31/10/2019 15h41

Em tempos de Halloween, Sociedade dos Observadores de Saci luta para manter em pé a tradição folclórica brasileira

Gisele Berto

31 de outubro. Dia das Bruxas. Conceito importado do Halloween gringo, a comemoração não faz muito sentido (historicamente falando) em terras brasileiras. Abóboras enfeitadas, lanternas, zumbis, monstros e bruxas se espalham em escolas e bairros com a típica pergunta: gostosuras ou travessuras? Nada disso teria a ver com a cultura local.

Muita gente se incomodava com isso. Até que, lá pelos idos de 2003, um grupo de folcloristas e apaixonados pelas figuras míticas locais decidiu que era hora de capturar – sem peneira nem chapéu – uma das figuras lendárias mais importantes do Brasil: o Saci.

Surgia a Sociedade dos Observadores de Saci – ou SOSACI. E não tinha como ser em outro lugar: o berço dos observadores do Pererê seria São São Luís do Paraitinga, pequena cidade do interior de São Paulo e ponto de muitas lendas regionais.

A SOSACI começou como um movimento entre amigos – autodenominados saciólogos ou observadores de sacis. Em setembro do mesmo ano, o grupo ganhou o apoio da Prefeitura de São Luís do Paraitinga e a cessão da praça local como palco do primeiro evento público: “O Grito do Saci”, em alusão ao Grito da Independência, comemorado no mesmo mês.

A Sociedade se firmou, de verdade, com a realização da festa do dia 31 de outubro: a Festa do Saci.

E não vá pensando que é tudo brincadeira: o grupo promove gincanas entre as crianças para envolver os alunos em brincadeiras tradicionais que resgatem o folclore local. Também há música e roda de debate em que os organizadores falam não só sobre o folclore e seus personagens, mas sobre a cultura brasileira de maneira geral, e possíveis políticas públicas que poderiam favorecer o aparato cultural nacional.

Em 2004, por meio de uma Lei, o Estado de São Paulo oficializou o 31 de Outubro como Dia do Saci. Depois, outros estados fizeram o mesmo e, a bordo do seu redemoinho, o Saci foi ganhando o país todo. Em São Paulo, as cidades São Luis do Paraitinga, Lorena, Cruzeiro e São José do Rio Preto já adotaram a data; em Minas Gerais, a cidade de Juiz de Fora; Curitiba, no Paraná; Fortaleza, no Ceará e Vitória, no Espírito Santo também aderiram ao movimento.

A Festa do Saci em São Luiz do Paraitinga tornou-se um evento tradicional e já está em sua 17ª edição.

A SOSACI conta com mais de mil saciólogos. Cada um com sua habilidade (jornalistas, artistas, produtores de vídeo, contadores de história, pesquisa, escrita), todos colaboram com a Sociedade e espalham o nome do Saci por aí!

E VOCÊ, JÁ VIU UM SACI?

Descrito como um moleque zombeteiro, que gosta de pregar peças nas pessoas e fazer tranças nas crinas de cavalos, o saci é um ser pequeno, com cerca de um metro e meio de altura, negro e tem uma perna só, o que não lhe impede de ser muito rápido e ágil. Eles vivem nas florestas, usam gorro vermelho e gostam muito de fumar cachimbo.

A lenda foi espalhada boca-a-boca, contada por ex-escravos e moradores de sítios e fazendas nos interiores do país. Mas foi o escritor Monteiro Lobato quem ajudou a espalhar o Saci por todo o Brasil, com a publicação, em 1918, do livro O Saci-Pererê. Na obra, Lobato reunia diversos relatos que havia recebido no jornal O Estado de São Paulo, quando pediu aos leitores que descrevessem experiências com sacis. Ele recebeu na enxurrada de cartas, especialmente de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em entrevista ao site Leia Já, o jornalista e geógrafo, hoje aposentado, Mouzart Benedito, um dos fundadores da Sosaci. conta que, no final dos anos 1990, ao perceber a cultura estrangeira do Halloween se impondo na sociedade brasileira, sentiu-se incomodado e decidiu fazer algo. “A gente começou a ficar invocado com isso, nessa época surgiu a Associação de Criadores de Saci em Botucatu (SP) e eu comecei a fazer coisas protestando contra o Halloween, falando sobre o folclore nacional”.

O observador então buscou no interior paulista os modelos para criar a Sosaci. Mas, com um diferencial: “Lá eles têm o negócio de criar o saci em gaiola e eu não gosto de prender nada, só observar”. A partir daí ele reuniu um pequeno grupo e deu início aos trabalhos da associação em São Luiz do Paraitinga.

E PRA VER UM SACI, COMO SE FAZ?

Ainda em entrevista ao Leia Já, Mouzart explica como observar sacis. Primeiro, é preciso ir para o meio do mato. Mas o moleque não se deixa observar com facilidade assim. Traquina, ele gosta de brincar com quem o procura e tampouco se deixa fotografar ou filmar de maneira que ninguém consegue registrar as imagens do serzinho. Reza a lenda, que ao capturar a imagem de um saci ele acaba morrendo. Mouzart até relembra um caso de uma emissora de televisão que tentou fazer uma matéria sobre a lenda e acabou tendo os equipamentos danificados. “Quando vai escurecendo, ele aparece lá no meio do bambuzal, mas aconteceu que eles largaram toda a aparelhagem, queimou tudo”.

BRINCANDO DE CAPTURAR SACIS

O site Lunetas fez um guia prático sobre as espécies conhecidas de Sacis, como encontrá-los e capturá-los. Divirta-se no link

Comentários