15/11/2006 16h24 – Atualizado em 15/11/2006 16h24

Estadão

Uma pesquisa realizada por um grupo de acadêmicos religiosos de vários países revelou que os hábitos de higiene dos essênios pode ter sido a causa de muitas mortes do grupo. A informação foi divulgada nesta quarta-feira no jornal inglês Independent.

Os essênios, que estabeleceram uma comunidade religiosa em Qumram, a noroeste do Mar Morto, rejeitavam a prática comum dos beduínos de fazer as necessidades em qualquer lugar. O grupo determinou um local a cerca de 800 metros de sua comunidade, onde faziam suas necessidades e enterravam seus excrementos, acreditando que a prática fosse mais higiênica.

No entanto, todo o esforço aparenta ter sido contraproducente. Os parasitas, e outras bactérias nocivas presentes nos excrementos humanos, seriam mortas rapidamente pelo sol do deserto, se tivessem ficado sobre o solo. Uma vez enterradas, elas poderiam sobreviver e se reproduzir, criando um ambiente contaminado que infectou membros do secto essênio quando andavam para ir e voltar ao local. Os parasitas provavelmente se reproduziram em uma tina especial usada para rituais religiosos, causando a morte de muito essênios.

“Algumas pessoas podem rir, mas é terrivelmente triste”, disse um dos pesquisadores, James Tabor, da universidade de North Carolina, ao Los Angeles Times. “Eles eram tão dedicados, e tinham um estilo de vida tão disciplinado, mas provavelmente estavam diminuindo sua expectativa de vida e arruinando sua saúde em um esforço para fazer o que é certo.” A pesquisa sobre os hábitos dos essênios foi conduzida por Tabor e seus colegas, surgiram, curiosamente, de uma controvérsia muito mais ampla sobre a autoria dos Pergaminhos do Mar Morto. Muitos acadêmicos têm questionado se os essênios realmente os escreveram, ou mesmo se eles estabeleceram uma comunidade em Qumram.

 

Tabor e Joseph Zias, da Universidade Hebraica de Jerusalém tiveram a pista em passagens do pergaminho que especificavam as regras para higiene. Eles encontraram uma área de solo macio a noroeste de Qumram, recolheram amostras do solo, e levaram a uma colega francês para análises. A colega, Stepahnie Harter-Lailheugue, encontrou ovos preservados e outros resquícios de diversos tipos de vermes. Amostras recolhidas em outras áreas, por sua vez, não apresentavam sinais de organismos presentes nas fezes humanas.

A área usada como banheiro é agora uma peça importante de evidência ligando a área de Qumram aos pergaminhos, e faz teorias recentes serem deixadas de lado, como por exemplo, a de judeus fugindo da opressão romana em Jerusalém teriam escondido os pergaminhos nas cavernas.

O local também possibilita uma explicação para pesquisas anteriores realizadas no cemitério de Qumram, que determinaram que apenas um dos 20 corpos enterrados no local havia vivido até os 40 anos, Cemitérios do mesmo período escavados em Jericó mostraram que, normalmente, metade da população viveria mais que 40 anos.

“O cemitério em Qumram tem o grupo menos saudável que eu já estudei em 30 anos”, disse Zias ao Times.

Os Pergaminhos do Mar Morto têm sido uma fonte inesgotável de fascinação desde a sua descoberta ao acaso por beduínos em 1947. Eles fornecem uma rara, senão única, amostra da vida e costumes da época em que Jesus Cristo viveu. Os pergaminhos são também os únicos documentos dos tempos da bíblia escritos antes de 100 depois de Cristo. Em outras palavras, são anteriores aos evangelhos.

Todos os aspectos dos pergaminhos têm motivo de teorização. Acadêmicos religiosos tentam incansavelmente descobrir se eles foram escritos pelos próprios essênios, ou por um grupo dissidente.

 

 

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