola e…mesmo problema. Até que na escola Afonso Pena havia uma sala especial para preparar para a inclusão. A professora Rosangela alfabetizou o jovem, que ingressou já no terceiro ano do ensino fundamental em uma escola tradicional.

O AMOR PELO ESPORTE

Depois da capoeira, o esporte nunca mais deixou de fazer parte da vida de Emanuel. Depois de ver no jovem o potencial para o Atletismo, o Professor Ronei, da APAE, o inscreveu no projeto Esporte Adaptado.
Meio período o jovem estudava no ensino regular e no período contrário iniciou as atividades esportivas na quadra da Lagoa Maior. Ali sua fisioterapeuta viu todas as expectativas de desenvolvimento muscular serem superadas.

Em 2012 embarcou para sua primeira competição fora de Três Lagoas. Em Campo Grande ganhou cinco medalhas e garantiu a classificação para a etapa regional.
Outra vez, no mesmo ano – agora na etapa regional – subiu ao lugar mais alto do pódio nas categorias de salto à distancia 100m, 200m e arremesso de disco. A partir daí subiu de categoria e passou a competir na etapa brasileira de atletismo.

Aconteceu, então, uma sequência de primeiras vezes: nunca havia viajado sem a família e nunca tinha viajado de avião. Foi para São Paulo, mas não voltou sozinho: trouxe na bagagem duas medalhas de ouro e duas de prata, além de conquistar sua primeira bolsa de incentivo ao esporte patrocinada pelo Governo Federal. Aí, ele já era considerado um atleta de nível.

Além do Bolsa Atleta, o esportista ganhou patrocínio de empresários locais e começou a ter sua alimentação acompanhada por uma nutricionista.
Emanuel, então, começou a colecionar medalhas: logo de cara foram duas em Brasília – DF e duas no Rio Grande do Norte, onde representou seu estado.

O jovem recebeu uma moção de congratulação na Câmara Municipal de Três Lagoas, após levar o nome da cidade em suas participações nos eventos esportivos.

NOVOS DESAFIOS

Já um atleta consolidado, Emanuel achava que podia ainda mais. Decidiu dar uma pausa em sua carreira e se dedicar totalmente aos seus estudos.

No final deste ano ele se forma no ensino médio – mas já sabe o que vai fazer depois: quer cursar letras/ libras na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em Campo Grande e dar aulas para crianças que tenham a mesma deficiência auditiva.

E como ninguém segura o Emanuel, seu primeiro artigo científico foi publicado pelo IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul). O tema: Inclusão para surdos no mundo cibernético. Além disso, ele viaja com os intérpretes de libras de sua igreja para a Capital sul-mato-grossense para aprimorar seu conhecimento na língua.

Sempre que pode, entretanto, ele prestigia os eventos esportivos locais, para mostrar que a deficiência pode ser um obstáculo, mas não uma barreira para frear seus sonhos.

Emanuel Tiago se forma no fim deste ano no ensino médio (Foto/Arquivo Pessoal)

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