16/11/2006 07h54 – Atualizado em 16/11/2006 07h54

Sammya Araújo / Agência Anhangüera

A morte da modelo Ana Carolina Reston, de Jundiaí, reacendeu a polêmica de uma doença que, para especialistas de Campinas, ainda é cercada de preconceitos. Graças à infeliz fama de ser “coisa de rico” ou “frescura de patricinha” , a anorexia nervosa, que acomete principalmente mulheres jovens, dizem os entrevistados, deixa de receber a devida dedicação das famílias, e, em alguns casos, até dos profissionais da saúde. E eles alertam: a possibilidade do quadro debilitante evoluir para uma fatalidade, como aconteceu com Ana Carolina, é bem mais real do que se pensa. “A anorexia é a doença psiquiátrica que mais mata” , afirma o endocrinologista Marcos Tambáscia, um dos médicos do recém-criado Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo a coordenação do ambulatório, a mortalidade entre portadores de anorexia gira em torno dos 20%. “É preciso um atendimento multidisciplinar para assegurar a eficácia do tratamento, com psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, nutricionistas” , diz ele. Segundo Tambáscia, em muitos casos os pacientes, que têm uma “fantástica capacidade de manipulação”, recusam a internação, o que dificulta a cura. “E a família às vezes acha que é um capricho” , reflete ele. Entre os problemas físicos, além da evidente e cada vez mais pronunciada perda de peso, o endocrinologista elenca os distúrbios hormonais, que suspendem a menstruação e enfraquecem os ossos. Falência renal e cardíaca são outras conseqüências dos casos mais graves. A psicóloga Ieda Maria Vieira Ribeiro Motta diz que a anorexia ou a bulimia – Ana Carolina também havia desenvolvido esta última – resultam de uma alteração patológica na percepção da autoimagem. “Eu tratei de uma menina de 16 anos que tinha separado uma saia jeans alguns números menor e pretendia só parar de emagrecer quando coubesse nela. Mas a saia já estava caindo, e ela ainda não se convencia de que estava magra. É um certo grau de confusão mental que impede que a pessoa se dê conta que está definhando” , diz. Mas Ieda esclarece que “toda doença é um processo” , e não nasce da noite para o dia. Há sinais que a família deve procurar para identificar o surgimento, ensina. “Esses transtornos se caracterizam por perda de peso excessiva, ingestão de quantidades ínfimas de comida (caso da anorexia), abandono do prazer de comer, zelo excessivo com o corpo” , exemplifica. Tese Os transtornos alimentares como a anorexia foram justamente o tema da tese de mestrado da antropóloga Daniela Ferreira Araújo Silva, defendida na Unicamp em 2004. Para escrevê-la, Daniela afirma ter navegado horas na Internet, entrando em listas de discussão, sites e blogs (espécie de diário virtual) sobre o assunto. “O que acho impressionante é que só recentemente começou-se a prestar mais atenção à anorexia no Brasil; no geral, as vítimas ficam bem desamparadas, porque a doença é vista como um sinal de vaidade” , aponta. “Encontrei tanto comunidades de apoio, para ajudar as pessoas, quanto de estímulo a doenças como a anorexia, que nesse caso era absurdamente encarada como um estilo de vida. Ainda assim, percebi que, mesmo quando incentivam o desenvolvimento da doença, os sites não são tão ruins, pois oferecem a oportunidade dessas pessoas falarem, compartilharem suas aflições. Conheci muitas meninas que foram internadas, e uma delas que morreu” , comenta a antropóloga

Comentários