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domingo, 3 de maio de 2026

Primos de Lula já estão a caminho de Brasília

30/12/2002 08h38 – Atualizado em 30/12/2002 08h38

CAETÉS, Pe.“Enquanto a minha vaquinha / tiver couro e osso/ e puder com o chocalho / pendurado no pescoço/ eu vou ficando por aqui/ que Deus do céu me ajude/ quem sai da terra natal / em outro canto não pára/ só deixo meu Caetés, no último pau-de-arara”.

A bordo de um caminhão e criando uma nova versão para a letra do baião “Último pau-de-arara”, os parentes de Luís Inácio Lula da Silva deixaram ontem o Sítio Vargem Comprida, em Caetés, a 249 quilômetros de Recife. Mas o clima não era o de tristeza, que costuma marcar o início de viagem dos retirantes nordestinos. Também nem de longe lembrava a partida de dona Lindu, em 1952, quando decidiu fugir da seca com parentes e filhos, entre eles Lula. Ontem, o clima era de festa, animado por zabumba, triângulo e sanfona da bandinha Magia do Forró.

E o pau-de-arara não foi tão longe, como acontecia nas décadas passadas a cada estiagem. O pau-de-arara — que ainda hoje circula pelas estradas poeirentas da área rural de Caetés — foi só até as margens da BR-424. Lá, os parentes de Lula tomaram um ônibus com ar condicionado. O objetivo: percorrer 2.100 quilômetros até Brasília para assistir à posse na Presidência do hoje mais ilustre filho da terra.

Forró dá o tom da viagem – De Caetés, o ônibus foi à cidade vizinha de Garanhuns, a 230 quilômetros de Recife, onde pegou os outros 30 passageiros. Tudo marcado a forró, rojões e foguetório. Os preparativos para a longa e festiva viagem começaram há dois meses para a maioria dos parentes de Lula.

É o caso de Lindinalva Ferreira de Melo, de 53 anos, prima do presidente eleito. Catequista e vivendo com o marido da agricultura, eles trabalharam dobrado na casa de farinha para amealhar uns trocados a mais que facilitassem a viagem à capital. Compraram lanches e roupas novas.

Pobres, embora vivam em situação um pouco melhor do que a de Lula quando deixou Pernambuco, eles não precisaram se preocupar com o custo da viagem, mas apenas com pequenas despesas. É que empresários, políticos e agricultores abastados de Garanhuns e Caetés bancaram a viagem dos primos do petista, ao custo de R$ 350 por cabeça.

O patrocínio, porém, não foi suficiente para Lindinalva comprar a Bíblia com que pretendia presentear Lula.

— Queria dar uma Bíblia, para que a luz do livro sagrado o ilumine. Lula é um lutador, e como na Bíblia, em que os poderosos e grandes foram derrubados do trono, a chegada dele à Presidência representa o momento dos pequenos. Ele Perdeu três vezes, não desistiu e chegou lá. É uma honra para nós que ele tenha chegado lá. Deus lhe dê muita sabedoria — disse ela.

Para prima, Lula teve fé e força – Filha de Lindinalva, Margarete dos Santos Ferreira, de blusa vermelha, não conseguia disfarçar a alegria:

  • Estou feliz e emocionada. Sempre votei em Lula. Foi para ele meu primeiro voto para presidente. Ele representa a força dos pequenos que lutaram e conseguiram, admiro muito ele, porque não desistiu. Ele teve fé, força e coragem — afirmou.

Ontem a movimentação começou cedo no sítio na casa de Antônio Ferreira de Melo, o Antônio Sérgio, um dos mais eufóricos com a viagem. Como tudo é muito simples entre os parentes de Lula, a fartura não marcou o desjejum: queijo coalho, café preto, biscoitos. Depois, chegou a bandinha de forró e a dança começou no meio do terreiro. O pau-de-arara chegou às 9h e, uma hora depois, já estava cortando a caatinga, para deixar a família do presidente eleito os Silva na BR-424.

A partida de Garanhuns, no ônibus com ar condicionado, foi às 11h, uma hora depois do horário marcado, mas ninguém reclamou. Os primos de Lula devem chegar a Brasília na noite de hoje.

Mais velho dos primos de Lula que integram a comitiva, José Cazuza de Melo, de 65 anos, pensou em não viajar, pelo cansaço que a empreitada de de 31 horas dentro de um ônibus representaria. Mas mudou de idéia:

— Tinha que viajar, porque o cabra sair daqui com fome, como retirante, e virar presidente é uma coisa nunca vista no Brasil — explicou ele.

O ônibus carrega um cartaz no pára-brisa dianteiro com os dizeres “Lula, parentes e conterrâneos rumo ao Planalto”. Um letreiro eletrônico fazia a mesma indicação. Ao longo do percurso, militantes do PT, inclusive o prefeito de Caetés, José Luís de Lima Sampaio, o Zé da Luz, abriam bandeiras do partido.

A primeira parada só aconteceria três horas depois do início da viagem, em Propriá, no limite entre Sergipe e Alagoas. Ali, parentes de Lula que nunca tinham visto o rio São Francisco fizeram questão de posar para fotos. Na viagem, os lanches de sempre: peru do galinheiro, queijo coalho ou queijo do sertão e alguns biscoitos.

Apesar do clima festivo, a disciplina não foi esquecida. O coordenador da viagem, Marlos Duarte, distribuiu um texto com normas de bom comportamento, divididas em nove pontos. O último deles era “Companheirismo, solidariedade, e muita compreensão devem ser a base dessa excursão”. O prefeito de Caetés, que viajaria de avião, deixou o conforto do transporte aéreo e preferiu se juntar à comitiva:

— Não podia perder essa viagem histórica. Lula vai olhar pelo Nordeste.

Primo vive no mesmo sítio – A confiança no governo do primo ilustre também motivou Manoel Ferreira de Melo, o Manoel de Sérgio, a encarar a maratona rumo à Brasília. Ele mora no mesmo sítio em que Lula viveu, em Caetés, e, tal qual o presidente eleito, também perdeu um dedo num emprego em São Paulo. Com a indenização, comprou um caminhão velho, voltou para Pernambuco, e, ainda hoje, trabalha transportando carga.

Fonte: O Globo

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