Estava tudo certo para a retomada das obras já em janeiro mas, como disse Garrincha em 58, “faltou combinar com os russos”. Entenda como a crise boliviana jogou água no chope de Três Lagoas

O que estava quase tudo certo deu em água: por meio de uma nota simples, a Petrobrás anunciou que a empresa russa Acron desistiu da compra da UFN3.

O negócio, que já estava praticamente fechado, deu para trás devido à crise política na Bolívia. Em editorial publicado em 11 de novembro, dia em que Evo Morales renunciou à presidência, o Perfil News já sugeria que a política no país vizinho podia respingar na negociação. Dito e e feito.

A compra da UFN3 estava “99,9% fechada”, segundo autoridades do governo estadual. Em 18 de julho, durante uma reunião realizada na Governadoria do Estado com a presença, inclusive, do Prefeito Guerreiro, os russos apresentaram um cronograma de atividades em que constava, inclusive, o reinício das obras, que deveria acontecer no início de 2020.

O Governo do Estado estava empolgado, assim como as autoridades municipais, que viam na retomada das obras um alento à economia local afinal, além da UFN3, seriam outras 20 empresas-satélite viriam à cidade e colocariam Três Lagoas, novamente, como um canteiro de obras.

Já estava tudo certo: com a expertise obtida das obras das indústrias de celulose e da própria UFN3, a prefeitura se prepararia melhor para a explosão demográfica, evitando gargalos sociais, buscando apoio do Governo Federal.

E onde entra a Bolívia nessa história?

Você, nosso leitor, deve estar se perguntando: “e o que tem a ver a Bolívia com os russos e os sul-mato-grossenses?” A resposta é: tudo. Isso porque a UFN3 tem como matéria-prima o gás natural boliviano.

Além de fornecer o gás natural, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) tinha fatia de 12% no negócio, com opção de ampliar a participação para 30%. A Acron tinha um pré-contrato de fornecimento de gás com preço fixado para 2023.

Até outubro tudo seguia no cronograma. Os russos até vieram conhecer a cidade, visitaram pontos turísticos. As obras deviam começar no início do ano, mas…

Aí foi que o barraco desabou…

Em novembro, veio a crise na Bolívia. Depois de uma onda de protestos a respeito do último processo eleitoral, Evo Morales renunciou à presidência no dia 11. O cargo ficou vago até que Jeanine Áñez assumiu, interinamente. O Senado já aprovou novas eleições, que devem ser anunciadas em breve.

A instabilidade no país vizinho colocou uma pulga atrás da orelha dos russos. Com Vladimir Putin como parceiro de Evo Morales, os pré-acordos de preços de fornecimento de gás estariam mantidos. Mas, sem Evo e sem uma perspectiva de quem entraria em seu lugar, a roda da engrenagem travou.

Até que hoje veio a pá de cal. Em uma nota curta, a Petrobrás informou que a Acron se preferiu se retirar do negócio. E não foi só para a UNF3. De acordo com a nota emitida pela Petrobrás, também foi prejudicada a venda da Araucária Nitrogenados S.A. (ANSA), do Paraná.

Ainda segundo a estatal, a empresa “permanece com seu posicionamento estratégico de sair integralmente dos negócios de fertilizantes, visando à otimização do portfólio e à melhora de alocação do capital da companhia”.

Ou seja, estava tudo certo para Três Lagoas e o Mato Grosso do Sul marcarem um golaço, assim como faria Garrincha contra a União Soviética, lá na Copa de 58. No entanto, assim como disse o Anjo das Pernas Tortas ao técnico Feola, “só faltou combinar com os russos”.

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