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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Zilda Arns e a luta diária para vencer a fome no Brasil

01/04/2003 09h03 – Atualizado em 01/04/2003 09h03

Ela tem 68 anos mas o vigor é de inspirar inveja em muitos jovens. Calma e doce, como qualquer avó, Zilda Arns é, na verdade, uma lutadora e depara praticamente todos os dias com seu inimigo, a fome advinda da miséria. E nesse ringue, a médica e sanitarista tem ganho espaço. Há 20 anos, Zilda fundou a Pastoral da Criança, uma organização subordinada à CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) que vem dando vida saudável a crianças que são vítimas da fome, no Brasil e em alguns países do mundo. A Pastoral da Criança ensina medidas práticas de luta contra a pobreza e desnutrição infantil.

Com agentes multiplicadores da própria sociedade, o que por si só já significa falar a mesma língua, a Pastoral pesa crianças e orienta mães. Entre os golpes contra esse mal da sociedade brasileira estão misturas simples, de açúcar, água fervida e sal, para barrar a diarréia, que ainda mata no País, e a combinação de ingredientes que iriam para o lixo, e que, reaproveitados, salvam crianças da desnutrição.

O trabalho também é ressaltado pela organizadora, que não esconde ser contra o paternalismo da distribuição de alimentos por si só. “Quando alguém oferece alguma coisa, naturalmente deve exigir algo em troca”, sugere ao se referir ao programa Fome Zero, do governo federal. Ainda que pense assim, Zilda Arns é uma das principais colaboradoras do atual governo e explica ser necessário paciência, porque a equipe é nova.

Cada palavra da médica pode ser interpretada como a necessidade de luta, que ela já vem travando há tempo. Mas ainda há espaço para comoção, mais uma tática de sua briga, ao pensar em crianças que passam fome e nem tem direito de ser cidadãs. “Conheço pessoas, mães e filhos que não tem registro de nascimento”, afirma.

Zilda nasceu em Forquilinha (SC) e aos 10 anos foi morar em Curitiba para estudar. Ao contrário de membros da família, como seu irmão Dom Paulo Evaristo Arns, preferiu não seguir a carreira religiosa. Queria liberdade e partiu para a área médica. Casada, teve cinco filhos, oito netos, e ficou viúva após 18 anos de matrimônio. Após a fundação da Pastoral da Criança, Zilda precisou confiar na educação que ofereceu aos filhos. Passa muito tempo viajando, já foi a diversos países para falar sobre a multiplicação de agentes da pastoral da saúde, e recebe muitos convites, como o de líderes palestinos que se interessaram pela organização. O trabalho rendeu a indicação para o prêmio Nobel da Paz, endossada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A indicação oficial vai ser feita em 9 de abril. Em Mato Grosso do Sul, onde sua organização atende 20936 crianças, a médica recebe o título de cidadã sul-mato-grossense. “Estou muito feliz de dizer que essa agora é minha terra”, resume.

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