06/09/2018 09h33

Depois dos 60 anos, os idosos são mais suscetíveis a problemas de saúde que agravam o quadros de desnutrição

Redação

Toda a evolução na medicina e o aumento da expectativa de vida no Brasil, dão a falsa impressão de hoje os idosos do país não só vivem mais, como melhor. No entanto, levantamento feito pelo jornal The Intercept Brasil, com base em dados tabulados pelo Datasus, mostra que ao longo de 20 anos as mortes por desnutrição em pessoas acima de 60 anos aumentaram 365%.

Em Mato Grosso do Sul, embora em nível menor, o fenômeno também se identifica, conforme apuração do Campo Grande News. Os dados mostram uma “montanha-russa”: ao final de 1996, 63 idosos morreram por falta de alimentação, número que, em 2006, atingiu 156 casos, e foi caindo aos poucos, para chegar a 71 em 2015.

Em 2016, último dado disponível, houve um novo aumento, para 77 registros. Comparando ao dado do início da série histórica, o aumento é de 22%, em um tipo de morte cuja expecativa era de redução, com a melhoria da qualidade de vida.

O levantamento mostram ainda a disparidade entre as ocorrências de morte por desnutrição em crianças, que no mesmo período tiveram redução de 86% em MS.

Para especialistas, a principal causa do aumento dos óbitos de idosos por desnutrição é a falta de investimento na saúde básica para essa população. “Interpretamos isso com um conjunto de fatores. Tem um impacto grande os menores recursos para a saúde básica, e existe um outro de natureza mais geral, como o crescimento da pobreza”, destacou Francisco Menzes, pesquisador da área de pobreza e segurança alimentar do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas).

Segundo Menzes, a partir de 2015 o crescimento da pobreza se acelerou e junto com ela a desnutrição. A situação se agrava ainda mais com a aprovação da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do Teto, em dezembro de 2016, que congelou os gastos públicos pelos próximos 20 anos.

“Acreditamos que essa PEC tem que ser revista e revogada. Ela vai se deparar com um bloqueio na saúde e educação. Tem que se buscar o equilíbrio fiscal, de outras formas, até porque a população vai crescendo, precisa de mais investimento”, reforçou.

Aos 60 – Depois dos 60 anos, os idosos são mais suscetíveis a problemas de saúde que agravam o quadros de desnutrição. A situação social, o afastamento da família, a demência senil, casos de depressão, doenças crônicas, o uso de vários medicamentos e a perda de dentes e da autonomia, formam a lista dos principais fatores de risco.

Jaciara Neve Morandi, nutricionista da Sirpha – Lar do Idoso – há 7 anos, lembra que quando os pacientes são idosos, as dificuldades com a alimentação envolve problemas como a perda da autonomia e do convívio familiar, além de doenças diretamente ligadas à idade, como a demência senil e a disfagia, que é dificuldade de engolir alimentos.

“O idoso com a demência senil, dependendo do grau, passa por vários problemas cognitivos, então ele perde coisas simples de fazer, comer, beber água, ele acaba esquecendo”, destacou Juciara.

No Sirpha, a maioria dos idosos internados foram retirados de situações de vulnerabilidade e hoje recebem seis refeições diárias – entre café da manhã, lanches, almoço e janta – com cuidados destinados a cada problema de saúde encontrado pela equipe.

“A maioria já vem com desnutrição para a gente, com uma deficiência alimentar. Aí é feito todo um trabalho. Tentamos manter a alimentação como era em casa e gradativamente vamos mudando. Temos pacientes que chegaram aqui na sonda, com desnutrição total, e hoje se alimenta muito bem. Para isso temos uma equipe multidisciplinar, com nutricionista, psicóloga, médicos voluntários, musicoterapeuta, fisioterapeuta, assistente social”.

Foi em uma maca, com um quadro grave de desnutrição, que a idosa de 74 anos – que terá a identidade preservada – chegou ao Sirpha. Hoje ela senta à mesa com os amigos e conta feliz que os pratos favoritos são a farofa e a sopa feita pelas cozinheiras. “Ela faz uma farofa, muito bom. E eu também gosto de sopa, adoro sopa”, diz enquanto espera pelo almoço.

Na favela – As principais causas da desnutrição em idosos se agrava ainda mais quando somada a pobreza. Para quem vive com menos de um salário mínimo, o desafio diário é não faltar comida na mesa, nem os remédios obrigatórios.

Em uma das vielas do Morro do Mandela, Doralina Duarte, de 68 anos, cuida da neta enquanto a filha, Maria de Lourdes, de 49 anos, prepara almoço na casa de um vizinho. O barraco singelo na favela passa por “reforma” para receber de fato a idosa, que hoje sofre com pressão e colesterol altos, e ainda convive com a possibilidade de uma cirurgia para retirada de uma hérnia no abdômen.

A família não morou sempre ali, mas diante da falta de dinheiro, após a morte do marido de Doralina, a mudança foi a única opção. “A gente mora em uma casa de aluguel, mas antes tinha o salário do meu padrasto para ajudar. Ele morreu vai fazer dois meses e o aluguel, com água e luz, é metade do que a mãe recebe”, explicou Maria.

Com os remédios os gastos chegam a R$ 200 reais, comprometendo quase toda a renda da família. Ali, o “jogo de cintura” é para que não falte comida. “Sempre compro no atacado, me esforço para não faltar nada, mas não consigo trabalhar. Preciso cuidar da mãe, não dá para deixar ela sozinha”, lembra Maria, que começa a ver sintomas de alzheimer em Doralina.

Diante da saúde da mãe, Maria decidiu “reformar” o barraco, investir na construção de um banheirinho e colocar piso. Os materiais conseguiu com ajuda de amigos e a obra é feita pelos vizinhos de comunidade. “Meu barraco foi mal feito. Quando chove entra água em tudo”, afirmou Doralina, mostrando as telhas.

Apesar das dificuldades, Doralina lembra de quando chegou a Campo Grande, com a filha ainda criança e da saudade que sente da cidade onde nasceu, Amambai. “Eu sinto uma saudade de lá, muita saudade mesmo. Meus irmãos moram lá ainda”, conta. No entanto, a viagem para quem batalha por comida na mesa é uma realidade distante.

Serviço – Criada há 40 anos, a Sirpha se instalou o bairro Nova Lima como uma casa a apoio aos pacientes com hanseníase do Hospital São Julião. Foi em 2005, com o avanço no tratamento da doença, que a finalidade da instituição mudou, e passou a receber e cuidar dos idosos.

Hoje, das 80 vagas oferecidas no local, 65 são preenchidas por pacientes encaminhados pela SAS (Sistema de Assistência à Saúde). O convênio garante um repasse da Prefeitura de Campo Grande de R$ 1900 por idoso, que assim que chega ao local, passa a receber também a aposentadoria.

“Esse salário, 70% fica com a instituição e 30% com o idoso”, conta o presidente da instituição, Mauri da Costa Lima. O valor de R$ 2.596 no entanto é muito longe do ideal para manter os pacientes. “Temos um gasto médio de R$ 4 mil por paciente”, afirmou. As outras 15 vagas são por procura espontânea, mantidas com doações de familiares.

O valor que falta para “fechar a conta” – cerca de R$ 92 mil – vem de doações e promoções de almoços beneficentes. “O últimos que fizemos foi o porco no rolete. Vamos fazer outro evento em novembro para conseguir pagar o 13º dos funcionários”, revelou Mauri.

Aqueles que quiserem ajudar a instituição podem entrar em contato pelo telefone (67) 3354 1878, ou procurarem a Sirpha, que fica na rua Luxo, 125, no bairro Nova Lima.

(*) Campo Grande News

Na Sirpha, idosos recebem seis refeições por dia (Foto: Henrique Kawaminami)

Barraco da família de Doralina no Morro do Mandela (Foto: Henrique Kawaminami)

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