29/10/2019 15h34

Giovanni Barbosa Scorsin

Uma das grandes conquistas da infância é quando conseguimos juntar as letras e sílabas, formando palavras – estão abertas as portas da leitura. Nos anos que se seguem, continuamos exercitando essa habilidade, afinal, as palavras estão em todo lugar, mas antes das informações objetivas e do significado explícito, elas passam primeiro pela mente de alguém, ou seja, pela subjetividade de cada pessoa. Como qualquer ferramenta de comunicação, a escrita é uma forma de registrarmos nossas impressões do mundo e a leitura diz respeito a como recebemos, interpretamos e associamos essas informações. Durante esse processo, nosso cérebro faz diversas conexões que contribuem para nosso bem estar tanto quanto uma boa alimentação ou uma rotina de exercícios físicos.

Há cerca de seis mil anos, a escrita nascia na Mesopotâmia e no Egito, e através dela eram registrados os cotidianos social, econômico e político das sociedades da época. Desde então, essa forma de comunicação passou por várias transformações, gerando diversos alfabetos e desenvolvendo distintas funções – da carta informativa de Pero Vaz de Caminha às grandes obras realistas de Machado de Assis. A função principal de informar foi acrescentada de outras tarefas como transmissão de emoções ou convencimento de consumidores, por exemplo.

Com as “novas” funções, passa a ser relevante entender as entrelinhas, identificar-se e estabelecer uma comunicação entre leitor e obra. Juntar sílabas e palavras não são um fim, mas um método para alcançar essa relação, correlacionando não apenas com imagens objetivas mas principalmente com os contextos e realidades psicológicos e sociais nos quais estamos inseridos. Não é à toa que os livros para crianças trazem tramas e dilemas completamente diferentes do que se espera de um livro do Dan Brown – são proporcionais às circunstâncias de cada público.

Ler é entrar em contato com o subjetivo de outra pessoa, e alguns benefícios desse hábito são comprovados pela ciência. A exemplo disso, um estudo da revista Science demonstrou que a leitura de obras de ficção promove empatia através da compreensão e sensibilização quanto aos estados mentais e emocionais das personagens. Além disso, também contribui para a habilidade de interpretação, o que é útil para lidar com os problemas do dia-a-dia (solucionar um problema requer uma boa interpretação de suas causas e situações) e também pode ser uma ferramenta social, à medida em que a troca de experiências literárias tem potencial de criar e/ou intensificar novas redes e relações.

De certo modo, pode-se afirmar que a leitura é o exercício do cérebro – parte do nosso corpo que controla todo o nosso funcionamento biológico, psicológico e social. Ler te deixa mais inteligente e com a mente mais saudável – estudos apontam uma redução da degeneração dos neurônios, inclusive melhorando a memória, o que pode ser positivo para a prevenção do Alzheimer. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Sussex, na Inglaterra, esse hábito pode promover uma redução do estresse de até 68%, e substituir as telas digitais por um bom livro antes de dormir também melhora a qualidade do sono.

Os benefícios para pessoas com ansiedade e depressão também são nítidos. “O mundo pode te colocar tão para baixo que você sente como se fosse a única pessoa passando por aquela situação. Mas então você lê e percebe que não está sozinho; se alguém passou por isso e sobreviveu, talvez você também consiga”, diz o escritor JJ Bola. É pautada nessa função da leitura que existe a biblioterapia – utilizada na abordagem terapêutica a diferentes problemas de saúde, e sendo estudada atualmente como estratégia de prevenção.
Mesmo com todos esses benefícios, a população brasileira está lendo cada vez menos – e o problema não é o número de bibliotecas públicas, mais de 6000 ativas no país. Faltam investimentos na estrutura física, social e cultural desses espaços, que poderiam vir parcialmente do próprio Ministério da Saúde – um estudo britânico demonstrou que pessoas com hábito de leitura custam em média 30 euros a menos que o valor médio por indivíduo no NHS, o SUS do Reino Unido. Essa falta de incentivos à leitura é, mais que uma questão de saúde e educação, uma grande deficiência para a cidadania – perceber e analisar o mundo à sua volta de forma crítica é talvez o benefício mais precioso da leitura nos dias de hoje.

Ainda assim, podemos tentar criar o hábito de leitura e, durante esse processo, algumas dificuldades podem surgir. É importante ter um ambiente confortável e um tempo reservado na rotina para que você possa se dedicar a um livro, que deve ser escolhido de acordo com suas preferências – e não tenha medo de deixá-lo de lado caso não esteja fluindo para você, tente experimentar novos autores e novos gêneros.
Ler faz bem para a saúde e, agora que você sabe disso, escolha gratuitamente um bom livro na Biblioteca Municipal Rosário Congro (R. Alexandre Costa, 241, perto da Lagoa Maior), largue um pouco o celular e ajude a espalhar essa ideia entre familiares e amigos, indicando livros como indicamos boas viagens que fizemos. Como disse Augusto Cury, “A maior aventura de um ser humano é viajar. E a maior viagem que alguém pode empreender é para dentro de si mesmo. E o modo mais emocionante de realizá-la é lendo um livro”.

Apesar dos vários benefícios para a saúde, a população brasileira está lendo cada vez menos. Quem mais fica em risco, nos dias de hoje, é a cidadania. (Fotografia: Johnny Lindner/Pixabay)

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