01/04/2003 09h43 – Atualizado em 01/04/2003 09h43
Três meses depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a economia brasileira não só emite sinais evidentes de recuperação, mas também demonstra mais seriedade fiscal do que no próprio governo Fernando Henrique Cardoso.
Depois do pânico que tomou conta dos investidores nos meses que antecederam a eleição, esse é o diagnóstico que Wall Street faz agora do governo do PT.
“Não importa para onde você olhe, a condução econômica do governo Lula merece uma nota bastante alta”, afirma José Maria Barrionuevo, analista de mercados emergentes do banco Barclays Capital.
Ao lado de Paulo Leme, diretor do banco Goldman Sachs, e de Peter Hakim, presidente do centro de análise política Diálogo Inter-Americano, Barrionuevo foi um dos palestrantes do seminário promovido nesta segunda-feira em Nova York pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos para avaliar os primeiros três meses do governo do PT.
Antibiótico
De acordo com os analistas, a despeito do cenário econômico global adverso, se o Brasil continuar mantendo as contas públicas no azul, o dólar, que nesta segunda fechou em queda, a R$ 3,35, poderá cair ainda mais, possibilitando ao Banco Central cortar as taxas de juros num futuro próximo.
“O governo Lula tem exibido uma grande sensatez macroeconômica, surpreendendo os pessimistas,” disse Leme.
“Mas é preciso esperar mais um ou dois meses para começarmos a pensar em corte de juros. A inflação parece estar em queda, mas apresenta índices altos, próximos de 1% ao mês. É como tomar antibióticos. Você precisa ir até o fim do remédio.”
Todos os analistas presentes ao evento concordam que, apesar dos sinais positivos, como a queda do dólar e a valorização dos títulos brasileiros no mercado internacional, o Brasil só alcançará um ciclo de crescimento duradouro se realizar as reformas fiscal e previdenciária.
“A sustentabilidade da dívida brasileira está diretamente ligada à agilidade com que o governo Lula conseguir avançar as reformas no Congresso,” disse Barrionuevo.
“Tanto o presidente Lula quanto os ministros Antonio Palocci e José Dirceu são homens pragmáticos,” disse Leme. “No caso da reforma previdenciária, eles sabem exatamente que alavancas devem movimentar, aumentando o tempo de serviço e a idade para a aposentadoria dos contribuintes. Resta saber de sua disposição política para seguir adiante.”
Alca
No plano das relações entre os Estados Unidos e o Brasil, Peter Hakim disse que apesar das divergências ideológicas entre os governos Bush e Lula, os presidentes dos dois países conseguiram estabelecer uma agenda positiva mínima sobre várias questões, como as negociações para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a crise política na Venezuela.
“Temos visto diferenças de opinião sobre questões de comércio e a guerra do Iraque, mas não existe nenhum problema real,” disse Hakim.
Ele acredita, entretanto, que a menos que Brasil e Estados Unidos alcancem um nível significativo de entendimento sobre a Alca, ela poderá não sair do papel. “Estamos falando das duas maiores economias desse bloco, que têm diferenças de opinião muito profundas. Vista hoje, a Alca parece uma realidade distante.”
Quanto à crise política do governo do presidente venezuelano Hugo Chávez, Hakim afirmou que depois de uma primeira fase de atritos, Brasil e Estados Unidos passaram a trabalhar juntos para procurar uma resolução pacífica para a questão.
“Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos esperam que o petróleo continue jorrando na Venezuela e que haja uma acomodação razoável entre Chávez e a oposição,” afirmou.




