04/09/2017 11h04

“A política não se resume a agentes públicos, pois o cidadão exerce ela todos os dias […]”, diz professor Vitor Wagner Neto de Oliveira.

Flávio Veras

A sociedade contemporânea brasileira está passando por um fenômeno de politização. Essa mudança começou após as manifestações em 2013 que reivindicavam o Passe Livre aos estudantes, porém, acabou se tornando um ato contra a classe política brasileira. No entanto, para inúmeros especialistas políticos, essa mudança no comportamento do cidadão brasileiro trouxe também consequências negativas, sendo que, uma delas é a polarização, que até hoje divide a sociedade e cria apelidos pejorativos como, “coxinha”, para que é considerado pelo adversário ser representante da direta, e “esquerdalha”, para quem é classificado com visão de esquerda.

De acordo com o professor e filósofo Mario Sérgio Cortella, um exemplo clássico dessa mudança de comportamento do brasileiro é, por exemplo, há jogos da seleção brasileira e poucas pessoas estão sabendo e discutindo a respeito da partida. “Ou seja, algo inconcebível há dez anos”, declarou. O comentário foi feito durante o Jornal da Cultura, no qual ele participa ao menos uma vez por semana.

VISÃO LOCAL

Outra afirmação de Cortella e, compartilhada pelo historiador três-lagoense Vitor Wagner Neto de Oliveira, é de que “a política não se resume a agentes públicos que obtém cargos eletivos. No geral, as pessoas dizem não gostar de política, e com razão, pois a depender do que vemos cotidianamente em nível nacional e local, denúncias de corrupção e relações escusas de políticos com empresários, não poderia ser diferente o sentimento das pessoas. Todavia, também cotidianamente as pessoas fazem política e participam dos debates sobre o tema em casa, no trabalho, na escola, em espaços públicos e privados. Pois ela não pertence só aos deputados, vereadores e governos. Somos sociedade política porque nos organizamos coletivamente. Por terem consciência dessa importância, as pessoas, apesar de não gostarem do que veem, ouvem e leem sobre o tema, ainda acompanham o noticiário”, disse o historiador.

Ao ser questionado sobre as vantagens e desvantagens desse atual interesse, Wagner Neto comentou que “nesse sentido, só vejo vantagem. Quanto mais informação, mais possibilidades de formarmos opinião. O problema é sabermos filtrar as notícias e compartilhá-las no nosso cotidiano”.

MARCO HISTÓRICO

Para contextualizar esse atual fenômeno, o historiador explicou que o marco mais importante que originou esse momento da sociedade, foram as manifestações de rua de junho e julho de 2013. Para ele, o manifesto representa uma curva na linha da história que acentua significativamente a participação da população na vida pública. “Aquelas mobilizações, que começaram em São Paulo contra o aumento de vinte centavos na tarifa de ônibus, logo se multiplicou em centenas de cidades, com pautas amplas, reunindo milhões de pessoas. Aquele movimento questionou profundamente a forma tradicional da política, inclusive a forma eleitoral. O recado parecia ser o seguinte: não confiamos no Estado, nos governos e nos políticos, muito menos na democracia eleitoral; confiamos sim no poder das ruas, das organizações horizontais do povo”, disse e completou dizendo que “isso é tão verdade que nas eleições seguintes, de 2014, o índice de abstenção, brancos e nulos foi recorde. Um recado claro de que a população perdia não o interesse na política, mas a confiança nas eleições como expressão da democracia, pois passou a compreender que ela poderia ser um jogo de cartas marcadas, e que o que determina o resultado é o poder econômico. Algo que veio a ser revelado de forma trágica nas investigações da Polícia Federal e nos inquéritos da Lava Jato”.

APRENDIZADO

Durante a entrevista o historiador afirmou que o maior aprendizado deste debate já está claro: de que a democracia eleitoral não é um versículo bíblico inquestionável, puro e imaculado. Ao contrário, é um espaço de interesses em que o poder econômico é definidor, e não a vontade do eleitor. “Neste sentido, os debates que permeiam a sociedade brasileira, desde ao menos 2013, engrossados pelos escândalos atuais, têm muito a contribuir para uma nova percepção por parte da população com relação à política, o Estado e o poder. Hoje os cidadãos sabem que os governos e parlamentares não governam ou legislam a favor do povo, mas sim a favor dos que financiaram suas campanhas. Apesar desse fator, a cada novo escândalo de corrupção ficamos chocados e sempre com o pé atrás quando e Executivo aprova medidas ou reformas”, exemplificou.

DEBATE ACIRRADO

Ao ser questionado sobre a polarização no atual debate político, o professor explicou que hoje existe uma disputa de dois polos. “Não há necessariamente um avanço do conservadorismo, por exemplo, como alegam alguns analistas ou militantes. É claro que temos ações conservadoras, mas isso se dá em resposta ao avanço da luta do outro polo que conquistou espaço: mulheres, negros/negras, LGBTs, indígenas, trabalhadores e trabalhadoras. Neste sentido, a polarização é interessante porque coloca o debate de forma mais objetiva e permite a união de froças para a elaboração de projetos que pensem a superação da crise política e econômica. A polarização, enfim, tira as pessoas do conforto de se colocar no meio termo. Isso tem levado, inclusive, a brigas entre amigos, familiares, pessoalmente ou nas redes sociais. Porém, é um momento interessante na formação da consciência crítica” exaltou.

CONSEQUÊNCIA

Para finalizar Oliveira projetou as influências que esse fenômeno político pode trazer nas eleições do ano que vem. Para ele, talvez o número de abstenções, brancos e nulos bata o recorde das eleições de 2016, em decorrência da descrença com os políticos, com a forma de democracia representativa, e o próprio Estado (União, Estados e municípios). “Provavelmente teremos a repetição de muitos deputados, senadores e governadores que aí estão, pois, novamente, quem elegerá, em última instância, é o poder econômico, algo que não mudará com a reforma política que se desenha na Câmara dos deputados. Em todo caso, a vida dos eleitos não será fácil. Como a população não vê mais a eleição como espaço prioritário de manifestação da política, a tendência é que as manifestações de rua e as várias organizações de políticas horizontais continuem travando a luta direta. Neste sentido, não vejo perspectiva de solução da crise política se considerarmos a manifestação popular. No entanto, as elites políticas devem tentar costurar uma saída segura para a situação atual. E se isso for conseguido, trará mais perdas para a maioria da população, pois a crise econômica cobrará dessas elites um preço alto a ser pago pelos cidadãos”, finalizou. ⁠⁠⁠⁠

Os três-lagoenses também promoveram manifestações na cidade estimulados pelos protestos na grandes cidades e capitais do país (Arquivo / Perfil News)

As primeiras manifestações em 2013 foram realizadas na Avenida Paulista (Arquivo / Agência Brasil)

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