Acordo assinado em julho prevê que estatal boliviana fornecerá gás natural para a planta da UFN3, comprada pela russa Acron, que repassaria 12% da unidade à YFPB; Putin já avisou que os russos só voltam a negociar com o governo da Bolívia quando ele for “legítimo”

A crise política desencadeada na Bolívia pela renúncia do presidente Evo Morales pode atravessar fronteiras e respingar no Brasil.

Isso porque Rússia e Bolívia são protagonistas na retomada da UFN3, em Três Lagoas. Segundo acordo firmado em julho deste ano, a YFPB (Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos, estatal boliviana do setor) acertou o fornecimento, a partir de 2023, de 66 milhões de metros cúbicos mensais à unidade em Três Lagoas, comprada pela russa Acron, que assumiu a planta de fertilizantes que a Petrobras construía no município.

Com isso, 2,2 milhões de metros cúbicos diários de gás natural serão bombeados a mais e encaminhados pelo Gasoduto Bolívia-Brasil e a MS Gás para a fábrica da Acron.

O grupo russo também acertou a cessão de 12% da unidade no Estado à YFPB, com opção de ampliar a participação para até 30%.

O gás natural boliviano é um dos principais contribuintes com o ICMS sul-mato-grossense. Em junho, foram R$ 72 milhões arrecadados com o gás boliviano, montante em queda na comparação com as vendas de 2018. O acordo entre a Acron e a YFPB já havia sido confirmado pelo governador Reinaldo Azambuja (PSDB), durante agenda em Santa Cruz de la Sierra.

YFPB e Acron ainda fecharam a criação de uma joint-venture para negociar a ureia fabricada em Três Lagoas e na planta boliviana de Bulo Bulo.

Só que o caldo entornou

A renúncia do presidente boliviano Evo Morales e a crise política instaurada no país vizinho fizeram toda a diplomacia comercial desandar. Ainda ontem o governo russo de Vladimir Putin denunciou o “Golpe de Estado” no país. Ao mesmo tempo, o presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado da Rússia, Konstantin Kosachev, afirmou em sua página no Facebook que os russos estão “prontos para continuar o diálogo com as autoridades legítimas do país e, em especial, com a nova composição do Parlamento quando for eleita”.

Mas, para isso, é necessário que sejam convocadas novas eleições. Mas o horizonte ainda é incerto, porque além de Evo Morales também renunciaram Álvaro García Linera, vice-presidente do país, Víctor Borda, presidente da Câmara de Deputados, e Adriana Salvatierra, presidente do Senado, causando um vazio governamental por falta de linha de sucessão.

A Constituição boliviana estabelece que “em caso de impedimento ou ausência definitiva do presidente, ele será substituído pelo vice-presidente e, na ausência deste, pelo presidente do Senado, e na ausência deste pelo presidente da Câmara dos Deputados. Neste último caso, novas eleições serão convocadas dentro de um período máximo de noventa dias”.

Cabe agora ao Legislativo escolher um novo presidente do Senado que possa acatar a renúncia de Morales e dar início ao processo de novas eleições. E voltar às negociações com os russos.

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