16/05/2003 08h17 – Atualizado em 16/05/2003 08h17
O embaixador francês em Washington, Jean-David Levitte, escreveu uma carta ao presidente George W. Bush, queixando-se do que afirmou ser uma campanha deliberada do governo norte-americano para denegrir seu país.
Por conta desta campanha, segundo Levitte, a equipe de Bush repetidamente vazou informações falsas à imprensa, denunciando uma cumplicidade entre a França e o regime de Saddam Hussein.
“Gostaria de chamar a sua atenção para a natureza problemática e verdadeiramente inaceitável desta campanha de desinformação destinada a macular a imagem francesa e a enganar o público”, diz Levitte em sua carta.
O embaixador incluiu, em sua mensagem, um resumo de oito reportagens que, em sua opinião, refletem a campanha difamatória promovida pelos Estados Unidos. Algumas destas matérias, veiculadas tanto na televisão como em jornais, citavam “fontes da inteligência norte-americana”.
“A imagem da França poderia ser gravemente danificada por estas acusações falsas”, disse Levitte em entrevista à CNN.
O governo de Bush não escondeu sua profunda irritação com a consistente oposição da França – e também de Alemanha, Rússia e China – à sua tentativa de conquistar apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas para uma resolução que autorizasse uma ação militar contra o Iraque.
Funcionários da Casa Branca rejeitaram as alegações de Levitte. A carta do embaixador será entregue também ao Congresso norte-americano.
“Há muitas coisas de que não gostamos e não temos pudor em demonstrar”, comentou um assessor ligado a questões de segurança nacional. “Mas não existe uma campanha contra os franceses”.
Um outro funcionário classificou como “ridícula” a sugestão de que Washington procurou deliberadamente macular a imagem da França e referiu-se às queixas como “uma sensação de ressentimento” de alguns franceses.
Mas não foi só Levitte quem reclamou da postura norte-americana.
“Não podemos aceitar o fato de sermos acusados repetidamente de histórias que tiveram o governo como fonte e de coisas que não fizemos”, disse, irritado, um diplomata francês. “Quem fez isso? E com que propósito?”.
Um outro diplomata desabafou: “Nosso objetivo não é apontar o dedo para os outros. Só queremos que isso pare”.
Uma das reportagens citadas na carta de Levitte foi um artigo do jornal The Washington Times, o qual sugeria que fontes da inteligência norte-americana haviam recebido informações de que autoridades francesas na Síria estavam ajudando líderes iraquianos a fugir dos militares da coalizão.
Para tal, segundo o jornal, essas autoridades estavam emitindo passaportes franceses para os iraquianos em fuga.
Uma outra reportagem, do The New York Times, alegou que, em 1998, França e Alemanha forneceram ao Iraque equipamentos de precisão, usados na detonação de bombas nucleares.
A embaixada francesa em Washington respondeu com uma carta, negando que o país tivesse feito tal transação. A mensagem foi publicada na coluna “Cartas ao Editor”.
Por sua vez, o The Washington Post publicou uma reportagem, intitulada “Quatro Países que se Acredita tenham Vírus da Varíola”, dizendo que França, Rússia, Iraque e Coréia do Norte possuíam cepas da doença.
Tal informação, segundo o jornal, também havia sido fornecida por “uma fonte da inteligência norte-americana”. Diante das queixas da embaixada francesa, o Post retratou-se e afirmou que o estoque daquele país encontrava-se dentro do permitido pela Organização Mundial de Saúde.
Outras reportagens citadas por Levitte na carta e que seriam falsas diziam respeito a supostos envios de componentes de mísseis para o Iraque, bem como aviões, blindados e radares.




