01/07/2019 09h44

Tema seria tratado com cautela pelo governo federal; Sejusp rediscute convênio para financiar ações de segurança na fronteira

Campo Grande News

No mesmo instante em que autoridades de Mato Grosso do Sul negociam junto ao governo federal a renovação de convênio voltado para a segurança pública na fronteira entre Brasil e Paraguai, a imprensa nacional aponta para a possibilidade de uma nova ameaça surgir na linha internacional. Setores de inteligência policial teriam detectado atividades do grupo paramilitar islâmico Hezbollah na região de Ponta Porã –a 329 km de Campo Grande–, cuja ação na área de Tríplice Fronteira é alvo de suspeita há anos.

Nota da coluna Radar, da Revista Veja, afirmou neste fim de semana que o governo federal já teria identificado atividades do Hezbollah em Ponta Porã e na fronteira do Brasil com o Uruguai. O assunto seria tratado com reservas pelo Palácio do Planalto, porém, o monitoramento seguiria em execução.

Foi a segunda referência, em poucos dias, sobre a atuação do Hezbollah em fronteiras brasileiras pela imprensa brasileira. O grupo, de fundamentação xiita e bases no Líbano e Síria, teve sua influência relatada em regiões do Oriente Médio, sendo tratado por autoridades norte-americanas como organização terrorista.

Reportagem da revista Istoé apontou que um debate em Buenos Aires sobre lavagem de dinheiro, nos últimos dias, abordou a presença de outros grupos terroristas na Tríplice Fronteira (entre Argentina, Brasil e Paraguai), como Estado Islâmico, Al Qaeda e Hamas, todos de origem sunita, mas atribuiu papel principal ao Hezbollah.

Relacionamentos – A Istoé destaca que a presença do Hezbollah é conhecida, pelo menos, desde 2005, a partir de relações entre o grupo extremista e os cartéis de drogas colombianos. Com o tempo, teria migrado para o sul e se aproximado de facções criminosas brasileiras, como PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho, que lutam por espaços na fronteira Brasil-Paraguai.

A morte do então “Rei da Fronteira” Jorge Rafaat, de origem libanesa, em 2016 –em um ataque nas ruas de Pedro Juan Caballero, vizinha a Ponta Porã, que se valeu até de artilharia antiaérea adaptada em um veículo– foi lembrada na reportagem que tratou da relação entre os grupos, assim como o assalto a uma transportadora de valores de Ciudad del Este, no ano seguinte, quando foram levados US$ 12 milhões.

A relação entre o Hezbollah e as facções brasileiras, prossegue a Istoé, teria entre as metas a execução de operações de fachada para lavagem de dinheiro das drogas e cigarros, resultando ainda na abertura de rotas clandestinas na América do Norte, Europa e Ásia.

Fiscalização – O Campo Grande News contatou, via assessoria, a Polícia Federal e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) a fim de obter esclarecimentos sobre a informação de que o Hezbollah atua na região de fronteira entre o Estado e o Paraguai, mas não obteve resposta até a veiculação desta matéria.

Titular da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), Antônio Carlos Videira afirmou não ter informações oficiais sobre a ação do Hezbollah ou de quaisquer outros grupos extremistas nominados na região de fronteira. Ele reconheceu, porém, a situação de vulnerabilidade dessas áreas diante da grande circulação de pessoas de diferentes países.

“É uma situação tratada pela inteligência em regiões de população estrangeira muito grande”, afirmou o secretário. “As ações de inteligência atuam o tempo todo, principalmente por ser uma região que pode ser usada por esse tipo de grupo extremista e outros, para lavagem de dinheiro e diversos outros crimes”, prosseguiu.

Convênio – Videira considera que a possibilidade de atuação de grupos terroristas nas fronteiras “não seria surpreendente”, sendo mais um argumento para reforçar o pedido de apoio às forças estaduais nessas regiões, “robustecendo a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal”. Por esse motivo, o governo estadual vem negociando desde 2018 a rediscussão e renovação de convênio firmado há cinco anos, no qual as polícias estaduais assumiram responsabilidade sobre crimes como tráfico de drogas e contrabando que, por serem transnacionais, cabem à PF e PRF.

Além das prisões, cabe ao Estado a custódia dos presos, sem que tenha havido contrapartida financeira federal à altura. Na semana que vem, representantes do governo estadual estarão novamente em Brasília a fim de tentar avançar nas tratativas com a equipe do ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) e, na semana seguinte, o governador Reinaldo Azambuja e o secretário Videira integram delegação que vai a em Assunção, no Paraguai, tratar de ações integradas de inteligência na fronteira –entre outros pontos.

“A vulnerabilidade da fronteira é evidente. Vimos discutindo isso o tempo todo, reiterando a importância de resgatar e fortalecer o papel da Polícia Federal e da PRF”, defendeu o secretário, elogiando o trabalho de órgãos como a Secretaria Nacional Antidrogas e reforçando que as forças de segurança do Estado vêm fazendo o seu papel até aqui nesse campo.

“Mas o Estado sozinho não vai dar conta. Com as forças federais, que têm um efetivo defasado, fazemos o que é possível. Somos o Estado brasileiro que mais apreende drogas, o de maior população carcerária per capita e temos um dos melhores índices de resolução de homicídios. Só que é evidente que o investimento não deve ser apenas em repressão e prevenção: tem de ser também na Justiça, não só combatendo a criminalidade e prendendo. Tem de cuidar para não sermos vulneráveis às facções”, ponderou.

Videira complementou apontando que medidas como a alienação de bens e valores apreendidos do tráfico e contrabando são alternativas viáveis para financiar o setor.

Imprensa afirma que Hezbollah estaria agindo na região de Ponta Porã; Planalto monitora. (Foto: Arquivo)

Armamento usado na execução de Jorge Rafaat, em 2016. (Foto: Arquivo)

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