12/09/2008 14h57 – Atualizado em 12/09/2008 14h57

Outro dia escrevi sobre brasileiros talentosos que surgem do nada para brilhar internacionalmente. Uma de minhas amigas, Magdalena Cuevas – a Madá – falou-me de um garoto que ficava no centro da cidade de São Paulo tocando flauta: “Minha mãe e eu no início dos anos 80 morávamos no centro de São Paulo e sempre fazíamos passeios à noite pelas ruas centrais, pela 7 de Abril, Mappin, Mesbla, e lá estava o pai viúvo com os filhos. O pequeno Charles era o que mais se destacava com uma flautinha de plástico, tocando Tico-Tico no Fubá, Brasileirinho e outros chorinhos. Com o tempo a flauta foi melhorando. Já nos anos 1986 e 1987, quando já estava casada e continuava morando no centro, meu marido me acompanhava e ficávamos assistindo aos shows deles pelas ruas. Daí Charles já tinha uma flauta transversal e profissional”.

Quando a Madá contou essa história, lembrei-me de ter visto o garoto e seus irmãos lá pelos calçadões do centro. Fiquei impressionado com o talento do menino, tentando imaginar de onde vinha aquela facilidade mágica de tocar um instrumento tão difícil. O menino maravilhou muita gente, como Altamiro Carrilho, Arthur Moreira Lima e Paulo Moura. Charles da Flauta chegou a gravar um disco chamado “Pinguinho de Gente”. Logo em seguida o maestro Julio Medaglia conseguiu uma bolsa de estudos para o garoto estudar com o primeiro flautista da Orquestra Filarmônica de Berlim, na Alemanha. Charles poderia tornar-se um dos maiores flautistas do mundo! E Madá perguntava onde andaria agora o Charles da Flauta.

Alguns dias depois recebo um e-mail tristonho da Madá, acompanhado de um artigo de Gilberto Dimenstein, que descreve o que aconteceu com o pequeno Charles da Flauta.

Charles Pereira Gonçalves, aos 34 anos, foi encontrado vivendo debaixo do Minhocão em São Paulo. Viciado em crack, esquelético, miserável e tuberculoso. Sem perspectivas, sem brilho nos olhos… E sem tocar sua flauta mágica.

Julio Medaglia escreve para o Dimenstein: “Fiquei arrasado ao saber das novas sobre o Charles da flauta. Que lástima! Estava tudo encaminhado. O flautista da Filarmônica de Berlim, meu amigo, ia dar aulas de graça para ele – já que ouvia seu disco de chorinhos dia e noite –, o Manoel Francisco da BMF (hoje Bienal) ia dar uma passagem e o Nassif, que o descobriu, havia conseguido uma bolsa para hospedagem e alimentação em Berlim, se não me engano pela Philips. Quando ele estava prestes a embarcar, aconteceu uma pequena ruptura nessa cadeia que iria salvá-lo e nos dar um grande artista. Parece que o pai o trouxe de volta ao tráfico ou algo assim, e na época perdemos – eu pelo menos – contato. Numa apresentação minha com orquestra cheguei a fazer um arranjo de um chorinho para ele tocar como solista, mas ele não compareceu.”

Charles tenta explicar, na verdade buscando uma desculpa: “As pessoas pensavam que eu estava fora do Brasil e pararam de me procurar… Desanimado, comecei a não ir mais para a escola e a usar drogas. Experimentei crack e me perdi”.

Escrevo estas linhas ouvindo o delicioso disco de Charles da Flauta. De repente, numa das faixas entra a voz de Charles dizendo “Agora me lembrei. Eu quero tocar uma música sobre a minha cidade de São Paulo: “Ronda”. Vamo lá pessoal?”

Que porrada! Aquela voz de menino de 14 anos carregava os sonhos ilimitados que toda criança tem. E que ele estava transformando em realidade! Para vinte e cinco anos depois dar em… Nada.

É… A gente acha que basta ter talento, sorte, amigos e oportunidades para se dar bem na vida, não é? Charles da Flauta prova que não.

Sem a base familiar para nos disciplinar e iluminar o caminho – talento, sorte, amigos e oportunidades são apenas detalhes.

Charles foi retirado das ruas, apareceu no Fantástico e está tentando reencontrar seu caminho. A luta agora é entre Charles da Flauta e Charles Pereira Gonçalves.

Tomara que o Pinguinho de Gente vença.

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.

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