04/07/2019 15h23

Casos crescentes do número de suicídios trazem o problema à tona: o machismo e o preconceito nas instituições massacram os trabalhadores da segurança pública; “Seria ideal se tivéssemos um profissional especializado no Batalhão”, diz Major Ênio

Gisele Berto

Eles convivem com o que há de pior na sociedade. Atuam em jornadas excessivas, em trabalho de risco, com altos índices de ansiedade. O medo de morrer e o medo de matar são seus companheiros diários. Seus erros não são tolerados. O que o Estado lhes paga não é suficiente e, por isso, se obrigam a usar as folgas para fazer bicos e sustentar a família. O cansaço acumula. São obrigados a ser super-humanos, mas o tratamento que recebem em troco é desumano.

Com tudo isso, junta-se o medo de parecer fraco, o preconceito e o machismo. Precisam ser imbatíveis. E, mesmo quando a mente já está em frangalhos, eles não pedem socorro, por medo de serem excluídos pela própria tropa e pelos amigos. “Fraco”. “Fraco”. “Fraco”.

A mente daqueles que carregam a arma que define a vida e a morte está abandonada à própria sorte. Hoje, mais policiais militares morrem vítimas da depressão e do suicídio do que em combate. E a razão disso é cruel: na cabeça deles, pedir ajuda é sinal de fraqueza.

E assim, vivendo no limite, os policiais se entregam calados às bebidas, à depressão e entram, sozinhos, em um buraco escuro na própria mente de onde, muitas vezes, não conseguem sair. E quase sempre ninguém da sua convivência fica sabendo.

Dessa forma, muitos simplesmente não aguentam. Foi assim com o tenente-coronel Oéliton Santana de Figueiredo, de 44 anos, que na manhã do dia 1 de junho deu um tiro na própria cabeça em Campo Grande.
Ele foi a quarta vítima de suicídio entre policiais apenas neste ano no Mato Grosso do Sul. No ano passado inteiro três policiais se mataram no Estado.

FALTA ASSISTÊNCIA

Muito se cobra em relação ao condicionamento físico dos policiais. Entretanto, o descaso com a saúde mental das forças de segurança é gritante. O refúgio para os policiais vítimas das doenças da mente é o Fundo de Assistência Feminina (FAF), uma entidade civil filantrópica, presidida tradicionalmente pela esposa do Comandante Geral, e que sobrevive exclusivamente por doações de sócios voluntários – os próprios policiais militares.

“É necessário humanizar o trabalho de quem atua na segurança pública”, opina o Deputado Estadual Coronel David, que fez uma indicação nesta semana para que se crie no Estado um Centro Biopsicossocial, assim como já existe em outros lugares do país. Neste lugar, o policial e todos os trabalhadores da Segurança Pública teriam amparo às suas enfermidades mentais, tratamento adequado e estímulo para compartilhar suas angústias, sem medo de sofrer represália.

Em Três Lagoas, além de enfrentar o preconceito da tropa em relação aos cuidados psicológicos, o Comando do 2º Batalhão tropeça na distância geográfica. Como é de praxe, sempre que há troca de tiros o policial é encaminhado ao FAF – que fica em Campo Grande.

“Nunca houve um caso em que a gente indicasse o acompanhamento pelo FAF e o policial tivesse procurado ajuda”, conta o Major Ênio de Souza. Segundo ele, o Comando só pode orientar, mas a iniciativa de procurar ajuda precisa ser voluntária.

“O ideal seria ter um profissional na região, acompanhando a rotina. Nós somos leigos, não temos o conhecimento profissional necessário para entender quando um profissional está passando por problemas psicológicos”, afirmou o Major Ênio, que disse ter casos de subordinados seus que passaram por depressão e problemas com alcoolismo. Apesar de todos os policiais terem convênio médico, não há como obrigá-los a procurar ajuda.

MEDO DE PARECER FRACO

O preconceito com as doenças da mente e o machismo são fatores primordiais a ser combatidos para que a depressão, os transtornos de ansiedade e outras enfermidades possam ser levadas a sério. “Quando eu era Comandante eu obrigava que os membros da tropa que se envolvessem em troca de tiros frequentassem o FAF, mas havia resistência. Os homens acham que se eles se preocuparem com isso será um sinal de fraqueza”, conta David, que foi Comandante-Geral da Polícia do MS de 2009 a 2014 e, segundo ele, precisou usar a autoridade para obrigar os seus homens a cuidar da saúde mental.

Segundo o Ouvidor da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Benedito Mariano, a crueldade vai além. “Quando um policial morre em serviço, vai o Comandante do Batalhão, os colegas, vai muita gente parta prestigiar o policial morto. Há um mausoléu de policiais mortos aqui em São Paulo. Quando um policial comete suicídio não vai quase ninguém, porque ainda vê no ato uma certa fraqueza, então não vai prestigiar a fraqueza”, contou, em entrevista ao portal Sputnik.

LONGAS JORNADAS, POUCO EFETIVO

Além da necessidade de “parecer forte”, David ainda menciona, como agravantes para os problemas mentais que atingem a tropa, as más condições de trabalho, escalas excessivas por conta do déficit de efetivo e salários baixos. “A depressão acompanha o trabalho do policial militar e o suicídio é a última etapa disso”, disse.

CENTRO BIOPSICOSSOCIAL

Para Coronel David, o Centro Biopsicossocial seria, juntamente com a exigência do cumprimento dos concursos públicos em andamento – para aumento no efetivo – uma ferramenta para ajudar os agentes a cuidar da mente. “A criação deste centro seria fundamental para melhorar a saúde mental dos servidores da segurança, que passam por situações de risco todos os dias, sofrem pressão nos quartéis e apresentam algumas questões que são tratadas como fragilidade e não como doença. Por isso muitos deixam de pedir ajuda e acabam adoecendo ou até mesmo tirando a própria vida. Esperamos que o Governo do Estado trate este pedido com sensibilidade, melhorando assim a qualidade de vida dos profissionais, consequentemente o trabalho exercido à sociedade, além de salvar vidas”, disse o parlamentar.

Segundo David, o Secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública do Mato Grosso do Sul, Antonio Carlos Videira, mostrou apoio ao projeto e logo entrou em contato com o Deputado.

De acordo com o texto do projeto, a criação do centro “ampara os servidores que atuam na segurança pública, que precisam de um apoio psicológico devido a prerrogativa de função e alto grau de periculosidade”. Ainda segundo o documento, a pressão diária a que são submetidos os servidores, aliada a outras circunstâncias que merecem mais atenção do poder público, tem aumentado o número de suicídios e desenvolvendo quadros psicológicos e psiquiátricos graves entre os que atuam na segurança pública do MS.

O tenente-coronel Oeliton Santana de Figueiredo, de 44 anos, que se suicidou no começo do mês. Foto: Reprodução

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