23/08/2003 09h38 – Atualizado em 23/08/2003 09h38
BRASÍLIA – O projeto de ver em órbita um foguete brasileiro capaz de conquistar para o país um lugar no mercado mundial de lançamento de satélites foi frustrado pela terceira vez nesta sexta-feira, em um episódio trágico. O comando da Aeronáutica, que administra a instalação, informou no fim da noite que 21 pessoas morreram quando o veículo lançador de satélites brasileiro VLS-1 V03 explodiu, na plataforma de que seria lançado, na Base de Alcântara, três dias antes da data marcada para a partida. De acordo com a TV Globo, duas pessoas que estavam nas proximidades da área do acidente sobreviveram à explosão.
Anteriormente, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão dissera que 19 pessoas moreram e 20 estavam feridas, algumas em estado grave. À noite, Homens do Grupo Tático Aéreo do Maranhão que visitaram o local da explosão do veículo lançador de satélites VLS-1 disseram que 21 pessoas não foram localizadas na contagem do pessoal na Base de Alcântara após o desastre. Por volta das 20h, foi anunciada a suspensão das buscas, por causa do superaquecimento no local do acidente. O trabalho será retomado no sábado pela manhã.
Embora a Força Aérea tivesse 220 pessoas envolvidas diretamente na operação, a equipe que trabalhava no VLS no momento do acidente era pequena – mas ainda não foi divulgado o número exato. O incêndio desencadeado pela explosão foi controlado rapidamente.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou as mortes, mas reafirmou o objetivo do governo de prosseguir no desenvolvimento de uma tecnologia espacial brasileira.
Em rápida entrevista coletiva no Palácio do Planalto, o ministro da Defesa, José Viegas, disse que informações preliminares dão conta de 16 mortos, todos técnicos brasileiros do Centro Técnico Aeroespacial (CTA).
- A plataforma de lançamento ruiu, e os técnicos estavam trabalhando lá, portanto, tudo indica que tenham falecido. Não há esperanças de que tenha havido sobreviventes – disse o ministro antes da confirmação dos 21 mortos. –
As autoridades chegaram ao número total de mortos após fazer uma lista de chamada, para ver as pessoas que estão presentes e deduzir os ausentes.
Viegas disse já ter pedido abertura de um inquérito sobre o desastre, que teria começado com a ignição de um dos propulsores do veículo.
- Houve uma ignição por causas ignoradas de um dos quatro motores do corpo principal do foguete, o que levou a uma explosão – disse Viegas, que vai visitar a Base de Alcântara no sábado.
Em aparente menção ao fato de a tragédia ter ocorrido na terceira tentativa mal-sucedida de lançamento de um veículo da série VLS-1, o ministro afirmou: “a perseverança é uma virtude”.
Ao ler uma nota da Presidência sobre o desastre, o porta-voz, André Singer, falou da decisão brasileira de não voltar atrás na intenção de desenvolver uma tecnologia espacial nacional.
- O Programa Espacial Brasileiro, um importante projeto científico e tecnológico do nosso país, está hoje de luto. Neste momento, em que o Brasil presta homenagem aos trabalhadores da Base de Alcântara, o governo quer reafirmar a sua disposição de prosseguir no esforço de dotar o Brasil de uma tecnologia espacial própria.
Em nota, o Ministério da Ciência e Tecnologia disse, referindo-se às vítimas, que sua “homenagem a esses heróis é o compromisso de máximo empenho na continuidade e sucesso do Programa Espacial Brasileiro”.
O governo do Maranhão decretou luto oficial de três dias.
Nas duas primeiras tentativas de lançamento do foguete brasileiro, as missões foram abortadas momentos depois do lançamento. Desta vez, não houve chance sequer de o foguete partir. Investigação – No início da tarde, o Comando da Aeronáutica divulgou uma nota oficial confirmando a explosão, ocorrida por volta das 13h30m. Segundo a nota, ainda não são conhecidas as causas do acidente, e o pessoal técnico da base está avaliando a situação e investigando as prováveis causas.
No momento do acidente, não havia, segundo o centro Centro de Imprensa da Aeronáutica em São Luís, nenhum serviço importante em andamento no veículo. A última simulação de lançamento foi feita na quarta-feira e, desde então, o foguete vinha passando apenas por manutenção.
O primeiro VLS-1 brasileiro foi lançado em 1997, mas a missão fracassou: um defeito forçou a destruição do protótipo 65 segundos depois do lançamento. O segundo protótipo, lançado em 1999, também explodiu, minutos após a partida.
O Brasil tem investido cerca de US$ 6,5 milhões na construção de cada veículo lançador. Os recursos são da AEB e do Comando da Aeronáutica.
O VLS-1 V03 levaria dois satélites desenvolvidos inteiramente no Brasil. Um deles era o Satélite Tecnológico (Satec), produzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), para avaliar o desempenho do próprio foguete. O outro era o Unosat, desenvolvido pela Universidade do Norte do Paraná (Unopar), composto por um transmissor FM, duas baterias recarregáveis e um conjunto não recarregável, quatro painéis solares, antena, placa de voz digital e um computador de bordo. Os dois foram destruídos. Às portas do lançamento, os equipamentos já haviam sido instalados no VLS-1 V03.
O Inpe disse que não se pronunciará oficialmente sobre o assunto agora.
Na tarde desta sexta-feira, antes que um assessor confirmasse o acidente, o presidente da Agência Espacial Brasileira, Luiz Bevilacqua, chegou a desdenhar a informação:
- Só se for um foguete de São João – disse Bevilacqua, sobre os relatos da explosão em Alcântara.
Fonte: GloboNews