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12/11/2018 10h25

Kelly Macedo morou em Três Lagoas e conta como é a rotina a bordo de uma plataforma de extração de óleo em alto mar

Gisele Berto

Ela está acostumada a ser a única mulher entre homens. Há 15 anos como técnica de manutenção industrial na área de instrumentos de uma empresa petrolífera, Kelly Macedo, 42 anos, não tem medo de desafios.

A engenheira civil, natural da Bahia, veio para Três Lagoas para trabalhar na UFN3. Aqui fincou base e ficou com sua família até ser decretado o fechamento da unidade de fertilizantes. Por ser concursada, a empresa convocou a engenheira para trabalhar em plataforma marítima de extração de petróleo na Bacia de Campos. Com isso, Kelly e sua família optaram por retornar para Salvador, onde passaram a residir atualmente.

Na semana passada, Kelly e a marido vieram a Três Lagoas para buscar o restante da mudança.

O trabalho de Kelly permite que ela esteja em qualquer lugar do mundo – desde que, por 14 dias seguidos, esteja à disposição da empresa para exercer um dos trabalhos mais arriscados do mundo.

A EXPERIÊNCIA

A engenheira civil, concursada desde 2003, atua em uma das áreas onde existem, ainda, menos mulheres operando – a manutenção, especificamente a área de instrumentos.

Se imaginamos o local em que Kelly trabalha – um retângulo flutuante no meio do oceano, extraindo óleo do subsolo marítimo, cercado de gás natural por todos os lados – conseguimos perceber ainda melhor o tamanho da responsabilidade da engenheira que está de mudança de Três Lagoas. É ela quem cuida para que medidores, como válvulas e manômetros, estejam em perfeito funcionamento para que as máquinas e tubulações aguentem as altas pressões de óleo e gás.

Mas isso não é problema para ela. “Vim de terra, onde os processos eram muito mais complexos. Hoje meu trabalho é só ajudar na operação de tirar óleo do mar e bombear para a terra”. Como se fosse simples…

O PROCESSO

Quando paramos na bomba do posto de combustíveis não nos damos conta do processo que é extrair a matéria-prima daquilo que faz nossos carros e caminhões andarem. Mas Kelly conhece bem essa história e conta um pouco para a gente.

Extrair petróleo do fundo do mar é uma operação tão complexa quando instigante. Aquele óleo originado de restos de seres vivos, animais e vegetais, ao longo de milhões de anos fica concentrado no fundo do mar mais profundo, a cerca de 150 mil metros de profundidade. É como se fôssemos de Três Lagoas a Araçatuba, só que em linha reta para o fundo do mar.

Para poder fazer o furo por onde o óleo será puxado é preciso uma plataforma do tipo sonda. Ela vem, faz o furo e coloca uma tubulação chamada árvore de natal que liga o lugar até uma plataforma de bombeio. Esse equipamento puxa o óleo das grandes profundidades.

“Toda bolsa onde fica o petróleo sempre tem gás natural. A gente pega esse gás que vem no arrasto, junto com o petróleo, injeta no poço e esse gás empurra o petróleo para subir. Ele ajuda o óleo a subir. Para isso usamos até 150kg de pressão”, explica Kelly.

Quando as distâncias são mais longas entre a plataforma e a costa o óleo que é extraído é passado aos navios e faz o transporte até a terra. “Nós, que estamos mais próximos da costa, bombeamos para uma estação que fica em terra, que manda para a refinaria de Duque de Caxias. Lá é feito o refino e de lá é mandado para as distribuidoras”, explica.

O óleo passa por um processo de separação das impurezas até ficar só o óleo puro. “Ele vem arrastando, vem com água, gás. A gente tenta separar isso na plataforma, mas chega um pouco contaminado. Então ele é limpo e vai para o fracionamento, que são aquelas torres que soltam fogo. Em cada temperatura nessa torre sai um subproduto – querosene de aviação, querosene comum, óleo diesel”, diz.

A VIDA EM ALTO MAR

Kelly se reveza no trabalho nas estações de extração da Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. Hoje está atuando na plataforma, uma das 52 plataformas que extraem óleo na da principal área sedimentar já explorada na costa brasileira.

O campo de extração da Bacia de Campos se estende das imediações da cidade de Vitória (ES) até Arraial do Cabo, no litoral norte do Rio de Janeiro, em uma área de aproximadamente 100 mil quilômetros quadrados. É um gigantesco laboratório a céu aberto.

Para se deslocarem até a plataforma os funcionários vão de helicóptero. Na Bacia de Campos as plataformas ficam distantes a partir de 100km da costa. Algumas plataformas ficam a até 180km. As do Pré-Sal localizam-se muito mais distantes, a até 300km da costa.

A plataforma onde Kelly trabalha tem capacidade máxima de 170 pessoas. Dessas, apenas seis são mulheres. “É um mundo masculino”, conta. “No meu turno, apenas mais uma está na ativa”.

O trabalho em alto mar se divide em cinco grupos: Além da operação, laboratório e manutenção, há a hotelaria, que cuida da comida, da área de dormir e da limpeza, e a de movimentação de carga. São essas pessoas que trazem os containers com suprimentos a bordo e cuidam para que ferramentas, peças, comida, água e medicamentos sejam trazidos a bordo.

Todo esse material vem de terra via containers trazidos por navios. Acontece que, às vezes, por problemas com mau tempo, esses navios não conseguem encostar nas plataformas. E é por isso que os funcionários, literalmente ilhados em um retângulo de concreto no meio do mar, precisam racionar comida e água para passar por momentos de aperto como esses.

“Em mar agitado a plataforma balança um pouco, mas a gente se adapta. Na primeira vez que embarcamos sentimos a diferença. Mas a gente fez tanto treinamento em terra que, quando chegamos à plataforma, seu corpo já meio que sabe o que vai encontrar”.

Entre os treinamentos todos os funcionários fazem um curso de salvatagem, em que as pessoas passam cinco dias pulando de cinco metros de uma piscina ou dentro do mar, para treinar caso precisem abandonar a plataforma. Também há um curso para resgate de helicóptero, para saber agir caso o helicóptero que os transporta de terra caia no mar. “A gente entra em um helicóptero fictício que vira de cabeça para baixo dentro da água, para aprendermos a reagir em caso de acidente, para sabermos sair de dentro dele. Esses cursos também servem de filtro para saber quem vai conseguir trabalhar em alto mar, porque nem todo mundo consegue passar por eles”, conta Kelly.

A ROTINA

Kelly fica 14 dias embarcada. No 15º, muda o turno. E você só desembarca se o seu backup vier. “A plataforma funciona 24h por dia, com turnos de 12h. A extração não para”, diz a engenheira.

Se alguém tiver algum problema de saúde passa por um técnico de enfermagem, que sempre está a bordo. Os médicos ficam em terra e as consultas que exigem a opinião deles são feitas por videoconferência. Nos casos de maior gravidade o helicóptero vem ao resgate do funcionário. “A não ser que as condições climáticas não permitam”, diz Kelly.

O ambiente é estritamente masculino. As mulheres ficam juntas nos camarotes (que é como são chamados os quartos a bordo), em duplas. Um banheiro fica reservado para elas na área dos dormitórios e na área de trabalho também existem banheiros específicos. “Na minha plataforma são 6 mulheres por grupo. Como são 170 pessoas que trabalham na plataforma, são 164 homens e seis mulheres”, diz.

Do nível da água até onde ela fica na plataforma são 40 metros, o equivalente a um edifício de 15 andares. “Existem plataformas mais altas, como a Pampo e Namorado, com até dois conveses acima do nível da água, chegando a 80 metros de altura”, conta Kelly.

Situações de risco são comuns, como vazamento de óleo e de gás. “A gente acorda de madrugada com o alarme. Quem é da brigada já atua, quem é da contingência se agita para poder sanar o problema. São emergências reais e simuladas, porque precisamos es tar preparados para controlar um incêndio, um vazamento e até um processo de evacuação, caso haja o risco real da plataforma pegar fogo, por exemplo. A cada 15 dias temos pelo menos um simulado. Em todo embarque a gente é treinado para uma situação de emergência”, diz a engenheira.

Depois desses 14 dias embarcada Kelly fica 21 dias de folga – ou 19, se pensarmos que ela precisa de um dia para ir e outro para voltar.

A FAMÍLIA

Kelly tem dois filhos e, para esse trabalho, é necessário saber controlar a saudade. “Ficamos um pouco frios para aguentar esse período longe. Hoje a internet facilita bastante. Praticamente todos os dias falamos com a família, seja por internet ou por telefone”, conta Kelly.

A família também é preparada psicologicamente para ficar nesse período de ausência. O diferencial, no caso das mulheres, é que os papéis “tradicionais” se invertem: é o marido quem assume as tarefas domésticas e o planejamento da família. Ele tem que providenciar comida, cuidar da casa e dos filhos enquanto ela está embarcada.

“A família precisa dar um suporte muito grande. Não adianta a gente ficar concentrado no trabalho, que é de alto risco, e o marido ficar ligando toda hora, mandando mensagem. Já teve caso de gente que estava na plataforma e a mulher ligar para marido porque acabou o gás, ou que o filho caiu e quebrou o braço. Não adianta passar essa informação lá, só vai preocupar. A pessoa não tem como ajudar e só vai ficar desconcentrada. A família tem que ajudar muito e filtrar as informações”, diz Kelly.

No caso de falecimento de alguém em terra também existe uma orientação: aquela tia distante que morreu, você só vai saber quando desembarcar. A pessoa só é avisada se for alguém muito próximo e tiver condições da pessoa chegar a tempo para o enterro, dependendo de onde a pessoa more. “Cansamos de não avisar, só comunicar quando desembarca. É uma orientação para a pessoa trabalhar tranquila. Porque trabalhamos em ambiente de alto risco, todo mundo precisa dar o seu melhor”, afirma.

EXEMPLOS DE TREINAMENTOS

1) Decolagem e Pouso do helicóptero

2) Treinamento Huet de acidente de helicóptero:


A engenheira Kelly Macedo, que morava em Três Lagoas e hoje trabalha em plataformas de petróleo da Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. Fotos: Arquivo Pessoal

Kelly a bordo da plataforma em que está trabalhando hoje. Foto: Arquivo Pessoal





https://youtube.com/watch?v=npUb-n8AFoI


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