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terça-feira, 21 de abril de 2026

REFLEXÃO: “Rifa-se um coração quase novo…”

09/11/2002 14h31 – Atualizado em 09/11/2002 14h31

Rifa-se um coração quase novo.

Um coração idealista.

Um coração como poucos.

Um coração à moda antiga.

Um coração moleque, que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que, na realidade, está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar

sonhos e cultivar ilusões.

Um pouco inconseqüente , que nunca desiste de acreditar

nas pessoas.

Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia

estava certo quando escreveu…não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero…

Um idealista…um verdadeiro sonhador…

Rifa-se um coração que nunca aprende.

Que não endurece e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,

sendo simples e natural.

Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o

suficiente para se apaixonar.

Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.

Esse coração que erra, briga, se expõe.

Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.

Sai do sério e, às vezes, revê suas posições arrependido

de palavras e gestos.

Este coração tantas vezes incompreendido.

Tantas vezes provocado.

Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos

tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas

que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.

Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado

por quem gosta de emoções fortes.

Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente, contra indicado para os que apenas

pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem

armaduras e deixa louco o seu usuário.

Um coração que,quando parar de bater, ouvirá o seu

usuário dizer para São Pedro, na hora da prestação

de contas: “O Senhor pode conferir.

Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.

Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco

coração de criança que insiste em não endurecer

e se recusa a envelhecer”

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro, que tenha um pouco mais de juízo.

Um órgão mais fiel ao seu usuário.

Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser

que o abriga.

Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.

Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado,

provavelmente por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.

Um simples coração humano.

Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.

Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado,

faz questão de não se modernizar mas, vez por outra, constrange

o corpo que o domina.

Um velho coração que convence seu usuário a publicar

seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector

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