31/12/2018 09h12

"Eu sobrevivi à BR-262"

Fazer o caminho entre Três Lagoas e Água Clara não é uma viagem: é uma prova de sobrevivência

 
Gisele Berto

Seria cômico se não fosse trágico. Fiz hoje uma simples viagem de pouco mais de 100km entre Três Lagoas e Água Clara. E terminei com a sensação de que havia terminado de participar do Survivor!

Em cada buraco que o carro caía eu me lembrava do ministro Carlos Marun, sorridente e dando a mão para todos no dia 23 de agosto deste ano, dia da assinatura do contrato de restauração da BR-262 entre Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo. Lembrava da senadora Simone Tebet, que pleiteia a presidência do Senado em 2019, firme e decidida, aplaudindo a liberação dos R$ 150 milhões para a obra.

"Não é apenas um tapa-buraco, é uma restauração completa", bradava a senadora. "Nosso povo esperou muito e merece essa obra", completava Marun.

Fiz a cobertura do evento. "Não é possível que dessa vez a coisa não ande", eu pensei. "Chamaram todo mundo, fotos e vídeos, matérias na imprensa, gente para cobrar. As máquinas todas aí. Não é possível que a coisa não ande", pensava, enquanto tentava me convencer que, dessa vez, a obra sairia. Como eu sou inocente!

Quatro meses depois a situação é deplorável. As máquinas, que estiveram à disposição para fotos naquele dia, foram retiradas pouco tempo depois. Para inglês ver, como dizem. "Paramos no período de chuva", disse o ministro, depois de ser cobrado publicamente pelo diretor do Perfil News, Ricardo Ojeda. Nem um tapa-buraco fizeram para as festas de final de ano!

Brincar de roleta-russa é pouco. Na roleta-russa, você tem uma chance em sete (dependendo da arma usada) de se dar mal. Na BR-262 a chance de cair em um buraco e estourar a roda é bem maior que isso. Basta piscar. Daí a enfiar o carro debaixo de uma carreta, capotar ou se arrebentar no acostamento inexistente é apenas uma questão de oportunidade.

Mais do que lastimável, o estado da rodovia federal é criminoso. Quem tem a caneta devia ser responsabilizado criminalmente por cada acidente, cada carro arrebentado e cada morte que a inépcia e a morosidade públicas causam nesta rodovia.

É uma vergonha que a principal via de acesso da Capital a Três Lagoas esteja nessas condições. Três Lagoas, a cidade que gera mais da metade da exportação do Estado, um dos principais PIBs do MS, a "capital mundial da celulose" é uma cidade que, hoje, não merece sequer a consideração do Governo Federal. Uma cidade abandonada à própria sorte.

Isso, claro, sem contar com o imenso número de animais mortos nos "acostamentos" por falta de corredores verdes para eles cruzarem. Tamanduás-bandeira, antas, tatus. Muitos, em vários pontos da estrada. De partir o coração!

A distância geográfica entre Três Lagoas e a capital do seu próprio estado é menor que a distância causada pelo descaso proposital com a única via que leva os três-lagoenses a Campo Grande.

O fato de não morrer muito mais gente na Rodovia da Morte é um milagre e um sinal de que os motoristas locais devem ser muito bons na arte da sobrevivência.

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