07/11/2015 11h10 – Atualizado em 07/11/2015 11h10

A expectativa é de que, até dezembro, supere os 10%. Combustíveis, energia elétrica e alimentos pressionam o bolso dos consumidores. No mês passado, taxa foi de 0,82%

Redação

A inflação não dá trégua ao brasileiro. Em outubro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), avançou 0,82%, a maior taxa para o mês desde 2002. No acumulado do ano, a carestia subiu 8,52%, a mais elevada desde 1996. Em 12 meses, o custo de vida aumentou 9,93%, a maior em 12 anos. Com isso, há quase unanimidade, entre os economistas, de que a carestia em 2015 ficará acima de 10%, o que não acontece desde o último ano do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Entre os analistas, não há qualquer perspectiva de melhora que possa segurar a aceleração dos preços. Para o economista Alexandre Cabral, da NeoValue Investimentos, a proximidade aos dois dígitos é iminente. “Só um milagre fará o IPCA ficar abaixo dos 9,9%”, disse ele, que prevê uma inflação de até 10,03%. A análise não é muito diferente da projeção da Rosenberg Associados, que crava exatos 10%.

Motivos não faltam para os especialistas estarem pessimistas. Naturalmente, o último trimestre do ano costuma ser marcado por taxas de inflação superiores às do terceiro trimestre. E, neste ano, ao longo dos últimos 10 meses, a carestia só não foi superior às do ano passado em dois meses: agosto e setembro (veja arte). Em outubro, o custo de vida subiu 0,82%, resultado 0,4 ponto percentual superior em relação ao mesmo período do ano passado.

Para novembro, analistas do mercado financeiro previram, no início da semana, uma taxa de 0,6%. Se confirmada, já seria 0,09 ponto percentual maior frente ao mesmo mês do ano anterior. Mas, na quinta-feira, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a Light — empresa que distribui energia elétrica para cerca de 3,7 milhões de clientes a 31 municípios do Rio de Janeiro — a reajustar a tarifa em 16,7%. Com o aumento das contas de luz no estado, que teve o quarto maior peso regional sobre o IPCA em outubro, as perspectivas é de que a carestia este mês fique ainda mais pressionada.

O impacto provocado na inflação pelo reajuste das tarifas de energia elétrica no Rio de Janeiro devem voltar a apertar o grupo de habitação, que desacelerou de 1,3% em setembro para 0,75% em outubro. Em 12 meses, no entanto, esse agrupamento — que desde o início do ano é um dos principais responsáveis pela carestia — voltou a atingir, no mês passado, a marca de 18,3%, empatando com o índice registrado em julho, que havia sido o maior desde 2001.

O aumento do desemprego provocado pela queda da atividade econômica, no entanto, poderá contribuir para contrabalançar o crescimento do custo de vida, avalia o economista Márcio Milan, da Tendências Consultoria. “A inflação deve continuar registrando taxas maiores nos próximos meses, mas, ainda que de uma forma perversa, a deterioração do mercado de trabalho contribui para o arrefecimento da demanda”, ponderou.

E, mesmo assim, Cabral, da NeoValue Investimentos, tem dúvidas quanto ao freio da carestia via queda do consumo das famílias e desemprego. “O brasileiro é festivo e creio que seja capaz de consumir mesmo sob as adversidades. Muitos que perderam o emprego ainda sobrevivem da rescisão contratual”, avaliou. Assim, os gastos com compras para as festas de fim de ano e viagens devem ditar o ritmo de avanço da inflação.

Natal

No que depender dos fatores climáticos, a montagem das ceias de Natal e de réveillon não sairá barata para os consumidores. As chuvas, que têm castigado as lavouras no sul do país, comprometem a colheita de grãos e cereais plantados na região, como arroz, trigo, sorgo, soja e milho. O excesso de águas para o trigo, por exemplo, impacta na produção de massas e pães, afirmou a coordenadora de Índices de Preços do IBGE, Eulina Nunes. “Em algumas lavouras, há o risco de o trigo nem ser colhido”, afirmou. Em outubro, o preço do arroz subiu 3,77%, sendo um dos alimentos que mais cresceu no IPCA.

Diante de uma oferta interna menor, os produtores não veem outra alternativa senão importar mais gramíneas. Com o dólar alto, o efeito do câmbio sobre esses produtos provoca aumento dos preços do trigo e derivados. Esse mesmo movimento também impacta o preço da soja, usada na composição das rações que alimentam os gados. A desvalorização do real, no entanto, não foi o principal fator a pressionar o custo de vida, disse Eulina. “As despesas com combustíveis foram, sem dúvida, as que mais pesaram no orçamento das famílias”, afirmou.

(*) Correio Braziliense

Entre os analistas, não há qualquer perspectiva de melhora que possa segurar a aceleração dos preços. (Foto: Divulgação).

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