Profissionais eram obrigados a trabalhar sem tomar água, mesmo com sensação térmica de 50ºC, e tinham a ida ao banheiro cronometrada pelo supervisor

(*) Reportagem atualizada em 16/10 às 8h11 para acréscimo da nota oficial da CTG Brasil

“Cadê o amigo? O amigo não trabalha?” Esses eram questionamentos frequentemente ouvidos por trabalhadores brasileiros quando precisavam ir ao banheiro ou tomar uma água no calor inclemente de Três Lagoas, durante a obra de manutenção das turbinas na Usina de Jupiá.

Os profissionais, contratados pela Power China, denunciam maus tratos por parte, especialmente, de um supervisor chinês. “Só não era trabalho escravo porque a gente recebia”, contou o eletricista Diego ao Perfil News.

Ele relata que o supervisor cronometrava com o celular quando um funcionário se ausentava para ir ao banheiro. “O amigo não trabalha?”, perguntava. Ele chegou a gravar algumas dessas indagações (ouça abaixo).

Além disso, o supervisor também reclamava quando alguém saía para beber água – mesmo em temperaturas que chegavam aos 50ºC de sensação térmica.

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Falta de EPI

Outra reclamação recorrente era a falta de equipamentos de segurança. Diego afirma que trabalhou com uma luva inadequada e teve queimadura nas mãos. Em outra oportunidade, quando foi solicitado que fizesse o mesmo trabalho com o mesmo EPI ele se recusou. Pouco depois, foi demitido.

“Eu soube que estavam com lista de cortes e pedi para me mandarem embora, porque eu sabia que não ia terminar bem”, contou. Antes dele outros dois foram demitidos e, depois, mais dois. “Estão cortando aos poucos, para não dar na cara”, afirmou.

Denúncia

Revoltados com as condições de trabalho, os profissionais chamaram o Sintiespav – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil Pesada – para intermediar uma solução.

O Presidente do Sindicato, Nivaldo Moreira, ficou revoltado com as denúncias. “É uma área de risco, de energia, e os profissionais precisam de todas as normas técnicas para poder atuar com segurança”. Segundo ele, aparentemente o supervisor contratado não entendia do setor de energia e não percebia os perigos a que submetia os funcionários. Além de não saber a respeito dos equipamentos de segurança, exigia que os funcionários cumprissem todo o trabalho antes de poderem beber água, mesmo com as altas temperaturas dos últimos dias. “E cronometrava com o celular as idas aos banheiros”, diz.

Outro ponto que assustou Nivaldo foi o remanejamento de funcionários para áreas de risco. “Eles manobravam trabalhadores de outros setores, como embobinamento, para a área elétrica, que não tinha nada a ver com eles. Isso trazia o risco de um acidente muito grave, porque colocam uma pessoa sem conhecimento em uma área de alta periculosidade”, afirma.

Segundo Nivaldo, foram realizadas reuniões com a Power China. “Sempre diziam que iam resolver, mas só pioravam”. Na última sexta-feira foi feita mais uma reunião, mas a situação ficou pior, porque na terça-feira o supervisor chegou ainda mais irritado. “Eles diziam que brasileiro é contratado para trabalhar e chinês, para mandar”, afirmou Nivaldo.

Foi nesse momento que o Sindicato foi acionado. No final da tarde de ontem, 14, a Power China afirmou que afastaria o supervisor das funções, por não ter condições de cuidar da equipe.

Também ontem o Sintiespav protocolou denúncia junto ao Ministério Público do Trabalho, para que o órgão acompanhe o caso. “Não podemos nos calar porque já houve uma morte nesse canteiro de obras”, afirmou Nivaldo, lembrando do caso ocorrido em dezembro do ano passado, quando Roni de Souza Arcini, de 35 anos, estava fazendo a montagem de uma peça quando a pá de uma das turbinas caiu sobre ele.

De acordo com Nivaldo, até hoje a Power China não encaminhou relatório ao sindicato sobre a apuração da morte de Roni.

Posicionamento da CTG Brasil

Procurada pela reportagem, a CTG Brasil enviou a seguinte nota:

Tomamos conhecimento do fato relatado e fomos informados pela Powerchina que o supervisor mencionado foi afastado. Para a CTG Brasil, a saúde, segurança e bem-estar das pessoas são valores inegociáveis. A empresa se pauta pelo respeito e pela ética em todas as suas relações e exige o mesmo comportamento de seus fornecedores. A CTG Brasil atende a legislação brasileira e reforça seu compromisso de longo prazo com o País. A empresa reforça ainda que dispõe de uma Linha Ética para receber preocupações e denúncias de colaboradores e terceiros sobre situações que estejam em desacordo com seu Código de Conduta.

Reclamações

Após um post publicado na página do jornalista Ricardo Ojeda sobre as reclamações em relação à Power China, outras pessoas se manifestaram. Veja alguns posts abaixo:

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