No Dia da Consciência Negra, o pesquisador Mário Sá comenta sobre sua palestra “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”

Já se passaram 131 anos da abolição da escravatura, mas o racismo estrutural ainda é grande em uma sociedade que tem uma memória escravocrata de 400 anos.

E no Dia da Consciência Negra devemos refletir sobre essas práticas institucionais, históricas e culturais que impactam negativamente os grupos étnicos no Brasil.

Uma pesquisa do professor doutor em história, Mário Teixeira de Sá Junior, da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), resultou em um projeto que tem percorrido todo o Estado com o objetivo de combater o racismo estrutural e alertar crianças e jovens sobre o impacto da a Lei de Drogas (11.343/06) aos grupos vulneráveis.

DA PERIFERIA PARA A UNIVERSIDADE

O estímulo para a pesquisa de Mário veio das lembranças de sua adolescência, no início da década de 80, na periferia do Rio de Janeiro. Ele é branco, dos olhos azuis, mas já viu de perto o impacto negativo do racismo estrutural. “Eu vi muitos de meus amigos serem presos ou morrerem em confronto com a polícia. A grande maioria eram negros”.

Outro momento marcante na vida do pesquisador foi em sua ascensão da classe periférica para a classe média. “Eu comecei a perceber como eles olhavam para o negro da periferia, classificando como malandro, vagabundo que não gosta de trabalhar”.

E por lecionar e pesquisar sobre direitos humanos, minorias e temáticas raciais, ele percebeu a urgência em trabalhar o tema de forma que abrangesse um publico além das salas da universidade. Assim nasce a palestra “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”.

A pesquisa de Mário foi pautada pelas estatísticas do Infopen (boletim de levantamento de informações penitenciárias), que trazem dados dos presídios de Mato Grosso do Sul dos anos de 2014 a 2017, além de relatos de presos, de grupos vulneráveis. “Aqui está um dos motivos que foram determinantes para minha pesquisa. Perceber que quase 70% dos presos são negros, apesar de quase metade da população brasileira ser branca”.

Os dados também mostram que adolescentes presos tinha idade entre 14 e 17 anos e os jovens, 18 a 24 anos, a grande maioria com escolaridade de nível fundamental incompleto.

DA UNIVERSIDADE PARA AS ESCOLAS

Reprodução/Facebook

A linguagem do diálogo com o público da palestra é acessível, apresentada aos alunos no estilo de um Stand-up Comedy, conscientizando sobre assuntos sérios, de forma descontraída. “Precisamos falar com esses alunos, mostrar o quanto essa lei é punitiva aos grupos vulneráveis, já que não importa a quantidade de droga que o sujeito esteja portando para caracterizar tráfico de drogas, sem contar o risco de alguém ser preso pelo simples fato de ter estereótipo de traficante: negro, pobre. Minha utopia é reverter essa percepção, essa realidade”, frisou.

O professor comenta sobre o principal impacto que pretende causar em seu público. “Precisamos trabalhar com essa infância, com essa adolescência, ter um olhar mais específico com esses grupos vulneráveis, para que possamos garantir a eles seus direitos básicos, que é o lugar na sociedade que lhe cabe, com dignidade. Fazer uma sociedade mais justa, fraterna, humana. Esse é meu combustível na peregrinação pelas escolas”.

A palestra não entra em discussão sobre criminalização, liberação ou legalização de drogas. A proposta é esclarecer sobre a gravidade da Lei 11.343/06, responsável pelo aumento das prisões desses grupos vulneráveis (negros, indígenas, LGBTQ+, entre outros).

O projeto que teve início em março já percorreu 53 escolas de Mato Grosso do Sul até o momento e já impactou mais de 7.500 alunos de ensino fundamental e médio, principalmente de escolas públicas. “Precisamos dialogar com esse público que está nas escolas, temos muito a contribuir e aprender com eles também”, explicou o professor.

QUER TER A PALETRA EM SUA ESCOLA?

Com a agenda lotada até o final do ano, a palestra já deverá ter impactado aproximadamente 9 mil alunos no Estado. Para entrar em contato e solicitar a palestra em sua escola, o email do professor é: [email protected] .

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