08/03/2019 07h54

Segundo dados do Monitor da Violência, uma mulher é morta a cada duas horas no país. Em Três Lagoas, 607 mulheres pediram medida protetiva desde 2018

Redação

Hoje celebra-se, mundialmente, o Dia da Mulher. As mulheres brasileiras, entretanto, não têm muito a comemorar.

É simbólico saber que hoje a jovem Isabela Miranda de Oliveira, 19 anos, recebeu muitas flores – mas todas em forma de coroas, em seu velório, que está acontecendo em Caieiras, na Grande São Paulo.

Ela morreu depois de ser estuprada pelo próprio cunhado e queimada viva pelo namorado. Segundo relatos de testemunhas, ela – que não estava acostumada a bebidas alcoólicas – havia bebido demais em uma brincadeira de carnaval, em uma chácara onde amigos festejavam. Inconsciente, foi colocada na cama para se recuperar.

O cunhado aproveitou que a moça estava desacordada para estuprá-la. O namorado, ao ver a cena, espancou a namorada e tacou fogo no colchão onde ela dormia.

Isabela fazia faculdade de administração e trabalhava. Ela teve 80% do corpo queimado e estava internada desde o último domingo (3). O corpo dela está sendo velado no Velório de Caieiras, na Grande São Paulo, e o enterro está marcado para 10h.

UMA MULHER MORTA A CADA DUAS HORAS

Os registros de feminicídio cresceram no Brasil no último ano. É o que mostra um levantamento feito pelo G1 com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal.

Em Três Lagoas, 607 mulheres pediram medidas protetivas contra seus parceiros após serem agredidas, de 2018 para cá. Esses são dados divulgados pela Delegacia da Mulher da cidade. Mais de 1.200 boletins de ocorrência de violência domésticas foram lavrados no ano passado.

No Brasil, são 4.254 homicídios dolosos de mulheres, uma redução de 6,7% em relação a 2017, quando foram registrados 4.558 assassinatos – a queda é menor, porém, que a registrada se forem contabilizados também os homens.

Houve ainda um aumento no número de registros de feminicídio, ou seja, de casos em que mulheres foram mortas em crimes de ódio motivados pela condição de gênero. Foram 1.135 no ano passado, ante 1.047 em 2017.

O levantamento, publicado nesta sexta (8), Dia Internacional da Mulher, faz parte do Monitor da Violência, uma parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Desde 9 de março de 2015, a legislação prevê penalidades mais graves para homicídios que se encaixam na definição de feminicídio – ou seja, que envolvam “violência doméstica e familiar e/ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher”. Os casos mais comuns desses assassinatos ocorrem por motivos como a separação.

Os dados mostram que, quatro anos após a sanção da Lei do Feminicídio, há uma maior notificação desses casos — ou seja, mais delegados estão enquadrando os crimes como feminicídio, e não apenas como homicídio doloso. Diferentemente de anos anteriores, apenas um estado diz não possuir informações referentes ao crime: Mato Grosso.

Segundo a Secretaria da Segurança do estado, a Coordenadoria de Estatística e Análise Criminal trabalha apenas com dados dos boletins de ocorrência. “O feminicídio é uma circunstância que é apurada durante a investigação ou na fase processual”, diz.

CASOS EM 2019

Neste ano, os registros de feminicídios e de agressões a mulheres seguem recebendo destaque. Apenas nesta semana, a poucos dias do Dia Internacional da Mulher, diversos casos chamaram a atenção.

Em Borborema (SP), Thaís de Andrade, de 29 anos, morreu estrangulada pelo namorado na terça-feira (5). Segundo a polícia, o crime aconteceu durante uma briga do casal, quando os dois voltavam de uma festa de carnaval. Anderson Dornelos Urich, de 25 anos, foi preso.

No mesmo dia, um policial militar atirou na cabeça da própria mulher em Fortaleza.

Já em Goiânia, uma mulher de 42 anos disse que precisou se fingir de morta para que o ex-namorado parasse de agredi-la. Os dois haviam terminado o relacionamento há um mês por causa do ciúme excessivo dele. O homem, porém, não aceitou o fim do namoro.

“Partiu para cima de mim, me enforcou, me sufocava. Até que eu fingi de morta e ele me largou. […] Ele é forte, eu não dava conta de mexer. Depois ele foi só me estuprando, fazendo tudo comigo”, conta a mulher.

Na quarta-feira (6), mais de cinco casos de agressão a mulheres foram registrados em todo o país. Todas as investigações apontam para os companheiros das vítimas.

Em Três Lagoas, 30 mulheres registraram queixas de violência doméstica apenas neste ano.

Em Dores do Rio Preto (ES), Jane Cherubim, de 36 anos, foi espancada e abandonada em uma estrada. O principal suspeito é o seu namorado, Jonas Amaral.

Em Goiânia, Valdireno de Souza, de 36 anos, foi preso sob a suspeita de tentar matar a namorada a facadas. Ela tinha uma medida protetiva contra ele, mas os dois tinham reatado o namoro há uma semana.

Uma mulher foi encontrada morta em uma apartamento em Bom Despacho (MG), com 15 perfurações no corpo. O namorado, que é o principal suspeito do crime, se suicidou após o crime. A mulher tinha dois filhos A estudante Cíntia de Jesus Silva, de 22 anos, foi morta a tiros pelo companheiro na frente dos dois filhos em Guararema (SP). Após o crime, ele se matou.

Em Sumaré, Claudia Aragão, de 44 anos, foi morta a facadas pelo marido dentro de casa. Ele confessou o crime e foi preso.

Uma mulher foi morta por golpes de facão pelo seu marido, em Barcarena (PA). Segundo a polícia, ele foi esfaqueada até perder as forças. O homem fugiu.

Em fevereiro, um caso do Rio de Janeiro chamou a atenção de todo o país por conta do grau de violência. Elaine Perez Caparroz, de 55 anos, foi espancada durante quatro horas em seu apartamento por Vinícius Batista Serra, de 27 anos. Aquele foi o primeiro encontro dos dois, que tinham se conhecido na internet.

(Com informações do G1)


Isabela Miranda, que segundo relatos foi estuprada pelo cunhado e queimada viva pelo namorado em Franco da Rocha, Grande São Paulo.


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