12/06/2017 11h20

Nova temporada da série que se tornou objeto de culto ao transgredir as regras da TV na década de 1990 traz de volta a narrativa hipnótica de David Lynch, crimes bizarros e personagens desconcertantes

Redação

Quando a primeira temporada de “Twin Peaks” foi ao ar, em 1990, a história da TV ganhou um novo capítulo: o da transgressão. Conhecido por “O Homem Elefante” (1980), “Veludo Azul” (1986) e “Coração Selvagem” (1990), o roteirista e diretor David Lynch pôde apresentar a um público bem mais amplo sua maneira incomum de narrar uma trama policial.

Em “Twin Peaks”, a investigação do assassinato de uma adolescente na montanhosa cidade de 51 mil almas que dá nome à série ganhou contornos de realismo fantástico com sotaque indígena do noroeste dos Estados Unidos.

Ao vasculhar a morte de Laura Palmer (Sheryl Lee) e os vestígios deixados pelo assassino no corpo da vítima, o agente especial do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) mergulha em um mundo de fenômenos regidos por espíritos associados à tradição xamânica da região.

Os dias de Cooper em Twin Peaks são marcados por visões, mensagens enigmáticas e criaturas que aparecem tanto para fornecer pistas quanto para confundi-lo. Embora tenha rendido uma segunda temporada, além do longa-metragem “Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992) e dois livros com desdobramentos da história, a ousadia de “Twin Peaks” foi tamanha que parecia impossível retomá-la como série de TV. Pois a trama está de volta, em 18 episódios produzidos pela rede Showtime e exibidos no Brasil via Netflix desde a segunda-feira 22.

Enquanto isso…

A primeira cena do capítulo de estreia retoma um diálogo de Laura Palmer e Dale Cooper ocorrido no passado. Falando de trás para frente, como fazem alguns dos personagens sob determinadas circunstâncias, Laura diz: “Olá, agente Cooper.

Eu o verei novamente em 25 anos. Enquanto isso…”. A frase é interrompida quando a personagem faz um enigmático gesto com as mãos. A imagem congela.Vinte e cinco anos depois, a história transcorre dentro e fora dos limites de Twin Peaks. Em Nova York, um casal é violentamente atacado por uma criatura que se desprende de uma caixa de vidro mantida sob completa vigilância.

Ao mesmo tempo, em uma pequena cidade da Dakota do Sul, o assassinato de uma jovem bibliotecária leva a polícia a prender o diretor de uma escola primária cujas digitais estão por toda parte na cena do crime. Os dois casos se entrelaçam à morte de Laura Palmer e à vida do agente Dale Cooper. Supostamente desaparecido, segundo relatos dos moradores de Twin Peaks, ele está presente em dois cenários da trama atual, num deles com uma personalidade bem distinta da que o caracterizava ao investigar a morte de Laura.

Ela também aparece, 25 anos mais velha, e susurra revelações. As histórias de ambos se cruzam em dimensões paralelas, assim como a de Leland (Ray Wise), o pai e assassino de Laura.

Nos dois primeiros capítulos, a narrativa hipnótica que é uma das marcas de David Lynch está de volta com força total. O diretor mantém uma tensão constante, que exige do telespectador atenção aos mínimos detalhes de cada cena, dos ruídos de fundo até as entrelinhas dos diálogos.

O suspense cresce apoiado em uma simbologia própria, que passa pela caracterização bizarra de cada personagem
e pelas ótimas atuações.

No elenco, além de nomes das temporadas anteriores, haverá surpresas como David Duchovny (de “Arquivo X”) na pele da investigadora Denise Bryson, transgênero que no passado fora Dennis, um colega de Cooper. As atrizes Nicole Kidman, Ashley Judd e Jennifer Jason Leigh foram escaladas para pontas. O próprio David Lynch vive Gordon Cole, diretor do FBI.

Assim como ocorreu no passado, a vocação da série para se tornar “cult” está garantida. Na avaliação de mais de 4 mil usuários do site IMDB (Internet Movie Data Base), a terceira temporada obteve a excelente média de 9,6 pontos, contra 8,9 da primeira.

A nota 10 foi dada por 76% dos que votaram. Como nenhuma outra série, “Twin Peaks” define o que é uma obra-prima para boa parte dos cinéfilos.

Uma cidade cercada de mistérios

“A História Secreta de Twin Peaks” (Companhia das Letras), livro escrito por Mark Frost, também roteirista e produtor da série de TV, introduz o leitor ao misterioso passado da região e o entrelaça a acontecimentos dos dias de hoje.

Como num dossiê, o livro reproduz supostos memorandos internos do FBI, depoimentos de exploradores do noroeste dos Estados Unidos no início do século 19, cartas do então presidente Thomas Jefferson, recortes de jornais e muitos outros documentos que narram fatos inexplicáveis ocorridos em Twin Peaks até a chegada de Dale Cooper.

É tudo tão intrigante quanto o que a série exibe. E ajuda a torná-la mais verossímil, por estranho que pareça.

(*) Isto É

LABIRINTO O reencontro de Leland Palmer (Ray Wise) e Dale Cooper (Kyle MacLachlan): presos aos eventos do passado (Foto: Suzanne Tenner)

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