12/04/2003 09h11 – Atualizado em 12/04/2003 09h11
O hábito do canibalismo entre primatas pode ter causado epidemias similares à da vaca louca, indica um estudo da Universidade de Londres publicado na revista Science.
O grupo de pesquisadores liderado pelo professor John Collinge estuda a herança e o código genético de proteínas sem ácido nucleico – que geralmente causam distúrbios no sistema nervoso – para a prevenção de doenças modernas.
Segundo Collinge, a doença da vaca louca e outras variações se desenvolvem quando proteínas sem ácido nucleico no cérebro dobram-se, encavalam-se e matam células.
Por outro lado, o estudo sugere que a deformação desses genes também pode prevenir a aparição de várias outras doenças.
Canibalismo
As pesquisas, no entanto, continuam sem conclusões definitivas sobre o motivo que teriam levado os ancestrais humanos a comerem uns aos outros.
Mas duas variações de genes associados a essas proteínas evitam que essas doenças apareçam. As pesquisas de Collinge encontrou essas variações em pessoas de todo o mundo – foram realizados mais de 2.000 testes em pessoas de diferentes etnias e culturas.
Normalmente, quando uma variante de um gene é mais dominante do que a outra, esta desaparece. Mas a continuidade sugere que o par tem outras funções e vantagens.
Além disso, é possível que, em determinado período da pré-história, os que possuíam as duas variações acabaram se disseminando, enquanto os outros acabaram padecendo.
Resposta
A vantagem da presença desse par é ainda incerta. Mas, segundo Collinge, a explicação pode estar numa tribo da Nova Guiné.
Uma tribo da Papua, que tinha como tradição comer as pessoas que morriam, passaram a padecer de uma doença semelhante, chamada kuru.
O professor acredita que epidemias similares, mas numa escala mundial, possam vir a aparecer por causa da prática do canibalismo pelos primatas na pré-história.
“Estamos tentando entender a base genética dessas doenças e por que algumas pessoas as desenvolvem antes de outras”, afirmou ele à BBC.
Pressão
“Em determinado estágio humano, houve uma pressão para uma seleção, que acabou resultando na aparição de genes parecidos com os das proteínas sem núcleo que temos hoje”, declarou Collinge.
“Mas a questão é saber o que provocou essa pressão. Sabemos que o canibalismo pode levar a essas doenças, que havia canibalismo entre nossos ancestrais, e que o canibalismo causou essa seleção.”
Alguns antropólogos, porém, acreditam que não há evidências suficientes de que havia canibalismo. Mas há alguns indícios disso, como a marca de dentes em ossos humanos e a presença de proteínas humanas em fósseis humanos.