17/05/2018 16h35

Eventos vêm acontecendo durante toda a semana na cidade; gerente da Fundação Abrinq falou com exclusividade ao Perfil News e ajuda você a perceber os sinais de que alguém que você ama está sendo violado

Gisele Berto

“Queremos conclamar toda a sociedade e a família três-lagoense a denunciarem todo o crime de violência contra crianças e adolescentes”. Este foi o apelo da presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Três Lagoas, Laura Daniela Figueiredo Garcia Nascibem, no encerramento da Caminhada Pelo Fim da Violência Contra Crianças e Adolescentes, na Praça Senador Ramez Tebet, no Centro, na manhã desta quinta-feira, 17.

A caminhada, que contou com a participação da Banda Marcial Cristo Redentor, regida pelo maestro Luiz Carlos Relíquias, foi iniciada no cruzamento da Avenida Antônio Trajano dos Santos com a Rua Bruno Garcia e percorreu várias ruas do Centro até chegar na Praça Senador Ramez Tebet, com a finalidade de mobilizar toda a sociedade a proteger nossas crianças e adolescentes contra os crimes de abuso, violência e exploração sexual.

“Esta é uma manhã em que destacamos um assunto sério e que muitos não têm a coragem de enfrentar, que é a violência sexual contra crianças e adolescentes”, ressaltou a Secretária de Assistência Social de Três Lagoas, Vera Helena Arsioli Pinho.

“Nossas ações e mobilização mostram que Três Lagoas é uma cidade que protege as crianças e adolescentes, porque fazemos questão de fortalecer vínculos de convivência e valorização das nossas famílias”, ressaltou a Secretária de Assistência Social.

O evento público foi encerrado com o plantio de várias espécies de árvores e plantas ornamentais no espaço da Praça Senador Ramez Tebet, numa ação de parceria com a SEMEA.

ENTREVISTA

Para compreender melhor um assunto tão complexo e sensível quanto o abuso sexual infantil, o Perfil News conversou com a gerente executiva da Fundação Abrinq pelos Direitos das Crianças e Adolescentes, Denise Cesario, que traçou um perfil importante para que os pais e responsáveis entendam como acontece o abuso infantil e para que a sociedade se mobilize para impedir e proteger, de fato, as crianças. Acompanhe:

Perfil News: Os casos registrados de abuso infantil em Três Lagoas (MS) foram de 82 no ano passado e esse ano chegam a 20. A grande maioria deles tem como agressor uma pessoa bastante próxima da família, ou mesmo pertencente ao círculo familiar. Podemos afirmar que esses números estão aquém da realidade e que, na maioria dos casos, os abusos não são denunciados?

Denise Cesario: Certamente, sim. Em primeiro lugar, podemos afirmar que é um assunto tabu. Ninguém quer falar sobre isso devido à dificuldade de se encarar esse problema, à falta de entendimento e também porque quando a gente fala em violência sexual nós estamos falando de um contexto intrafamiliar, onde a maior parte dos casos ocorre – e ele ocorre em todas as classes sociais, sem distinção – ou, em menor número, no contexto extrafamiliar – ele pode ocorrer no entorno das casas, dentro de atividades específicas, no esporte, na escola, em uma série de lugares que não são dentro da residência.

Nós temos uma sociedade machista e ainda baseada em questões ultrapassadas. Em 1990, quando foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente, a criança não tinha direitos. E eram vistas, especialmente as mais vulneráveis, como incômodos. Em uma sociedade com perfil machista essas relações de autoridade e de poder acabam se impondo na utilização da criança e adolescente para satisfação sexual. Quando falamos de violência sexual estamos falando de um processo onde o mais fraco é coagido física ou psicologicamente, por meio de ameaças e da exploração de necessidades. E a violação ocorre desde um toque até o estupro e o atentado violento ao pudor, o que inclui a manipulação de áreas do corpo com algum contexto sexual. Estamos falando de um assunto que normalmente está relacionado a questões morais e sexuais. Isso traz uma dificuldade no enfrentamento.

É uma condição que afeta tanto meninas quanto meninos, e ele é cometido, na maior parte, pelo responsável pela criança ou adolescente. Estamos falando de pessoas muito relacionadas com a convivência da criança. Pessoas adultas que deveriam cuidar das crianças se utilizam dessa autoridade e poder que elas têm frente à criança e adolescente e acabam cometendo a violência sexual.

PN: O fato do abusador ser um parente ou amigo próximo torna ainda mais difícil para a criança fazer a denúncia?

Denise: Certamente, porque a criança, especialmente, tem um relacionamento com os adultos próximos que ela entende que é um relacionamento de cuidado, carinho. E muitas vezes ela não consegue diferenciar o que é um carinho e o que é um toque sexual. Então, isso confunde muito a cabeça da criança. Para o adolescente é mais fácil. Ele vai passando por um processo hormonal e tem mais condições de identificar o que aquilo significa. Mas sempre é muito difícil, tanto para a criança quanto para o adolescente, realizar a denúncia. Ali tem muitos fatores envolvidos. Tem a relação de poder, tem o fato que a criança muitas vezes depende daquele adulto financeiramente. Se isso ocorre pelas mãos do pai ou do padrasto muitas vezes a mãe também tem dificuldade em fazer a denúncia, porque tem relações emocionais e financeiras envolvidas.

Por isso nós desenvolvemos a campanha Pode Ser Abuso mostrando os sinais que podem significar que aquela criança ou adolescente está passando por uma situação de abuso sexual, tentando chamar atenção para que cuidadores, professores e pessoas que se relacionam com a criança fora do contexto familiar consigam identificar e ajudar essa criança a sair dessa situação. Quanto antes se consegue identificar a situação melhor é para que haja a interrupção dessa violação. É muito importante que a sociedade entenda esse problema e, por mais difícil que seja, que faça a denúncia. Porque apenas por meio das denúncias é que conseguimos fazer o encaminhamento devido, médico e psicológico para a vítima e a responsabilização do abusador.

PN: Muitas crianças não denunciam os abusos que sofrem porque têm medo de causar uma ruptura familiar (especialmente se o abusador é alguém próximo à família). Crianças que não denunciam porque acham que o pai ou a mãe “vão matar” o abusador. Qual o melhor caminho para essas crianças conversarem com seus pais sobre o que sofrem?

Denise: a melhor forma é a informação. Quanto mais informação a criança tiver, mais fácil será para ela contar para alguém. A escola é um grande aliado da criança e do adolescente. A escola tem profissionais mais preparados para perceber o que está acontecendo com a criança. As vítimas dão sinais que algo está errado. A criança começa a apresentar comportamentos diferentes. Caso o abuso chegue à parte física, essa criança vai ter dificuldade de se sentar, andar, a criança fica agressiva. Percebe-se mudanças no comportamento dela, ela fica irritada, violenta, chorosa, medrosa. Ela também passa a ter transtornos alimentares e de sono, ela fica muito cansada, desatenta na escola, e ela vai evitar ficar em grupos com amigos, se desinteressar pelas brincadeiras, e afeta o processo de aprendizagem. As crianças menores mostram isso também através dos desenhos. É fácil perceber, ela começa a utilizar cores muito escuras, desenhos agressivos, muitas vezes ela caracteriza cenas sexuais ou com conotações sexuais. A criança começa a evitar a pessoa que abusa dela e evita lugares e esses lugares pode ser onde ela esteja sento violada, então tem uma série de sinais que podem ajudar a identificar. No caso dos adolescentes você percebe também a mud
ança de comportamento, ele pode começar a usar álcool ou drogas por conta disso, muda a sua aparência e se desinteressa pela escola, fica agressivo, com notas ruins.

PN: Por outro lado, como os filhos podem iniciar uma conversa dessas com os pais? Se eles se sentem desconfortáveis com alguma situação que tenha ocorrido, de que forma ele pode pedir ajuda ou se informar sobre o assunto?

Denise: Os melhores caminhos são a informação e a educação sexual. Ele pode recorrer à escola, que tem esse papel importante. Além do professor ser um aliado na identificação dos sinais, faz parte da função do professor encaminhar a denúncia ao conselho tutelar ou centros de assistência social ou delegacias, o professor tem uma ferramenta importantíssima que é levar o conhecimento dentro das disciplinas. A educação sexual é a melhor maneira de levar a informação e o conhecimento sobre o desenvolvimento de sua sexualidade, sobre a composição do seu corpo e o desenvolvimento do seu corpo, até a idade adequada para que esse sujeito tenha uma sexualidade saudável. A escola é um aliado importantíssimo e fundamental.

PN: Como deve começar a conversa entre pais e filhos sobre abuso infantil? Qual a melhor idade para abordagem e como deve ser feita essa primeira conversa? Como os pais podem se preparar para essa conversa?

Denise: Não tem uma idade. As crianças vão passando por fases específicas durante o seu desenvolvimento. Desde cedo a família tem que tratar a questão da sexualidade de forma muito natural. Os órgãos genitais fazem parte da composição física e têm finalidades específicas, e as crianças precisam compreender a composição do seu corpo na idade adequada, de acordo com o seu desenvolvimento. Você vai tratando isso de forma progressiva e sem o aspecto moral, evitando situações com frase como “não toque aí”, não é assim. A criança, dependendo da idade, começa a se tocar e é curiosa, e quer saber “ah, o que é isso, pra que que serve?” e a família vai, pouco a pouco, tratando da questão, assim como a escola também vai abordando o assunto no conteúdo curricular para a criança entender sobre o seu desenvolvimento físico para que, no futuro, ele tenha uma sexualidade saudável. Conforme a demanda vai surgindo a família tem que ir respondendo. Não dá para dizer “olha, não toca aí, isso aí tem que ficar guardado, não pode…”. Não! Isso tem que ser tratado de forma natural de acordo com a idade com que a criança ou adolescente se encontre. Se a criança está perguntando é porque ela está curiosa e isso tem que ser tratado naturalmente, sem tabus.

A família deveria, desde cedo, encarar a sexualidade da criança e do adolescente de forma natural. A sexualidade faz parte da vida adulta. Então, para que você tenha uma sexualidade saudável, é necessário que esses estereótipos sejam deixados de lado. Tratar da sexualidade no contexto da família e no contexto escolar são formar de prevenir e orientar as crianças e adolescentes no desenvolvimento do seu corpo e de sua sexualidade para que esse adulto tenha uma sexualidade saudável no futuro.

PN: Se os pais sentem dificuldade em ter essa conversa com os filhos e tocar em assuntos de sexualidade com os filhos, eles podem procurar ajuda onde?Denise: Eles podem pedir ajuda nos postos de saúde, quando a criança vai passar em atendimento o médico pode também ajuda nessa abordagem. Além disso, os professores podem ajudar com explicações científicas. Cabe à família buscar apoio. O médico e os professores são boas referências para isso.

  • Denise Maria Cesario é gerente Executiva – Desenvolvimento de Programas e Projetos da Fundação Abrinq. Socióloga, especialista em gestão de projetos sociais e direitos da criança e do adolescente. Com percurso profissional nas áreas de assistência social e educação em organizações governamentais e não-governamentais, com atuação em órgãos do governo federal, estadual e municipal, na rede privada de educação e organizações do 3º setor.

Caminhada teve a finalidade de mobilizar toda a sociedade a proteger nossas crianças e adolescentes contra os crimes de abuso, violência e exploração sexual. Foto: Divulgação

Denise Cesario, gerente executiva da Fundação Abrinq

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