06/05/2003 09h23 – Atualizado em 06/05/2003 09h23
JOHANNESBURGO, África do Sul — O ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela liderou os tributos a Walter Sisulu, um dos maiores símbolos da luta contra o regime do apartheid, que morreu em casa, aos 90 anos, na noite de segunda-feira.
“Que ele viva para sempre. Sua ausência deixa um vazio. Uma parte de mim se foi”, disse Mandela sobre o amigo de longa data.
“Num sentido, sinto-me trapaceado por Walter. Se há outra vida além desse mundo físico, eu gostaria de ter chegado lá primeiro, para que pudesse lhe dar as boas-vindas. A vida determinou o contrário”, acrescentou.
A estação de rádio 702 tocou o hino nacional sul-africano para marcar o falecimento, ocorrido depois de um longo período de problemas de saúde.
Ouvintes telefonaram para oferecer suas condolências à família, dizendo que a morte de Sisulu era uma grande perda para o país.
“Que a família se console na certeza de que toda a nação está com ela. Sisulu nos criou e por isso lhe seremos eternamente gratos”, disse um ouvinte, que se identificou como Solomon.
Ele lembrou como a libertação de Sisulu, em 1989, poucos meses antes de Mandela, alimentou as esperanças de que décadas de segregação racial estivessem chegando ao fim.
“Cada vez que eu o ouvia falar, fosse num comício ou em entrevistas à televisão, eu dizia: document.write Chr(39)Nós seremos libertados em brevedocument.write Chr(39)”, acrescentou Solomon.
Um porta-voz do Congresso Nacional Africano (CNA) declarou que a organização para a qual Sisulu dedicou grande parte de sua vida lamentava a morte de um pai e um herói.
“É uma perda trágica”, afirmou.
O presidente Thabo Mbeki, que sucedeu Mandela em 1999, descreveu Sisulu como “um milagre que Deus criou para sentir o gosto da fruta amarga do tempo”.
Sisulu começou sua carreira política liderando uma greve em uma padaria, que o demitiu, e acabou se tornando um dos principais membros do CNA.
“Juntos nós compartilhamos idéias, estabelecemos compromissos comuns”, lembrou Mandela. “Nós caminhamos lado a lado pelo vale da morte, cuidando dos ferimentos um do outro, apoiando um ao outro quando nossos passos vacilavam. Juntos nós saboreamos o gosto da liberdade”.
Enquanto Mandela veio a se tornar o rosto público da resistência – e, posteriormente, o primeiro presidente negro da África do Sul – o quieto e carismático Sisulu, talvez seu mais próximo confidente, continuava sendo um grande estrategista, nos bastidores.
“Sisulu está acima de todos nós na África do Sul”, disse Mandela, recentemente, a um grupo de crianças sul-africanas. “Vocês perguntarão qual a razão para seu status elevado. Muito simples, a humildade, a simplicidade. Porque ele nos colocou na frente e continuou quietamente nos bastidores”.
Uma história de sofrimento e luta
Sisulu veio da extrema pobreza e conheceu de primeira mão a indignidade da discriminação racial.
Nascido em 1912, o ano da criação do CNA, Sisulu fundou o braço armado da organização na batalha pelo fim da segregação racial e ajudou a conquistar a igualdade política para os negros sul-africanos.
Em 1963, foi detido e posteriormente julgado, juntamente com Mandela e outros ativistas, por planejar atos de sabotagem política.
A pena de morte era esperada, mas, sob pressão internacional, o juiz os condenou à prisão perpétua, e Sisulu e Mandela foram enviados para a famosa prisão da Ilha de Robben.
Sisulu foi transferido com Mandela para a prisão de Pollsmoor, na Cidade do Cabo, antes de sua libertação, em 1989.
A família de Sisulu também dedicou-se à luta contra o apartheid e sofreu muito. Os movimentos e os pronunciamentos de sua mulher, Albertina, foram restritos, entre 1964 e 1981, e ela passou 10 anos em prisão domiciliar. Quatro de seus cinco filhos foram presos ou tiveram que ir para o exílio.
“Esse governo não se sente confortável se não tiver um Sisulu na cadeia”, brincou certa vez seu filho, Zwelakhe.
(Com informações da Associated Press)






