18/10/2019 10h32

Além das caminhadas e da dieta saudável, promover saúde é perceber e discutir as desigualdades sociais, para a construção de um futuro novo (e possivelmente melhor).

Giovanni Barbosa Scorsin

Dona Beatriz comparece a uma consulta se queixando de dores nas costas e nas pernas. Além disso, também diz estar mais triste do que o normal, acha que os remédios não estão fazendo efeito. A médica vem com a resposta pronta: “Mas Dona Beatriz, o que você precisa mesmo é fazer uma caminhada, parar de fumar e arrumar tempo para lazer”. O que a médica diz não é mentira, mas é uma verdade incompleta.
Entender o que é saúde não é uma tarefa fácil. Falta de doença? Bem estar? Equilíbrio? São várias as definições, mas a constatação é a mesma: a saúde piora em tempos de crise, mais para uns do que para outros. Nessas ocasiões, parece impossível executar ações que realmente promovam e melhorem a saúde da população.

E o que significa promover saúde? Estimular a atividade física, a perda de peso e a alimentação saudável são alguns dos exemplos mais conhecidos e, de fato, pesquisas comprovam – não surpreendentemente – que hábitos saudáveis reduzem as chances de adoecimento. A médica não estava errada ao receitá-los para Dona Beatriz, mas seu erro – e o de grande parte da população – foi se limitar aos hábitos, sem analisar a situação de um ponto de vista mais amplo.

Não fosse essa falha, a médica saberia que Beatriz não caminha porque as ruas de seu bairro não são asfaltadas, cheias de desníveis e buracos, e o transporte público é ineficiente para levá-la a um espaço mais adequado para caminhar. Além disso, dona Beatriz sai às seis da manhã de casa para deixar as filhas na escola e ir ao trabalho, chegando em casa novamente apenas às sete da noite, no tempo de fazer a janta, passar os uniformes das crianças e, exausta, tirar seus cinco minutos de lazer ao fumar um cigarro. Mas a situação já fora pior, nos dois anos em que Beatriz ficou desempregada e quase sem teto, dependendo de programas sociais.

A instabilidade do mercado de trabalho e os baixos salários, associados à falta de infraestrutura e de transporte público, a princípio, nada têm a ver com saúde. Mas esses são exemplos do que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chama de Determinantes Sociais em Saúde (DSS) e, de acordo com a organização, esses devem ser os alvos das políticas de promoção de saúde.
Tais políticas deveriam ter como base não apenas a mudança de hábitos individuais – foco de uma vertente neoliberal da saúde. O objetivo deve ser principalmente mudanças estruturais nos determinantes sociais, para reduzir as desigualdades e, dessa forma, permitir que todos tenham um acesso às caminhadas, ao lazer, ao tempo com a família.

Nessa perspectiva ampla, a saúde deixa de ser uma responsabilidade exclusiva dos profissionais, secretarias e Ministério da saúde e passa a ser uma pactuação compartilhada entre os vários setores da máquina pública com seus “clientes” (a população). Ainda nesse sentido, os movimentos populares e as lutas por educação, segurança e tolerância também são espaços de luta por saúde.

Voltando ao caso de dona Beatriz, há quem afirme que as prescrições de mudanças de hábitos individuais isoladas, sem mudanças estruturais, não só teria um efeito incompleto na promoção de saúde como poderia inclusive ser prejudicial na medida em que propaga a ideia de que “cada indivíduo é responsável pelo seu próprio caminho”, apagando completamente o debate sobre os determinantes e as desigualdades sociais. Um povo que de fato se preocupa com sua saúde observa o seu meio, cobra mudanças e apoia as lutas contra as desigualdades. Um governo realmente comprometido com a saúde de sua população ouve as demandas e busca, junto aos cidadãos, as melhores formas de resolver os problemas e reduzir as iniquidades. Juntos, governados e governantes podem decidir a resposta à pergunta: é possível ter saúde em tempos de crise?

Fotografia: EBC

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