21/07/2017 09h39

O ato é a terceira maior causa de morte entre os adolescentes no mundo. A matéria traz uma entrevista com a psicóloga Janaina Catolino onde a especialista explica como identificar e lidar com o tema, principalmente no ambiente familiar.

Flávio Veras

A taxa de suicídio vem crescendo nos últimos anos no Brasil e no mundo, principalmente entre jovens e adolescentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ato, é a terceira maior causa de morte entre os adolescentes no mundo. No Brasil ele cresceu 30% nos últimos dez anos em todas as faixas etárias. Jogos como, o intitulado “Desafios da Baleia Azul”, vem contribuindo para essa onda crescente da medida extrema contra a própria vida.

Nesta semana a Polícia Civil Rio de Janeiro deflagrou a operação “Aquárius”. Objetivo dela é cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão, expedidos pela Justiça, contra os responsáveis pelos desafios. Além da região fluminense, a operação ainda está cumprindo mandados de prisão e de busca e apreensão em 20 municípios de nove estados brasileiros.

Durante esta primeira etapa, a operação apreendeu e prendeu ao menos 5 pessoas, que no contexto do jogo são conhecidas como “curadores”. Elas são responsáveis por aliciarem e propor desafios aos praticantes do jogo.

ENTENDA O JOGO

O jogo da Baleia azul não existe oficialmente. Não há um site ou coisa assim. É uma iniciativa de criminosos que usam as redes sociais para impor desafios macabros a crianças e adolescentes. Um grupo de organizadores, chamados “curadores”, propõe uma sequência de missões que envolvem isolamento social, automutilação e suicídio.

Segundo a Safernet (associação que combate violação de direitos humanos na internet), ele surgiu de uma notícia falsa na Rússia que se espalhou a partir de 2015. Desde abril, a DRCI investiga várias pessoas que estariam relacionadas aos crimes envolvendo o Baleia Azul.

IDOLO POP

Outro caso que chamou a atenção, foi a morte de Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park, que foi encontrado morto nesta quinta-feira (20) em sua casa perto de Los Angeles, na Califórnia (EUA), de acordo com a agência Associated Press. Segundo um porta-voz da polícia local, a morte é investigada como suicídio.

Devido a repercussão da operação e a morte de um ídolo POP, o Perfil News entrevistou a psicóloga Janaina Catolino sobre o tema. A especialista, entre outros assuntos, abordou principalmente a questão do ato ser tratado como tabu. Para ela, esconder ou se calar sobre o tema, contribui para o aumento dos suicidas.

ENTREVISTA

Porque crianças e adolescentes são mais influenciados por esse tipo de “jogo”?

“A adolescência é o período de transição da infância para a fase adulta, sendo caracterizada, principalmente, pela descoberta do “Eu”, pela busca de sua verdadeira identidade, pelo conflito de sentimentos e emoções e pela aceitação do outro em relação a si. Muitos adolescentes se sentem sozinhos e melancólicos, sendo para eles, extremamente importante serem aceitos em grupos que se identificam, dispostos a fazer o que for necessário para não serem excluídos. Devido a essa questão conflituosa de sentimentos e aceitação, é cada vez mais comum vermos jovens isolados em seus quartos com seus jogos, seus smartphones e seus contatos virtuais. Junto a isso, temos pais ocupados demais para notarem algo de diferente em seus filhos, com o pensamento de que o perigo está na rua, esquecendo-se que o perigo pode ser aquele melhor amigo virtual do filho. Como resultado, temos famílias cada vez mais distantes, em que pais e filhos não possuem a conexão necessária para que se conheçam e saibam o que de fato está acontecendo. Esse é o cenário propicio para que esse tipo de situação, como o jogo Baleia Azul, influencie a vida desses jovens, muitas vezes com desfechos desastrosos”.

Por que a taxa de suicídios vem crescendo no mundo e no Brasil nos últimos anos, principalmente entre jovens e adolescentes? Quais fatores influenciam esse aumento?

“Na verdade, o ato sempre apresentou números altos e alarmantes, porém, devido ao tabu existente acerca do assunto, pouco se divulga ou se comenta. Cada indivíduo possui suas particularidades e em casos de suicídio não se deve manter um padrão rígido de motivos, pois o que pra uma pessoa é uma gota, para outros pode ser um oceano. O suicídio nunca é motivado apenas por uma questão, mas por uma sequência de fatores. Mas através de estudos, podem-se verificar semelhanças entre os casos, sendo que os motivos mais comuns são: depressão, bullying, problemas de relacionamento com os pais, desorganização familiar, traumas físicos e/ou psicológicos, pressão referente ao futuro, desilusões amorosas e sentimentos de incompreensão e julgamentos”.

Como os pais devem agir ao perceberem um comportamento estranho dos seus filhos?

“É primordial no ambiente familiar, a existência do olhar atento e do diálogo sem julgamentos, sem preconceitos, sabedoria ao ouvir e acima de tudo se colocar no lugar do filho e ter a sensibilidade de aceitar que ali existe um individuo que possui seus problemas, suas angustias e seus medos. Qualquer mudança brusca no comportamento do filho deve ser levada em consideração. Recomenda-se que ao notarem essas mudanças, os pais procurem ajuda psicológica ou psiquiátrica, para que juntos com o terapeuta possam traçar estratégias e manejos para a solução do problema. Nunca se esquecendo que qualquer menção ou ameaça de suicídio, deve ser levada a sério, por mais falsa que pareça”.

Quais são os sinais que levam a traçar um perfil suicida de uma criança ou adolescente?

“Alguns sinais devem servir de alerta aos pais, professores e todos que convivem com essa criança, como: humor irritável/deprimido, baixa autoestima, queda no rendimento escolar, isolamento, mudanças relacionadas ao sono e ao apetite, despreocupação com aparência, automutilação, diminuição significativa de interesse em atividades que antes eram prazerosas, sentimentos de inutilidade, desesperança, ausência de planos para o futuro, perda de energia, capacidade reduzida para pensar e se concentrar, súbito interesse por assuntos relacionados à morte e frases autodepreciativas. Esses sintomas também devem ser levados em consideração em relação aos adultos”.

Porque o tema ainda é um tabu?

“Muito acredita-se que divulgar ou conversar sobre suicídio pode ser o gatilho que falta para que o individuo atente contra sua própria vida. Silenciar o suicídio não ajuda a combater o problema, pois ao contrário do que essa ideia nos passa, os números aumentam a cada dia e mesmo com todos os dados alarmantes, ainda evita-se falar sobre, ou porque é fraqueza, ou porque é pecado, ou porque a família não aceita e se envergonha do fato e da divulgação. E com todo esse preconceito e julgamento da sociedade, pessoas continuam morrendo e junto com elas, uma vida inteira que poderia ter sido diferente se tivessem recebido um olhar mais humano, atenção, cuidado e empatia”.

Falar sobre, ajuda a evitar o suicídio?

“As pessoas precisam entender que quanto maior o silêncio em torno desse assunto, mais pessoas vão sofrer e mais vidas serão perdidas. Se sentir a vontade para conversar sem receber julgamentos, pode ter efeito curativo nas pessoas que possuem ideação suicida. Porém, deve-se ter muito cuidado ao abordar o tema. O suicídio deve ser abordado de forma séria, sem que haja menção de métodos e primordialmente, fazendo a pessoa entender e enxergar que apesar de parecer, essa não é a única saída. Não podemos glamourizar e transformar o suicida em uma espécie de herói. A vítima de si próprio quer apenas matar a dor, mesmo que a consequência seja tirar a sua própria vida”, finalizou a psicóloga Janaina Catolino.

Desde abril, a DRCI investiga várias pessoas que estariam relacionadas aos crimes envolvendo o Baleia Azul. (Foto: Ilustrativa)

Segundo um porta-voz da polícia local, a morte é investigada como suicídio. (Foto: G1)

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