21/07/2003 08h03 – Atualizado em 21/07/2003 08h03
O juiz britânico Brian Hutton deve divulgar nesta segunda-feira os detalhes do inquérito que será instaurado para apurar as circunstâncias que levaram à morte do especialista em armas de destruição em massa David Kelly.
A investigação foi anunciada pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que prometeu prestar o seu depoimento no caso.
Blair também disse estar satisfeito com a confirmação da BBC de que Kelly foi a principal fonte da reportagem que alegava que o governo exagerou nas informações sobre o programa de armas do Iraque.
O cientista foi encontrado morto com um corte no pulso perto de sua casa, na última sexta-feira. Segundo a polícia, não há indícios do envolvimento de outras pessoas.
Inquérito:
Além de Blair, altos funcionários do governo britânico assim como a BBC devem ser convocados para depor.
A especialista em política da BBC Carol Quinn afirma que o juiz deve adiar a investigação, que poderia começar ainda nesta semana, em respeito à família de Kelly.
A reportagem levou a uma disputa entre o governo britânico e a BBC.
“Quaisquer que sejam as diferenças, ninguém esperava esta tragédia”, afirmou Blair, que está em em Pequim, na China.
Apesar do lamento, o premiê voltou a dizer que não pretende renunciar por causa do caso e que não vê necessidade de abreviar sua visita à Ásia.
BBC sob pressão:
Embora a reportagem tenha dado força a acusações de que o governo britânico distorceu informações para convencer a população britânica da necessidade de ir à guerra contra o Iraque, o comportamento da BBC no caso também está sendo questionado.
A imprensa britânica desta segunda-feira está repleta de críticas à empresa. O jornal The Times afirma que a reputação da BBC está em risco e que a empresa precisa esclarecer sérias dúvidas sobre a reportagem.
Já o tablóide The Sun acusa a BBC de assistir passivamente às pressões do governo sobre Kelly.
O diretor de jornalismo da BBC, Richard Sambrook, confirmou publicamente que Kelly era a fonte da polêmica reportagem neste domingo, depois de falar com a família do cientista.
Sambrook afirmou que a BBC acreditou ter interpretado e reproduzido corretamente as informações obtidas de Kelly durante uma série de entrevistas.
O diretor de jornalismo disse ainda que a empresa havia dado a Kelly seu voto de confidencialidade e que “lamenta profundamente” o fato de o envolvimento do especialista na reportagem ter terminado em tragédia.
Kelly, que foi inspetor de armas da ONU no Iraque nos anos 90 e era conselheiro do Ministério da Defesa da Grã-Bretanha, havia sido apontado pelo governo britânico como a fonte que teria dado ao jornalista Andrew Gilligan, da BBC, informações sobre o programa de armas do Iraque.
A família de Kelly afirmou, no sábado, que ele estava sob forte tensão depois de ter sido interrogado por uma comissão parlamentar sobre a maneira pela qual o governo britânico justificou a invasão ao Iraque.
Na ocasião, o ex-inspetor negou ter sido a fonte para a reportagem da BBC, apesar de ter confirmado uma conversa com Gilligan.
David Kelly, um microbiólogo formado na renomada Universidade de Oxford, estava trabalhando como conselheiro científico para o secretariado de proliferação e controle de armas há mais de três anos.
Ele trabalhou como inspetor de armas no Iraque depois da Guerra do Golfo, entre 1991 e 1998.
Em 1994, ele se tornou conselheiro-sênior em armas biológicas da ONU.
Kelly tinha 59 anos, era casado e tinha três filhas.
Vizinhos descreveram a família como “adorável”.
Fonte: BBC Brasil


