03/04/2003 10h41 – Atualizado em 03/04/2003 10h41
Desde que a guerra começou, mais de sete mil iraquianos deixaram a Jordânia em direção ao Iraque, segundo dados oficiais do governo em Amã.
O governo jordaniano não explica as razões para o êxodo, mas, para as empresas que organizam o transporte até a fronteira com o Iraque, a maioria absoluta voltou para lutar contra o que chamam de “tropas invasoras”.
Diariamente, dezenas de iraquianos se reúnem na área de Al Sook, no centro de Amã, à espera dos ônibus fretados que os levam até Al Karama, na fronteira com o Iraque.
O iraquiano Abas Mosawi, de 43 anos, é um dos que decidiram enfrentar as 12 horas da arriscada viagem até Bagdá para lutar em defesa de seu país.
Petróleo
Mosawi nasceu em Najaf e vive há quatro anos na capital da Jordânia, onde sobrevive fazendo biscates.
Antes da guerra do Golfo, que terminou em 1991, ele tinha uma pequena metalurgica que acabou indo aa falencia pela escassez de materia-prima provocada pelas sancoes economicas impostas ao pais.
“Se a estrada para Bagda estiver bloqueada, vou para Nasyria, Basra ou qualquer lugar onde eu possa lutar contra os invasores”, disse Mosawi, pai de sete filhos.
Os motivos que fizeram o iraquiano de Bagdá Laith Fayed, de 25 anos, pedir demissão da loja de móveis onde trabalhava em Amã e voltar para o Iraque são os mesmos.
“Eles dizem que o inimigo é Saddam Hussein. Se isso fosse verdade, eles não precisariam assassinar civis e destruir a infraestrutura do Iraque. Eles querem o nosso petróleo”, opinou o iraquiano.
Viagem arriscada
Antes da guerra, a empresa de transporte Al Sharkia – uma das três especializadas no transporte de iraquianos – enviava apenas um ônibus por dia para Bagdá.
Com o início dos ataques, a procura pelos serviços aumentou tanto que a empresa passou a oferecer de três a cinco viagens por dia.
Por causa do risco de bombardeios na estrada, os ônibus jordanianos deixam os passageiros na fronteira da Jordânia com o Iraque, onde veículos do governo iraquiano fazem o resto da viagem, levando os iraquianos para as zonas de combate.
“Desde que a guerra começou, já transportamos mais de dois mil iraquianos. Todos diziam que iam lutar contra os invasores. Os ônibus vão cheios e voltam vazios”, disse Said Salama, gerente da empresa.
Refugiados
Enquanto mais de sete mil iraquianos deixaram o país em direção ao Iraque, o campo de refugiados de Rweished, na Jordânia, continua sem um refugiado iraquiano sequer.
O êxodo de iraquianos contraria a expectativa de muitos, que esperavam que o fluxo de migração seguisse na direção contrária, ou seja, do Iraque para Jordânia.
Atualmente, há 261 refugiados no campo, que fica perto da fronteira com o Iraque. Nenhum deles é iraquiano.
Apenas um casal de idosos iraquianos chegou à fronteira de Al Karama, na Jordânia, desde o início da guerra, com a intenção de conseguir ajuda para fazer uma operação.
Medo
Segundo Peter Kessler, porta-voz do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), os iraquianos temem ser alvo de bombardeios.
“Isso pode explicar a ausência de iraquianos. Eles podem estar com medo dos bloqueios e bombardeios na estrada”, disse Kessler à BBC Brasil.
Além disso, segundo ele, o pequeno número de refugiados é comum no início de qualquer conflito.
Para os iraquianos reunidos em Al Sook, no entanto, a explicação para a ausência de refugiados é outra.
“Ninguém está sendo obrigado a lutar, como dizem os americanos. Os iraquianos não estão saindo do país porque estão dispostos a morrer para resistir à invasão”, disse o jovem Laith, de 25 anos, que fazia parte do grupo à espera do transporte para o Iraque.





