29/01/2019 10h44

Não podendo ser Anjo, foi ser Bombeiro

O trabalho incansável dos bombeiros militares em Brumadinho, que oferecem sua vida para salvar a de outros, enquanto recebem salários parcelados e sem 13º. Em Brasília, a "Bancada da Lama" briga pelos interesses das mineradoras

 
Gisele Berto
(foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas/D.A Press) (foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas/D.A Press)

A tragédia de Brumadinho me fez ter ainda mais certeza de que, se tem uma corporação que é admirada por todos, acredito que sem exceção, é o Corpo de Bombeiros.

Sempre que tem uma tragédia, são eles que estão lá. Um acidente, uma família presa dentro de um carro: eles são a linha de frente. Eles vão tentar salvar as pessoas, ainda que para isso sejam submetidos a situações que dariam pesadelos em qualquer um.

Em Brumadinho, vê-se um esquadrão desses anjos de vermelho: na lama, no céu, por todos os lados. Bombeiros do Brasil todo trabalham incansavelmente e ainda guardam a esperança de encontrar vidas em meio aos rejeitos tóxicos.

O que pouca gente sabe é que esses heróis - assim como todos os servidores mineiros, incluindo os Policiais Militares - estão trabalhando sem ter recebido sequer o 13º salário. Aliás, os vencimentos deles vêm sendo parcelados há quase três anos . Neste mês, os salários foram parcelados em três vezes: dias 14, 21 e 28. O pagamento do 13º ainda é uma incógnita.

Ou seja: eles arriscam a vida, enfiados de lama até o nariz, se arrastando por toneladas de rejeitos tóxicos, dia e noite, com risco de afundar em bolsões de lama, sem a mínima contrapartida do estado, que deve achar que os bombeiros podem usar seu altruísmo para pagar as contas.

Outros servidores que participam do resgate e do amparo às vítimas, entre eles os policiais civis e profissionais da saúde da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), também estão com os salários parcelados e o 13º salário atrasado, segundo informações do jornal Estado de Minas.

EM BRASÍLIA, LAMA PODRE

A vergonha tem braços que alcançam longe: a vergonha de ter menos de 3% das barragens fiscalizadas neste país de dimensões continentais; a vergonha de ver engenheiros presos por, supostamente, fraudar laudos técnicos - o que poderia ter impedido essa e tantas outras tragédias. A vergonha de ver que a toda-poderosa Vale não aprendeu nada com Mariana e - pior - transformou o que era uma tragédia ambiental em uma tragédia humana, com centenas de pessoas literalmente enterradas vivas sob rejeitos.

A vergonha de ver a chamada "Bancada da Lama" no Congresso, formada por deputados que deveriam defender os cidadãos, mas que, bancados por mineradoras, defendem as empresas feito cachorros que lambem o pé do dono. Prestam-se ao vergonhoso papel de traidores do interesse do povo brasileiro para defender mineradoras em troca de dinheiro para campanhas e sabe Deus mais o quê.

Assim como a corrupção neste país, a Bancada da Lama também não é exclusividade de um único partido. O principal articulador é o deputado Leonardo Quintão, do MDB de MG. Ex-defensor de Eduardo Cunha, em 2014, teve 42% da sua campanha bancada por mineradoras.

Quintão assinou o relatório do Código de Mineração, em 2015. Descobriu-se que o texto havia sido feito no escritório de advocacia que defendia a Vale e a BHP. O deputado não se reelegeu, mas foi alojado na Casa Civil do governo Bolsonaro.

Dos 27 titulares da comissão que debateu o Código de Mineração, 20 declararam doações de mineradoras. É o lobo cuidando das ovelhas. A lista incluía o presidente da Comissão, Gabriel Guimarães (PT-MG), e o vice, Marcos Montes (PSD-MG), atual secretário-executivo do Ministério da Agricultura.

Enquanto isso, os homens de vermelho estão lá. Folga? Não, eles precisam ajudar. Como disse o subtenente Selmo Andrade, que correu ao apoio, mesmo no dia do seu aniversário. "Estava com a minha família, mas quando soube da tragédia, só pensei em ajudar. Pensava em que poderia fazer para ajudar a população. Dar um conforto aos familiares ao resgatar um corpo. Infelizmente é o que resta muitas vezes para fazer por essas pessoas que estão desaparecidas".

Já que não existe a profissão de Anjo, essas pessoas foram ser bombeiros.

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