13/06/2019 17h26

“O que nós precisamos é injetar no Brasil um pouco de Três Lagoas para empurrar o país para frente”, diz novo presidente da Ibá

Em visita à cidade, Paulo Hartung falou sobre a “Capital da Celulose” e sobre como pretende fazer o setor, que emprega direta e indiretamente mais de três milhões de pessoas no país, se articular e conversar mais com a sociedade brasileira.

Gisele Berto

Ex-governador do Espírito Santo, estado que comandou por três mandatos, ex-Senador e ex-Diretor do BNDES. Se depender de vivência executiva, o novo Presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Paulo Hartung, deve levar com tranquilidade seu novo cargo, à frente de um dos setores mais lucrativos da indústria nacional: o de florestas.

Não que a missão seja fácil. Longe disso. Mesmo porque Hartung representará um setor que em 2018 exportou US$ 10,7 bilhões e finalizou o ano com uma receita bruta de R$ 73,8 bilhões. Ao todo, o segmento gera 3,7 milhões de empregos no País e tem previsão de investimentos na ordem de R$ 19,3 bilhões até 2022.

“É um desafio grande e estou muito confiante de que terei uma jornada positiva na Ibá. Trata-se de um setor economicamente muito importante, que representa cerca de 6,1% do PIB Industrial e é responsável por 4,1% de todas as exportações do Brasil. Além disso, é um segmento fundamental para o meio ambiente, já que remove e estoca carbono em suas florestas, protege a biodiversidade e conserva 5,6 milhões de hectares em áreas naturais. Temos que valorizar tudo isto, ainda mais em um momento em que o País passará por reformas, está se recuperando economicamente e em que discutimos muito sobre mudanças climáticas mundialmente. Tenho a certeza de que minha experiência vai somar neste momento”, afirma Paulo Hartung.

A vivência de Hartung, até agora, tinha sido quase inteira no serviço público. Com o mercado de celulose, muito pouco – ou quase nada: foi parte do conselho da Veracel Celulose, entre 2013 e 2014. E teve uma pequena gráfica no Espírito Santo.

Eleito há pouco menos de três meses para a Presidência da Ibá, Hartung sabe que precisa conhecer a fundo esse mercado e não pode depender apenas da experiência do seu passado para tomar decisões. Por isso, ele está viajando pelo Brasil, para conhecer cada cantinho do país que tenha florestas como fonte de riqueza.

Ele já esteve em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, interior de SP. Agora, está no Mato Grosso do Sul e, depois, segue seu tour por Santa Catarina, Paraná, Bahia…

Ao listar os “braços” do setor de florestas – que reflete na economia, no clima, no meio ambiente e tem um importante papel social e transformador, por meio da geração de empregos, Hartung afirma que seu principal trabalho será na comunicação. “Meu papel é integrar e transformar esse setor em um segmento que se articule mais e converse mais com a sociedade brasileira. O brasileiro tem tudo para ter muito orgulho de um setor como esse, competitivo em qualquer parte do planeta”, disse.

Para tornar esse setor mais conhecido, o primeiro passo será reativar o escritório da Ibá em Brasília. Para isso, ele conta com o Diretor de Relações Institucionais da Ibá, José Carlos da Fonseca Jr, que recentemente visitou a China, em comitiva com a Ministra da Agricultura Tereza Cristina.

TRÊS LAGOAS

No mercado nacional, Três Lagoas é conhecida como a Capital da Celulose. O título não é à toa: com suas três plantas de empresas de celulose (e a quarta a caminho), a cidade tem a maior área plantada do país e a floresta com maior valor do Brasil, segundo dados do IBGE.

Visitando a cidade pela primeira vez, Hartung sabe bem onde está pisando: conhece os números e sabe que Três Lagoas responde por mais da metade da exportação do estado. E sabe que grande parte dessa produção vem da celulose.

“Tenho muito respeito e admiração por Três Lagoas. Eu estou andando o Brasil inteiro, mas vir aqui é muito bacana, porque você vê a pujança dessa região, vê uma economia viva. O que nós estamos vendo aqui é o que precisamos ver no Brasil inteiro”, afirmou.

Eldorado Brasil – Em visita às instalações da Eldorado Brasil, Hartung leva a impressão de uma planta “extremamente moderna”. “Não é moderna no Brasil, não. É no Planeta. A produtividade que ela tem é motivo de orgulho para todos nós. A gente deve isso ao conjunto de profissionais que tem aqui. Uma planta industrial limpa e bem cuidado. O que nós precisamos é injetar no Brasil um pouco de Três Lagoas para empurrar esse país para frente, gerar emprego e dar oportunidade para tantos irmãos nossos”, disse.
Hartung também se impressionou com a construção da termoelétrica Onça Pintada, projeto que deve ser inaugurado em dois anos e gerará energia a partir da biomassa de eucalipto.

CENÁRIO NACIONAL

Apesar da economia brasileira patinar, o mercado de celulose parece não ter crise. Com cerca de R$ 22 bilhões em novos investimentos no setor no Brasil, o segmento de florestas plantadas diverge do atual momento econômico nacional. “A economia brasileira está arrastando correntes. A mais pesada é a do déficit fiscal. Precisamos gerar emprego de novo e melhorar a renda do país, que encolheu nos últimos anos”.

EXPORTAÇÕES E O MOMENTO DELICADO ENTRE EUA E CHINA

Em maio, a Ministra da Agricultura Tereza Cristina levou uma comitiva de empresários à China. Na série de encontros promovidos no país asiático, Cristina sugeriu que a crise comercial entre Estados Unidos e China poderia acabar rendendo dividendos ao comércio internacional brasileiro – inclusive ao setor de celulose, já que mais de 40% da produção nacional é adquirida pelos chineses e, com a guerra comercial com os Estados Unidos, os asiáticos poderiam aumentar a “lista de compras” com o Brasil.

“Essa missão cumpriu a tarefa de desfazer os ruídos de comunicação que foram a público no começo do ano. Com essa visita, a Ministra mostrou sensibilidade e colocou de novo uma relação saudável entre Brasil e China”, disse Hartung.

Apesar disso, Hartung afirma que uma guerra comercial entre EUA e China não seria interessante a ninguém. “Isso pode nos beneficiar em um primeiro momento, mas ela não é boa para a economia mundial. O mundo vinha discutindo a evolução de um comércio livre e a volta de atitudes protecionistas, ao fim, pode diminuir o dinamismo da economia mundial. É claro que temos que estar preparados para todas as oportunidades comerciais, mas do ponto de vista estratégico nós temos que trabalhar para que esse momento de conflito comercial calçado por medidas protecionistas seja superado”, afirmou.

A IMPORTÂNCIA DA AGROSSILVICULTURA

Hartung falou também sobre a mudança de tradições e costumes trazida pelas indústrias de celulose e pelas florestas plantadas.

Até poucos anos, a região de Três Lagoas liderava o setor pecuário, com um rebanho bovino de mais de 5 milhões de cabeças. Porém com a chegada das florestas plantadas, o pasto deu lugar ao eucalipto, enquanto a pecuária, até então principal fonte de renda da região foi diminuindo. Para Hartung, a concepção de agrossilvicultura (a prática de cultivar árvores em conjunto com culturas agrícolas) deve ser estimulada, afim de que as pessoas não deixem suas terras e continuem com sua produção rural – ainda que cercadas por eucaliptos.

“Se você observar o acordo de Paris, o compromisso que o Brasil assumiu, uma parte é combinar a produção rural com a pecuária e a produção de árvores. Onde está sendo testado, como no Sul da Bahia, é viável e rentável. É esse olhar que nós precisamos ter”, concluiu.

Novo presidente da Ibá, Paulo Hartung, veio para conhecer Três Lagoas e visitar as instalações da Eldorado Brasil. Foto: Arquivo Perfil News

Paulo Hartung, Presidente da Ibá. Foto: Gisele Berto

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