25/07/2019 11h11

Segundo família, mãe não teria dilatação e ainda assim os médicos forçaram parto natural; laudo da morte diverge do depoimento da família

Gisele Berto

A morte de um recém-nascido na noite de terça-feira, 23, no Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, acendeu um debate sobre partos naturais na cidade.

Segundo relatos de familiares do bebê, a mãe, Silvia Iris Ribeiro Pereira, 27, teve uma gravidez sem intercorrências e tanto ela quanto o bebê estavam bem.

“Pouco antes do parto a minha irmã fez um ultrassom e me ligou toda feliz, dizendo que ele era lindo, que estava tudo bem. Mesmo lá no Hospital, a médica que atendeu a minha irmã colocou os aparelhos nela, ouviu o coração do bebê e disse qe estava tudo bem”, contou a tia da criança, Maria Lélia, em entrevista ao Perfil News. Veja o vídeo completo da entrevista abaixo.

Quando as dores do parto começaram, a família levou Iris ao hospital. Ela teria sido internada às 13h30 da terça-feira. Às 18h a médica que a atendeu ainda tentava induzir o parto normal.

“Minha irmã não tinha dilatação. Todo aquele tempo e não passava de um dedo e meio. Ela já tinha tido uma cesárea de gêmeos. O médico que fez o pré-natal disse que o nenê teria que nascer por cesárea”, conta Maria Lélia.

No entanto, segundo relatos da família, os procedimentos para o parto natural teriam continuado. Com as manobras para o parto, o bebê nasceu com vários hematomas no rosto e cabeça. As fotos não serão divulgadas pelo Perfil News em respeito à família.

A partir daí as informações se contradizem. De acordo com familiares, o nenê nasceu vivo e, logo após o nascimento da criança, ela foi levada para ser limpa e tomar banho. Pouco depois, a médica teria voltado e dito que ele havia falecido.

“O nenê nasceu, a médica colocou ele na cama, ele estava vivo, minha irmã viu. Pouco depois a médica voltou dizendo que ele tinha morrido de parada. Como assim? Era um bebê saudável, peso normal, tamanho normal, não tinha nada, como é que morreu? A gente só quer saber isso, a gente quer saber porquê meu sobrinho morreu”, diz Maria Lélia.

No laudo médico, entretanto, consta que o bebê teria morrido “durante o parto”. Há, ainda, a observação, anotada à mão, de que o bebê seria um “natimorto”, ou seja, havia nascido morto.

A família registrará boletim de ocorrência hoje para pedir investigação da morte da criança. “A gente não vai parar e a gente não tem medo de represália. Nada vai trazer meu sobrinho de volta, mas não é só ele. São vários casos que tapam o sol com a peneira”, diz Maria Lélia.

COM A PALAVRA, O HOSPITAL

Procurado pelo Perfil News, o Hospital Nossa Senhora Auxiliadora afirmou que está apurando os fatos com toda equipe da Maternidade e que irá abrir uma apuração interna para verificar o que aconteceu nesse caso.

Em nota, o Hospital informou que o Hospital trabalha com as boas práticas exigidas pelo Ministério da Saúde e é credenciado desde 2003 como Hospital Amigo da Criança. “O IHAC é um selo de qualidade conferido pelo Ministério da Saúde aos hospitais que cumprem os 10 passos para o sucesso do aleitamento materno, instituídos pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Para ser amigo da criança, o hospital deve respeitar outros critérios, como o cuidado respeitoso e humanizado à mulher durante o pré-parto, parto e o pós-parto, garantir livre acesso à mãe e ao pai e permanência deles junto ao recém-nascido internado, durante 24 horas, e cumprir a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças na Primeira Infância(NBCAL)”, informa a nota, que continua:

“Bebês que nascem em Hospital Amigo da Criança têm menos chance de sofrer intervenções desnecessárias logo após o parto, como aspiração das vias aéreas, uso de oxigênio inalatório e uso de incubadora. O contato pele a pele com a mãe logo após o nascimento, a amamentação na primeira hora de vida. Dados do DATUS revela que o Hospital Auxiliadora está abaixo da média quanto se trata de: “Taxa de Mortalidade Precoce”, no Brasil está como 6,6, em Mato Grosso do Sul como 6,2, no Hospital Auxiliadora 2,4, isso reflete as boas práticas no atendimento da gestante.”

GRUPO PEDE AUDIÊNCIA COM HOSPITAL

Após publicar a notícia da morte do bebê, na noite de ontem, um grupo no Facebook chamado “Mães Unidas” recebeu uma enxurrada de denúncias e casos de mães que teriam passado por situação de parto forçado.

O perfil, que nasceu cinco anos atrás para reclamar da merenda no município, já reúne mais de 4.700 pessoas. O objetivo é ser um ponto de apoio para mães em todas as situações.

“Procuramos ajudar em todas as frentes – saúde, educação, assistência social. Tudo o que for direito das mães nós vamos brigar”, contou uma das administradoras do perfil, Angelita Caetano, ao Perfil News.

Segundo ela, mais de 40 denúncias chegaram, acompanhadas de fotos e documentos, relatando machucados em bebês decorrentes de partos naturais forçados. “As denúncias nos assustaram muito. São relatos impressionantes e muito tristes. É um assunto que ninguém tem coragem de levantar, mas precisa ser discutido”, disse Angelita.

De acordo com ela, a Secretária de Saúde de Três Lagoas, Maria Angelina da Silva Zuque, entrou em contato para intermediar uma reunião entre representantes das denunciantes, os responsáveis pela maternidade do Hospital Nossa Senhora Auxiliadora e pela Secretaria da Saúde. O encontro deve acontecer na próxima quinta-feira, 1 de agosto.

Até lá, segundo Angelita, as administradoras do perfil prepararão um dossiê com todas as denúncias recebidas, desde que documentadas, para apresentar ao Hospital e pedir esclarecimentos sobre os casos relatados. “Parto forçado não é parto humanizado”, disse.


Secretária de Saúde de Três Lagoas reunirá responsáveis pela Maternidade do Hospital Nossa Senhora Auxiliadora com representantes de mães para tentar entender casos de problemas decorrentes de partos forçados. Foto: Arquivo

Laudo tem observação de que o bebê teria nascido morto, apesar da família ter visto que ele estava vivo no momento do nascimento.


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