Neste Dia Nacional de Combate ao Câncer o Perfil News traz as histórias de guerreiras que, com alegria e determinação, travam uma batalha diária contra a doença

“Deus dá as maiores batalhas aos melhores soldados”. Apegando-se à fé e à esperança, a confeiteira Isabel Brito da Silva Oliveira, de 48 anos, recebeu a notícia devastadora: estava com câncer de mama.

Assim como ela, centenas de pessoas, apenas em Três Lagoas, lutam diariamente uma dolorosa batalha contra o câncer. Dessas, cerca de 160 contam com o apoio da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Três Lagoas, uma ONG de atuação nacional de suporte ao paciente oncológico, que oferece apoio complementar ao tratamento médico, especialmente para pessoas em condições de vulnerabilidade social.

Acolhimento

Ao pensar nessa pauta, a reportagem do Perfil News foi convidada a visitar a Rede Feminina. O dia escolhido foi terça-feira, quando acontece o encontro da turma Dias Melhores – pessoas com diagnóstico de câncer há mais tempo e em tratamento paliativo.

Visitar a Rede Feminina é uma tarefa que todos deviam cumprir. Trabalhar a empatia e ver que, ao nosso lado, há pessoas lutando em batalhas que nem sonhamos.

Cada cantinho do lugar é pensado para dar suporte e apoio para pessoas que, certamente, atravessam os piores momentos da sua vida. Palavras de incentivo, quadros com pinturas suaves, gente sorrindo e disposta a oferecer um ombro amigo ou um abraço.

Essa família é muito unida

Aos poucos, elas foram chegando: Luiza, Lucimeire, Marli, Isabel, Cleide, Simone, Patrícia… A grande maioria, mulheres com filhos (algumas com netos). Em comum, um pesadelo: todas, de repente, viram o chão desaparecer sob os seus pés ao receber o diagnóstico de câncer.

Apesar do clima leve e alegre, a lembrança da doença está no ar e, mais que isso, no dia a dia de cada uma.

Mas a vida não é só o câncer

Hoje elas terão uma palestra com um especialista em finanças, que deve ajudá-las a reconhecer o valor do seu trabalho. Juntos, devem pensar em alternativas para fazer dinheiro em casa, já que muitas não conseguem mais trabalhar fora por conta do tratamento.

Quando entram na Rede, as mulheres se transformam. Lucimeire ri, fala alto, conta das peripécias do final de semana. Todas riem junto. Luzia mostra os panos de prato que aprendeu a pintar – ela, que é artesã e já fez de tudo um pouco.

Cleide, que sempre trabalhou muito, queixa-se que não tem mais a mesma disposição para o serviço. A assistente social Suzana e a psicóloga Tatiane estão ali, também, como profissionais e amigas, para dividir o bom e o ruim.

Como uma família, dão conselhos. “A gente precisa se adaptar”, fala Lucimeire para Cleide. “Não precisamos abandonar o trabalho, porque a gente sempre foi de trabalhar muito. Mas podemos arrumar alguma coisa que dê para fazer em casa”, diz.

No entanto, até que as mulheres cheguem a essa intimidade com as outras leva um tempo. “Assim que as pessoas recebem o diagnóstico, elas se fecham. Tendem a entrar em negação. Demora a cair a ficha”, conta a Assistente Social da Rede, Suzana Vicente Loureiro.

Normalmente as pessoas chegam à Rede por meio de encaminhamento do hospital ou por conhecer alguém que indique. “Primeiro, elas chegam, tentam entender como funciona. Depois de um tempo escolhem as atividade e começam a interagir. Até que vira uma grande família”, diz.

A Rede

Suzana conta que a estrutura da Rede Feminina em Três Lagoas é uma das únicas do Brasil a contemplar a Medicina Terapêutica – com acupuntura, yoga, reiki, aulas de artesanato, grupos terapêuticos, alimentos energéticos…

“Tem gente aqui que já tem muitos anos de tratamento e também tem pessoas que acabaram de descobrir a doença. Aqui, elas se encontram. Elas formam a sua própria Rede”, diz.

São 160 pessoas, em média, atendidas no local. Oitenta voluntários, diretos e indiretos, participam do acolhimento e dos trabalhos. Além disso, a Rede conta com duas assistentes sociais, uma psicóloga, três pessoas no administrativo e duas nos serviços gerais.

A Rede oferece, também, apoio jurídico e psicológico. Tatiane Lima é responsável por cuidar do bem estar mental de quem procura o espaço. E a tarefa, apesar de recompensadora, não é fácil.

“Lidamos diariamente com o medo”, ela conta. “Há o medo do que vem pela frente, especialmente o medo de morrer, porque o câncer é muito associado ainda à morte”, diz.

No entanto, o trabalho de Tatiane é não deixar a doença ser a parte mais importante da vida dos frequentadores do lugar.

“Independente da doença, do estágio em que ela está, precisa existir vida”

Quando o médico anuncia o diagnóstico, o impacto é inevitável. “As mulheres pensam em seus filhos, em não ver os filhos crescerem; os homens pensam em quem vai sustentar a família. Todas sensações baseadas no medo. Mas depois, o tempo vai passando, as pessoas vão vivenciando a doença e entendendo o que ela está vivendo. Vão vendo outras pessoas passando pelo mesmo, ouvindo histórias, e começam a perceber um novo significado a partir disso”, diz.

Com suas histórias de superação, as frequentadoras da Rede não veem a hora de chegar às palestras, contar as novidades para as amigas. “Muitas, se não estivessem aqui, estariam em casa, talvez em depressão. Aqui, elas encontram outras pessoas que estão passando pelo mesmo que elas. Aqui elas sabem que as outras pessoas entendem o que elas estão vivendo”, conta.

Além do paciente

Ainda, segundo Tatiane, é necessário cuidar também da saúde mental dos acompanhantes e familiares. “Às vezes o paciente está lá, lutando pela vida, e o cuidador está se descabelando. Precisamos ter esse olhar para quem acompanha a pessoa com câncer, para que ela seja uma ferramenta de apoio”.

Aprendendo a viver

A confeiteira Isabel Oliveira morava há apenas dois anos em Três Lagoas quando se descobriu com câncer. “O médico disse que pelo tamanho do tumor precisaria operar e depois, possivelmente, teria de passar pela quimio e rádio. Eu nem quis ouvir essa última parte e fiz a cirurgia”, conta.

No entanto, ao retirar os pontos, descobriu que a biópsia do tumor indicava a malignidade do câncer. E não teve mais como fugir do tratamento agressivo.

“Eu só pensava que ia perder o cabelo, olha só. Nem pensava no câncer, no tratamento, nada. Pensava no cabelo que ia cair. Ali caiu a minha ficha. Chorei muito, voltei para casa arrasada”, lembra.

Isabel, antes do tratamento. Foto: arquivo pessoal

Como Isabel era de São Paulo, tinha preferido não alertar a família sobre a doença. Mas quando o quadro se agravou e ela percebeu que precisaria passar pela quimio, não teve jeito: precisou contar para as pessoas.

“Eu estava sem chão, arrasada. Aí a minha irmã me mandou uma mensagem, bem nesse dia que eu estava chorando. Parece que ela foi usada por Deus para a mensagem chegar até mim. Aquilo me levantou e eu decidi que ia vencer”, conta.

Mas não foi fácil. “Fiz oito quimios vermelhas e oito brancas. Comecei a perder o cabelo depois da primeira sessão. Fui ao cabeleireiro e decidi raspar a cabeça logo para enfrentar aquilo“, lembra.

Sua filha, que tinha os cabelos longos, decidiu cortar as madeixas e doar o cabelo para fazer uma peruca. “Eu não me adaptei, mas foi assim que eu conheci a Rede”, diz.

A luta continua

A partir daí, Isabel comprou a briga. “O tratamento muda o paladar, o olfato, mexe muito com o emocional. Eu lutei, mesmo. A boca parecia que estava cheia de afta mas eu empurrava a comida para comer, porque eu sabia que não podia baixar imunidade, senão não poderia fazer a quimio e só iria adiar o problema”, lembra.

“Nessas horas a gente vê com quem a gente pode contar”, diz, recordando os momentos de dificuldade. Hoje, Isabel continua com o tratamento de hormonioterapia. Serão mais quatro anos tomando medicação diariamente. Agora começam a surgir problemas relacionados a essa medicação. “Descobri uma osteoporose e uma fibromialgia, diz.

Isabel, durante o tratamento. Foto: Marcia Hellen

“A gente venceu o pior, mas ainda tenho muita coisa pela frente”, diz ela, que ainda vai periodicamente ao mastologista e ao oncologista, sempre com muito medo do resultados dos exames.

“Existe uma pessoa antes do câncer e outra depois do câncer. Não dou mais tanto valor a algumas coisas. Me sinto mais forte, aprendi a me amar e reconhecer o meu valor. Quem venceu um câncer pode vencer qualquer coisa”, diz.

O apoio da Rede foi muito importante para ela. “Quando eu vou para lá eu me sinto em casa, às vezes até melhor, porque só quem teve câncer sabe como é ter câncer. Na Rede eu ouvi uma coisa e nunca mais esqueci: ‘Você não está sozinha'”.

Não tenha medo

Marli Calixto Duarte, 54 anos, é uma mulher de coragem. Desde que descobriu o câncer, durante um banho, ela repete o mesmo mantra: “não tenha medo”.

“É uma doença séria, não é para brincadeira. Mas não tenha medo! O fundamental é se cuidar e, ao menor sinal de qualquer coisa diferente no corpo, procurar um médico”.

A cozinheira fazia mamografias e exames de prevenção anualmente, mas descobriu que estava com câncer durante um banho. “Nem estava fazendo autoexame. Fui me ensaboar e percebi o caroço”, lembra.

Sem perder tempo foi ao posto de saúde e procurou a enfermeira que já cuidava dos seus pedidos de mamografia. “Ela fez o exame na hora e já disse que nem ia pedir mais exames e já ia me encaminhar ao mastologista, porque aquilo não era normal”, lembra.

Isso foi em uma terça-feira. Na quinta ela já esta passando em consulta. “O médico fez a punção para a biópsia e o ultrassom. Eu vi a cara dele, balançando a cabeça. A gente sabe, só de olhar, quando a coisa não é boa”.

O resultado sairia em 20 dias. Mas, 10 dias antes do prazo, a filha dela tinha outros resultados para buscar no laboratório e perguntou se os resultados da mãe já haviam saído. Ao consultar o prontuário, a atendente disse que sim e já avisou que ela precisava ir até o médico no dia seguinte, sem falta.

Vídeo enviado pela Marli

“O resultado era um câncer maligno, agressivo e invasivo”, diz. O médico deu duas opções: a cirurgia ou a quimio. “Eu disse para ele que aquilo lá não me pertencia, que tinha aparecido no meu corpo de enxerido, que eu ia tirar”, e optou pela cirurgia, realizada há pouco mais de um ano. “Eu descobri em julho e operei em setembro. Foi muito rápido”, lembra.

A rapidez, segundo ela, foi essencial para o sucesso do tratamento. “O câncer se espalha do dia para a noite. Não dá para esperar. Ao menor sinal de qualquer coisa diferente, corra para o médico”, alerta.

Fase 2: a quimio

Após a cirurgia, Marli começou o que ela encara como a parte mais difícil da doença: a quimioterapia.

Para superar essa fase, ela diz que a rede de apoio foi essencial. “A Rede é nossa família, nosso apoio, nosso escudo. Desde o psicológico, o artesanato, as terapias, acupuntura, projetos… Tem dias, especialmente de quimio, que não conseguimos sair da cama. E esse pessoal liga, vai até a nossa casa, pergunta como estamos, se precisamos de alguma coisa. Dão apoio, mandam mensagem. Até as festas, as reuniões, é de outro mundo. Isso nos preenche nessa fase do tratamento”, diz.

Marli conta que era ativa, trabalhava em três empregos. Mas, com o câncer, a vida mudou.

“A gente não pode se entregar. Se a gente se entregar só fica pensando na doença. Por isso Deus envia esses anjos bons, essa turminha da Rede Feminina”.

Mãe de quatro filhos e avó de quatro netos, ela descobriu na Rede uma outra família e sabe que tem muita luta pela frente. “Passei por cirurgia, por quimio, radio e estou há um ano nessa briga. Não tenho mais vestígio de câncer no meu corpo, mas continuo o acompanhamento do Instituto do Câncer. Não é impossível ser curada, só não pode deixar para amanhã”.

Vida que segue

Após o câncer, Marli afirma que muita coisa mudou. “Meu estilo de vida agora é diferente. A alimentação é mais saudável. Pratico yoga, caminhada, faço reiki, acupuntura. Tenho uma vida normal, sou feliz e abençoada”.

Foto: Marcia Hellen
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