17/01/2019 16h14

Cidadãos afirmam que o valor das contas disparou de dois meses para cá. Muitas pessoas deixam boa parte do salário no pagamento da energia elétrica e comerciantes veem consumo disparar

Gisele Berto

Gás, luz e água. A tríade que compõe os custos básicos de uma residência está cada vez mais cara e difícil de sustentar por cidadãos de todo o país.

No caso da energia elétrica, esse gasto compromete seriamente o orçamento, chegando a disputar com o aluguel o prêmio de maior custo. Pior: em alguns casos, a luz chega a custar até o dobro do preço pago no aluguel.

Casas com quatro pessoas chegam a pagar quase meio salário mínimo apenas na energia elétrica. Mas não são apenas as famílias com filhos que sofrem. “Eu moro sozinho e só ligo o ar condicionado à noite. Esse valor não pode ser normal”, diz Emerson Ferreira de Souza, enquanto enfrenta a conta de luz de mais de R$ 320.

Revoltada com o aumento na conta da energia elétrica, a leitora Eliza Ahagon desabafou nas redes sociais. “Tem gente que ganha salário mínimo e paga R$ 300 de conta de luz. Não sei onde vamos parar”.

Veja mais reclamações de leitores no facebook do jornalista Ricardo Ojeda.

O DOBRO DO ALUGUEL

Não são só os usuários residenciais que viram os valores das contas de luz dispararem. Dono de uma conveniência há 18 anos na cidade, Nelson Alves Rodrigues, o Nelsão, não sabe mais o que fazer. “Já pedi para a Elektro vir aqui fazer uma vistoria no relógio e nunca vieram. Já cansei de reclamar”, disse o comerciante, que viu a conta aumentar mais de R$ 1500 em dois meses.

O comerciante, que costumava pagar na conta da energia elétrica o mesmo preço do aluguel (em torno de R$ 4 mil), viu o gasto alcançar mais do dobro do preço que ele paga pelo espaço onde mantém sua loja.

O aumento escalonado vem desde setembro. De R$ 7.600 a conta foi a R$ 9.100, depois a R$ 8.056 e, agora, R$ 9.141. “Não entendo o que está acontecendo. Não mudei nada aqui, o consumo é o mesmo, o mesmo número de freezers ligados, o mesmo horário de funcionamento. O que explica esse aumento absurdo?”.

Ele já tentou de tudo. “Disseram para mudar o padrão para um mais perto. Não adiantou nada. Já vi até para colocar energia solar, mas custa a partir de R$ 300 mil. Fica muito difícil”, lamenta.

Além disso, Nelson reclama da falta de atendimento da concessionária. “Uma cidade do tamanho de Três Lagoas não tem um plantão 24h. Um transformador parou na rua e eu fiquei sem energia elétrica de madrugada. Com diversos freezers de bebidas e dois de carnes. Corri atrás de ajuda, mas me disseram que o atendimento é só depois das 6h. E, ainda, quando a luz voltou, veio com muita carga e queimou o motor de duas geladeiras”, lembra Nelson, que ficou com um prejuízo de quase R$ 5 mil.

OS IMPOSTOS

Uma grande parcela da conta de energia é composta pelos tributos, distribuídos entre as esferas municipal, estadual e federal. A Elektro explica que o valor do ICMS – imposto estadual que representa a maior fatia da conta de luz – é escalonado: quem usa mais, paga mais.

Usuários que consumam até 50kWh são isentos. De 51 até 200 kWh, a incidência é de 17%. De 201 a 500 kWh, 20% e, acima de 500 kWh, 25%.

Entretanto o cálculo do ICMS é feito “por dentro”, ou seja, cumulativo no valor cheio, o que faz com que o ICMS acabe tendo um peso maior que sua alíquota nominal.

Em uma área de concessão com alíquota de ICMS de 25%, por exemplo, a cobrança “por dentro” acaba elevando seu impacto para 33%, assim, em uma conta de R$ 100, se o imposto fosse aplicado diretamente, o valor subiria para R$ 125, mas como imposto está embutido, o valor passa para R$ 133.

Incidem, ainda, as alíquotas federais de PIS (1,65%) e COFINS (7,6%). No âmbito municipal, o consumidor paga a taxa de iluminação pública, que tem valor variável e uma fórmula impossível de ser entendida pelo consumidor.

Usando o exemplo do comerciante Nelsão, dos R$ 9.141,58 que ele pagou de energia elétrica, R$ 3.118 foram, efetivamente, da energia elétrica, R$ 1.458 foram referentes à distribuição, R$ 516 foram para a transmissão, R$ 489 foram de perdas do sistema, R$ 996 são nos encargos e mais de R$ 1.900 foram para tributos, incluindo ICMS.

ENTENDENDO A CONTA

Supondo que um cliente gaste 520kWh em um mês com bandeira verde, ou seja, sem acréscimo devido à falta de chuvas e em um mês que não seja necessário acionar as usinas termoelétricas – mais caras. Sem incluir os impostos, esse cliente pagaria R$ 314. Desse valor, 54,7% seriam referentes à geração de energia, 24,77% seriam pela transmissão dessa energia, 69,98% seriam para pagar a distribuição e 47,81% seriam de subsídios.

Como, em cima disso, ainda são cobrados os impostos e tarifas, a conta de R$ 314 vai para R$ 483.

RAZÕES DO AUMENTO

De acordo com a Elektro, com o aumento da temperatura no verão, as geladeiras e freezers precisam “trabalhar mais” para manter a temperatura ideal dos alimentos e bebidas, e por isso consomem mais. Dessa forma, mesmo quem não tem ar condicionado sente o impacto do aumento do valor na conta de luz.

Além disso, outro fator que pode deixar a conta mais cara de um mês para outro é o calendário de leitura da conta. Por exemplo, a conta de dezembro inclui um período de novembro e dezembro. A conta de dezembro teve em média 31,5 dias ao passo que a de novembro teve 30,5, ou seja um dia a mais em relação ao mês anterior.

De acordo com a concessionária, ela procura efetuar a programação de maneira a ficar mais próximo possível de 30 dias, mas em decorrência de feriados e outros eventos esse período pode variar de mês para mês. A regulamentação define um período de faturamento mínimo de 27 e máximo de 33.

A PROXIMIDADE COM AS USINAS

“Um absurdo a conta de luz ser cara desse jeito, sendo que temos três usinas hidrelétricas no nosso quintal”. Recebemos esse questionamento de vários leitores e fomos atrás da resposta. Segundo a Elektro, essa distância entre as cidades e as UHE não tem influência no preço da conta.

“Os custos que compõem a tarifa, incluindo os de geração de energia, são divididos entre todos os consumidores de toda a área de concessão. Não há diferenciação de tarifa por localidade. Assim, os consumidores localizados em Três Lagoas têm as mesmas tarifas aplicadas aos demais municípios que fazem parte da área de concessão da Elektro”, afirmou a concessionária, por meio de nota.

TARIFA BRANCA

Quem gasta mais de 250kWh por mês e costuma usar mais energia elétrica em horários considerados fora do pico (por exemplo, quem trabalha fora, toma banho tarde e liga o ar condicionado apenas de madrugada) pode considerar pedir para mudar seu consumo para a Tarifa Branca.

Dessa forma, o preço da energia elétrica entre 22h e 17h, e aos finais de semana, é bem mais em conta. Mas é preciso ficar atento, porque o custo da energia das 17h às 22h será bem mais alto do que o da tarifa convencional.

Antes de mudar para a Tarifa Branca é aconselhável que o usuário estude bem seus hábitos, para não acabar pagando ainda mais caro na conta.

O comerciante Nelsão, inconformado com a conta que subiu mais de R$ 1500 em dois meses. Foto: Gisele Berto

Eliza mostra sua conta: quase R$ 440.

Reclamações nas redes sociais se acumulam. Reprodução

Fórmula para cálculo da COSIP. Alguém aí sabe fazer esse cálculo?

Componentes da fatura, sem os impostos. Reprodução do aplicativo Aneel Consumidor

Reclamações nas redes sociais se acumulam. Cidadãos estão assustados com os valores. Reprodução Facebook.

Além dos valores astronômicos, leitores reclamam das siglas enigmáticas. Foto: Reprodução

Fonte: Associação Brasileira dos Distribuidores de Energia Elétrica.

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